Dez presos serram grades e fogem da delegacia
Publicação: 12 de Maro de 2010 às 00:00
O policial civil Áurio César não teve sorte no primeiro dia de trabalho após as curtas, mas merecidas, férias. Ele era o único agente da Polícia Civil de plantão na Delegacia de Canguaretama, a 76 km de Natal, na madrugada de ontem, quando fugiram 10, dos 37 presos, considerados perigosos e que estão detidos, irregularmente, no local. Mesmo sozinho, Áurio César ainda conseguiu evitar que mais bandidos ganhassem a liberdade.
As grades das celas números dois e três - esta era originalmente um local destinado apenas para o banho de sol dos presos apresentam marcas que podem explicar como tudo aconteceu. Com uma serra, os presos abriram um espaço entre as grades e utilizaram as duas barras de ferro retiradas para afastar o portão - também de ferro - que dá acesso ao lado de fora da delegacia. De lá para a liberdade, foi apenas "um pulo".
"Estava descansando na sala da Delegacia quando ouvi o barulho dos presos forçando o portão. Abri a porta de entrada da DP e os vi pulando o muro e chegando à rua. Disparei uma vez para que eles parassem e deu certo. Três presos, que já haviam passado pelo portão, deitaram no chão e foram reconduzidos para as celas", afirmou o policial. Outros onze presos estavam esperando para passar pelo portão quando o policial disparou e também desistiram da fuga.
Os policiais militares que ficam de plantão no Batalhão da cidade, localizado a poucos metros da delegacia, ajudaram Áurio César a levar os presos para a cela número um, a única que não teve as grades serradas. Eles ficaram lá até, quase, o final da manhã, quando uma equipe, contratada pela prefeitura da cidade, chegou para soldar as grades danificadas e permitir que o local recebesse os presos. Pela manhã, também foram realizadas diligências pela cidade e, sobretudo, na região rural de Canguaretama, com a ajuda da PM, mas ninguém foi recapturado. "São bandidos perigosos. A maioria é assaltante e, com certeza, eles vão voltar a cometer crimes assim que tiverem oportunidade, já que estão fora da prisão", afirmou o escrivão da delegacia, Eudes Jerônimo.
Com a situação que a delegacia se encontra, era esperado que isso fosse acontecer. Áurio César voltou das férias antes do tempo previsto devido a um problema antigo enfrentado pela Polícia Civil: a falta de agentes, sobretudo, no interior do Estado. "Um agente daqui está de licença, com depressão, e outro entrou de férias. Por isso, a escala fica com apenas um. Há sempre falta de pessoal. Só temos um chefe de investigação e um escrivão também", afirmou César.
O policial confessou ainda que correu risco de morte por estar sozinho no momento da fuga. "Poderia ter sido derrubado com essas barras de ferro. São 37 contra apenas um. Eles teriam me matado e ainda levado as armas da delegacia sem muita dificuldade", afirmou o policial.
O delegado responsável pelo município de Canguaretama e outras nove cidades, José Antônio Silva Júnior, afirmou que a situação de presos nas DPs ainda é comum, sobretudo, no interior do Estado. "Em todas as delegacias que sou responsável há presos. Fazemos um pedido para o encaminhamento de alguns deles para os presídios provisórios, demora bastante, mas levam um ou dois. O problema é que nessas cidades próximas da praia, como Canguaretama, há muito furto, assalto e flagrante também", afirmou o delegado.
A retirada dos presos das delegacias, por sinal, foi uma das reivindicações do Sindicato dos Policiais Civis e Servidores da Segurança Pública do Estado (Sinpol/RN) na greve ocorrida em novembro de 2010 e mesmo agora, com a possibilidade de uma nova paralisação, continua sem ser atendida. "Soube que retiraram os detentos das delegacias da Grande Natal, mas aqui no interior, a situação continua a mesma", afirmou.
Estado pode ser responsabilizado
Segundo o advogado criminalista Raimundo Mendes, a responsabilidade é do Estado se uma pessoa que fugiu de uma dessas delegacias cometer um novo crime. "Se o Estado não deu vigilância suficiente para manter o preso fora do convívio social, é responsabilidade dele também se agora esse foragido vir a cometer algum crime", afirmou o advogado, reforçando que as vítimas podem, inclusive, entrar com uma ação na Justiça nesse caso que é, quase certo, uma indenização.
"Tenho, inclusive, um processo ganho, em fase de execução, de uma ação movida contra o Estado devido a um rapaz que fugiu de uma delegacia, ter assaltado uma loja e assassinado um pai de família", contou o advogado Raimundo Mendes.
O medo de moradores de Canguaretama que a violência aumente com a fuga desses presos existe, sobretudo, naqueles que trabalham em pequenos comércios. "Às vezes, quando tem casos assim, como fugas, procuramos abrir a loja um pouco mais tarde, ou até fechar um pouco mais cedo, para evitar a violência. Temos medo de sermos abordados por esses bandidos foragidos", afirmou o comerciante Edgar Barbosa, dono de um pequeno mercado vizinho à delegacia da cidade.