Desbravamento
Publicação: 22 de Novembro de 2009 às 00:00
Carmen Vasconcelos - Poeta
Não sou daqui, nem de longe. Sou escondida e espessa. De vez em quando apareço...Sou isto, só: sou devoção à poesia, no meu sempre recomeço.
Sou devoção à poesia. E não sou ferro, nem farsa. Às vezes, sim, arrefeço.
Não porto sóis, nem cimento. Nem tanto sorriso, tampouco. Venho contida, minguada. Não sou daqui, reconheço.
Venho munida de águas, porque as querem as flores. Venho fornida de pedras, porque as querem as facas. Não sou daqui, nem dos lares. De vez em quando me esqueço.
Trago retinas andantes, ciganas. Já viram tanto, nadaram. Espelhos antigos, fixaram. Retinas rutilantes, pecaram. De vez em quando endoideço.
E quando endoido, me bandeio para antiguidades, para refúgios de ágata e cambraia. Gosto de mim, nas coxias. De vez em quando estremeço.
Tenho um destino rançoso, de ser mendiga e avara. Fujo do dia ruidoso. De vez em quando escureço.
Ando sem par, sem canções. Não tenho voz, nem padrinhos. Meu dia é curto e cansado. De vez em quando esmoreço.
Mas há motivos, é certo, de caminhar sobre as águas. De levitar sobre urtigas. Há porquês, é certo, no mundo e na Espanha. Poucos porquês, mas espessos. Sou espessa também, e teimosa. De vez em quando, aconteço.
Nem daqui, nem de lá, viro pêndulo. Espero as forças contrárias. De tudo um pouco querendo. Lá e cá, ritmada. De vez em quando amorteço.
Agrada-me a musa quando vem com rumores. De vez em quando me agarra. De vez em quando enlanguesço.
E há uns ninhos, mereço. Arrumo as palhas, arrulho. Recebo mel em favinhos. De vez em quando floresço.
Mas chegam dias ambíguos, gatos escaldados. Rolo na cama, me avesso. Sonhos não há, só funduras. De vez em quando pereço.
Mas findo o fundo, vive a volta. A insônia vai, adormeço.
"E assim, nas calhas da roda" eu giro feito coração. Às vezes tropeço. Ergo ventas, abro ventanas. Boto a cara no vento, boto a palavra. Com quem converso?
Com poucos. Pouco eu sei, poucos me sabem. Mas os meus poucos são imensos. Por eles, valho. De vez em quando, ah, eu permaneço.
Sim, eu fico, pois conheço a noite, o espesso; conheço as sombras, ando nas linhas das mãos sem esbarrar. Ando fora das linhas. E de andar nas mãos, no destino, de vez em quando careço.
Porque careço, quero mais que milagres. Quero amor, corrente contínua serena. Quero o sereno benfazejo. Então anoiteço.
Conheço o dia também, me disperso. Conheço os claros e os começos. Não abro mão do aberto. De vez em quando amanheço.
Verso entre aspas: Fernando Pessoa.