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Natal, 09 de Setembro de 2010 | Atualizado às 00:19

Deu trinca na rede

Publicação: 08 de Agosto de 2009 às 00:00
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Silvio Santiago - Especial para o Viver

Não faz tanto tempo em que artistas, particularmente da música, que não estivessem nos grandes centros do Brasil, como Rio de Janeiro e São Paulo, tinham que se deslocar de suas regiões para tentar o sucesso no então chamado “sul maravilha”. E a peregrinação deles incluía bater a porta de gravadoras, rádios, TVs, jornais para que seus trabalhos tivessem alcance nacional. Nos últimos anos, com o advento da internet, essa distância entre autor e ouvinte deixou de existir. Aliás, esse alcance ultrapassou as fronteiras nacionais e é capaz de atingir proporções mundiais. E o que é melhor, sem sair de casa.
DivulgaçãoA Trinca: Leonardo Palhano, Bruno Alexandre e Raphael BJoeA Trinca: Leonardo Palhano, Bruno Alexandre e Raphael BJoe

Hoje, são inúmeros os exemplos de artistas e bandas que têm grande divulgação na internet para só depois gravarem o seu primeiro disco para, então, distribuí-lo – inclusive, virtualmente. Esse fenômeno – primeiro formar público na rede mundial de computadores e posteriormente lançar o CD – está sendo o caminho natural para os potiguares do Projeto Trinca – ou, simplesmente, Trinca.

Formado em janeiro deste ano por Bruno Alexandre (voz e percussão), Leonardo Palhano (voz, guitarra, violão e cavaquinho) e Raphael BJoe (vocais, guitarra, teclado, violão, escaleta e flauta), Trinca rapidamente vem se firmando como revelação da novíssima geração da música produzida no Rio Grande do Norte. Sua página no MySpace (www. myspace.com/projetotrinca), com apenas algumas semanas no ar já é uma das mais acessadas pelos internautas que vivem à procura de novidades – no caso, de excelente qualidade.

Lá estão cinco das 11 músicas que comporão o seu álbum de estreia, intitulado “O Nosso Disco Dava Um Filme”. Ele é um dos 46 projetos selecionados pelo Prêmio Núbia Lafayette, promovido pelo Governo do RN através da Fundação José Augusto, o qual objetiva incentivar, valorizar e divulgar a produção de obras musicais norte-rio-grandenses, ampliando o acervo cultural do Estado e fomentando, assim, a indústria fonográfica local.

Em cada uma das composições do trio potiguar disponível na internet, é notória a influência da banda fluminense Los Hermanos. Mas, apesar disso ser uma boa referência, Trinca vai além da levada dos hermanos barbudos.

 Na instrumental “Amnésia”, composta por Raphael BJoe e inspirada no filme “Cyborg”, de Albert Pyun, pode-se identificar o experimentalismo eletrônico da cultuada banda inglesa Radiohead. Já em “Sob a Luz do Meu Cigarro”, são marcantes os riffs de guitarra característicos de Johnny Marr, dos também ingleses Smiths, que influenciou a maioria das bandas dos anos 1990 e destes 2000 ao redor do mundo.

A letra dessa música, cuja melodia seduz à primeira audição, é uma parceria de Leonardo Palhano com a cantora e compositora Simona Talma e aborda o amor, tema recorrente em quase todas as outras composições do trio: “A gente teve um encontro, meu bem / Me diz como explicar / Os olhos se beijam e brindam o ar / Só queremos o amor / Só queremos amar”. Outra parceria entre Palhano e Talma – considerada por muitos a mais cool das novas cantoras desta terra de Poti – é “Dentro da Visão do Teu Rosto”. Nela, os elegantes arranjos de metais e teclados servem de base para frases como “Amanhece comigo / Em algum lugar aonde o sono não chegue / Onde teus olhos descansem nos meus”.

Em “Estranho Estrago”, uma canção não-linear, de arranjo intricado, mas coeso, o existencialismo é latente: “Faço tudo pra dar certo / Mas você diz que meu erro foi demais / O meu sonho é riscar um muro com as nossas iniciais / Experimente todas as nossas diferenças / Se jogue um pouco na minha boemia / Eu te peço hoje: felicidade por todos os meus dias”. É tudo de tamanho bom gosto, que até mesmo a escatologia no final de “Aproveite” ficou interessante, contundente. Nela, Bruno Alexandre, autor da maioria das letras, usa o eu-lírico feminino sobre a música de Rodrigo Sena. Ela é introduzida pela participação de Edilene Almeida, mãe de Raphael BJoe, interpretando um trecho de “Vendavais”, de Shirley Carvalhaes.

Apesar dessas músicas disponibilizadas na internet terem sido gravadas artesanalmente por Raphael BJoe em seu quarto, transformado num mini-estúdio, já se pode perceber o alto nível de sofisticação nas criações do Trinca. No disco, produzido e arranjado por Raphael BJoe e que deverá ser gravado dentro dos próximos três meses, conforme cláusula do contrato assinado nesta semana pelo trio com a Fundação José Augusto, esse refinamento só será aperfeiçoado. Com participação de músicos convidados na bateria, no baixo, no trompete e no violoncelo, ele está previsto para ser lançado ainda neste semestre.


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