A morte dos dois casais de chineses – os comerciantes Jin Warguai, 39, Zhon Maozlen, 36, Zhang Haiyan, 38, e Lixong Lin, 36 – pode ter sido motivada por uma transação comercial em andamento. Essa não é a única hipótese com a qual a polícia trabalha, mas segundo fontes ligadas às investigações, é a mais forte. A disputa comercial envolveria “uma grande soma em dinheiro”.
Júnior Santos
Casais de chineses foram executados e os corpos deixados numa estrada no município de Macaíba
O inquérito está sendo conduzido pela equipe da Delegacia Especializada em Investigação ao Crime Organizado (Deicor). Já está descartada, praticamente, a hipótese de latrocínio (morte seguida de roubo), uma vez que nenhum dos pertences, o carro e dinheiro que estava com as vítimas foram levados pelos assassinos. A forma como os quatros foram mortos e os poucos indícios no local onde os corpos foram deixados reforçam, ainda, a suspeita de execução por profissionais.
De acordo com a fonte da TN, como as investigações estão no início, há muita suposição, entretanto, a polícia acredita que o alvo principal seria Jin Warguai, proprietário da empresa Gol Sol, localizada no bairro do Alecrim e dono da caminhonete Hilux, o veículo encontrado no local onde estavam os corpos. Zhon Maozlen, a mulher de Jin, e o outro casal, Zhang Haiyan e Lixong Lin, teriam morrido por estarem de carona na hora errada.
Desvendar a autoria do delito, não parece tão difícil. Parte dos policias que investigam o crime estuda a possibilidade de o autor dos disparos estar no Rio Grande do Norte. Linha de investigação que o delegado Maurílio Pinto de Medeiros, titular da Delegacia Especializada em Capturas e Polinter também defende. “Quem matou os chineses está aqui. Não é de fora. O crime pode ter sido cometido por causa de dinheiro”.
Das quatro vítimas, apenas uma das mulheres foi atingida com dois disparos, um deles na cabeça e outro nas costas. A mulher não teve o nome revelado, pois faltava documentação com a foto e não havia certeza se ela era Zhon ou Lin. O prazo máximo para o Itep concluir o laudo pericial da morte dos estrangeiros é de 45 dias, entretanto, pode ficar pronto antes disso.
O Itep não informou a arma utilizada no crime, no entanto, uma das fontes da TN disse não acreditar em arma de grosso calibre. Caso tivesse sido utilizado uma pistola, a perícia teria encontrado fragmentos no local. Não daria para esconder ou recolher todo o material. Dai, a possibilidade de ter sido um revólver calibre 38. Nenhuma cápsula de bala deflagrada foi encontrada. Também não haviam sinais de pegadas, pneus de carros, pontas de cigarros... “O local foi limpo”, comentou um dos policiais.
Também não é possível ainda saber qual dos chineses foi morto primeiro. Os policiais acreditam que as vítimas foram executadas no mesmo local onde os corpos foram encontrados e no mesmo dia do desaparecimento (quinta-feira passada). Pela forma como os cadáveres foram localizados – de bruços – os assassinos teriam determinado que as vítimas se deitassem no chão, em fileira e, depois atiraram. Não houve tortura. No domingo (7) quando foram localizados, em uma estrada carroçável, em Macaíba, os corpos já estavam em estado de putrefação.
Casal que pegou carona estava no local e hora errados
A amizade que unia Jin Warguai e Zhon Maozlen – ambos há mais de 10 anos morando em Natal - aos compatriotas Zhang Haiyan e Lixong Lin mostrou-se proveitosa, quando os últimos se estabeleceram na cidade, mas foi fatal na última quinta-feira. A polícia acredita que Zhang e Lin estavam no local errado e na hora errada. “Acabaram sendo mortos porque estavam juntos com o outro casal”, disse Maurílio Pinto.
Embora remota, a possibilidade da máfia japonesa ou chinesa ter participado da execução dos chineses é estudada timidamente pela polícia civil. Fala-se na máfia Yakuza (organização criminosa que teve origem no Japão e se espalhou entre comunidades de imigrantes em outras partes do mundo), ou então na máfia chinesa, que tem ramificações no Estado de São Paulo e domina parte do comércio de quinquilharias e falsificações de marcas. Jin Warguai e Zhon Maozlen moraram na capital paulista e trabalhavam com produtos chineses, vendidos mais baratos que os preços do mercado nacional.
O delegado Ronaldo Gomes, da Divisão Especializada de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Deicor) será o responsável pela investigação do assassinato dos quatro chineses, encontrados mortos no último domingo em uma estrada carroçável em Macaíba, na Grande Natal. A investigação ficou a cargo do delegado após ter sido descartada a hipótese de latrocínio ou sequestro como causa dos homicídios.
Até o início da noite de ontem, os corpos dos quatro chineses continuavam no Instituto Técnico-Científico de Polícia (Itep). Apesar de terem sido identificados pelos familiares faltavam documentos para a liberação. Na ficha de entrada dos cadáveres, a parte de identificação continuava em branco. De acordo com a coordenadora de Medicina Legal da instituição, Luciana Aragão Costa sem a documentação necessária os corpos não podem ser identificados e liberados.
Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Federal no RN, os quatro chineses mortos estavam vivendo legalmente no país. A reportagem tentou entrar em contato com a embaixada da China, no Brasil, mas não obteve respostas das ligações feitas.
Corpos dos casais estavam em uma estrada de MacaíbaZhon Maozhen, 36, e Jin Wanguai, 39, eram proprietários da loja Gold Sol – óculos por atacado - , localizada na rua Manuel Miranda, em frente ao camelódromo do Alecrim. Eles tinham quatro filhos – três deles vivendo no Brasil – e estavam no país há cerca de 10 anos. Por volta das 18h30 da quinta-feira, eles fecharam a loja, entraram na caminhonete deles, uma Hilux prata de placas NNP-8866, e passaram na JMF Variedades, que também fica na Manoel Miranda, para dar carona aos amigos Lixiong Lin, 36, e Zhang Haiyan, 38.
Depois disso, os dois casais só foram novamente vistos na manhã de domingo, já mortos, em uma estrada carroçável em Macaíba. Os corpos estavam perfilados ao lado da caminhonete, de bruços e com várias marcas de disparos de arma de fogo. A suspeita é que os dois casais tenham sido assassinados ainda na noite de quinta-feira.
“Os corpos já estavam em um estágio inicial de decomposição. Havia, inclusive, a presença de urubus no local”, afirmou o delegado Frank Albuquerque, titular da Delegacia de Macaíba. Nos bolsos das vítimas foram encontrados dinheiro - eles haviam retirado os valores, não divulgados, dos caixas das lojas. Além disso, a Hilux, seminova, estava com a chave na ignição, mas também foi deixada no local. “Não houve subtração de nenhum dos bens que estavam com eles. Ou seja, fica muito difícil se tratar de um latrocínio. As evidências apontam para execução, mas o motivo, só saberemos depois da investigação”, afirmou o delegado geral da Polícia, Elias Nobre.
Dentro da caminhonete também não havia nenhuma marca de sangue, o que significa que não houve disparos dentro do veículo. O delegado da Deicor, Ronaldo Gomes, pediu para não se pronunciar sobre o caso. “Qualquer declaração dada agora seria precipitada”, explicou ele.
Transação comercialA hipótese de sequestro seguido de homicídio também foi descartada. Segundo o delegado Maurílio Pinto, titular da Delegacia Especializada em Capturas (Decap), ou Polinter, não houve pedido de resgate, o que é característico nesses casos. “Não existiu contato com a família. A informação que recebemos é que eles foram fazer uma transação comercial, por isso, levaram o dinheiro dos caixas das lojas”, informou Maurílio Pinto.
O delegado, porém, não divulgou qual tipo de negociação ia ser feita. “Já temos uma ideia, mas não podemos divulgar ainda”, explicou. Maurílio Pinto afirmou que não houve demora no início das buscas dos casais desaparecidos. “Assim que soubemos, começamos a procurá-los. Não existiu aquela velha história de só começar as buscas depois de 48h”, garantiu.
Maurílio Pinto contou também que o atraso parece ter existido da Delegacia Especializada de Defesa da Propriedade de Veículos e Cargas (Deprov), no início das buscas pela caminhonete. “Foi isso que a família reclamou. A Deprov explicou que, como ela havia saído com o dono, não tinha se caracterizado o roubo”.
Comerciantes chineses afirmam não temer violênciaProcurados pela TRIBUNA DO NORTE na manhã de ontem, outros comerciantes chineses que possuem lojas no bairro do Alecrim, próximas à Gold Sol e à JMF Variedades, afirmaram que não têm medo da violência no bairro.
“Não sei bem por que aconteceu isso. Mas não temo a violência aqui. A gente nunca foi assaltado, nem ameaçado”, afirmou uma chinesa que possuiu uma lanchonete de frente ao camelódromo do Alecrim, mas que preferiu não ter o nome citado na matéria. “Como eu não tenho nada a ver, prefiro não aparecer”, explicou.
Ela disse que conhecia os chineses assassinados, mas não era amiga deles. “Apenas os cumprimentava, não tinha muita amizade não. Fiquei surpresa com a morte deles, mas não pretendo sair daqui. Acredito que os outros também não”, garantiu ela.