É o Senado ou não é?
Publicação: 28 de Abril de 2011 às 00:00
Foi o destaque de ontem em todos os jornais do país. A manchete da Folha de S. Paulo, na largura da primeira página da capa, provocou brilho de espanto nos olhos do leitor: "Ex-investigado, Renan vai cuidar de ética no Senado". O Renan que o prontuário fala é, sim, o Renan Calheiros, ilustre representante do povo alagoano no Congresso Nacional. A propósito, me aparece agora uma dúvida: será que a notícia causou mesmo espanto em se tratando do velho Senado? Vejamos o que escreveu o Josias de Souza, em seu blogue da Folha:
- Em mais uma demonstração de sua vocação suicida, o Senado dará posse, nesta quarta-feira (27) a um Conselho de Ética autodesmoralizado. Firmou-se um colegiado feito de escárnio, apinhado de réus, investigados e suspeitos. Mas não se deve dizer isso em voz alta. Quanto mais criticado, mais o Senado revela seus impulsos autodestrutivos. Melhor chiar baixinho, para evitar que a Casa ponha fogo às vestes.
- Cabe ao Conselho de Ética advertir, censurar, suspender ou recomendar a perda de mandato dos senadores que quebram o decoro. Se decidisse investigar o próprio umbigo, o "novo" Conselho teria matéria-prima demais para o curto período de quatro anos de uma legislatura.
- Maior partido do Senado, o PMDB enviou ao Conselho senadores que são precedidos pela má fama. Entre eles Renan Calheiros, Romero Jucá e Lobão Filho, o Lobinho. Renan é zombaria que desafia a velha tirada de Churchill sobre a democracia ser o pior regime imaginável com exceção de todos os outros.
- No caso de Renan, já ficara entendido, desde 2007, que o Senado dá preferência a todas as alternativas piores. Acusado de receber dinheiro de um diretor de empreiteira para sustentar o filho que tivera com uma ex-amante, Renan defendeu-se. Virou, então, suspeito de simular negócios com gado para lavar dinheiro. E que usara laranja para comprar rádios e um jornal.
- Renan renunciou à presidência do Senado. Mas livrou-se da cassação. Uma, duas vezes. Agora, é Senhor da ética.
Mudo de canal e vou me chegando nos terreiros de Ricardo Noblat, de O Globo. O Senado ("Que Senado é este?") é tema de uma de seus comentários, a partir dos motes de Roberto Requião e Renan Calheiros passando por Sarney. Confira:
- Que Senado é este onde um Roberto Requião arranca o gravador de um jornalista, ameaça surrá-lo por causa das perguntas que lhe fez e devolve o gravador depois de ter apagado sua memória?
- Onde um José Sarney, obrigado a se pronunciar, comenta timidamente a respeito: "Essas coisas acontecem."? Para afirmar logo em seguida: "Não, não foi uma agressão à liberdade de imprensa".
- E onde um Renan Calheiros, cinco vezes processado por quebra de decoro parlamentar, e uma vez forçado a renunciar à presidência do Senado para escapar de ser cassado, é escolhido para fazer parte do Conselho de Ética?
Vendo essas coisas que acontecem no mundo vasto mundo imundo da política brasileira, lendo essas manchetes e estes comentários de alguns dos mais importantes jornalistas do país, lembro-me, agora, das viagens (cinquenta anos atrás) que eu fazia no Misto de Juvino, entre Natal e Barcelona (ribeiras do Potengi do Monsenhor Expedito) passando pela Reta Tabajara, As Marias, Panelas, Caiada e Lagoa de Velhos, onde eu me apeava. Levava sempre um livrinho. Certa feita, eu ia lendo Millôr Fernandes. Anotei um de seus ensinamentos. O verbete é Reciprocidade: No Congresso Nacional uma mão suja outra.
Havia outro, também anotado: Ética Política é o ato de jamais passar alguém pra trás sem antes consultar os companheiros do partido. E um terceiro, atualíssimo: Precisamos urgentemente de um código de falta de ética.
A mulher do sargento
Vamos dar uma esticada hoje, à noite, pelo Tirol, indo ao Espaço Renata Mota (Rua Monsenhor Honório, 218) para abraçar Djaci Ferreira de Souza, paraibano de Sumé, que estará autografando seu livro Sargento Oliveira e outras histórias. São histórias deliciosas reunidas por Djaci, cabra bom de prosa, de papo, de copo, mas ruim de cavaquinho.
Boêmio de nascença, com graduação, mestrado e doutoramento em todos os bares da Paraíba. Dos Cariris Velhos à Capital, passando por Campina Grande e o Brejo, de Gonzaga Rodrigues - que escreveu as orelhas. Em João Pessoa formou-se em Direito, foi advogado, promotor de Justiça e professor de Direito. Nas horas vagas despachava nos bares e casas do gênero. Vive em Natal coisa de 12 anos. Aqui e acolá nos encontramos na Peixada da Comadre, da Ponta do Morcego.
O livro tem o selo do Sebo Vermelho, de Abimael Silva, e prefácio do Marcos Pires, advogado paraibano e companheiro de opa do autor.
Chuva
Muita chuva em São Tomé. De uma só tacada 137 milímetros. O Potengi desceu com cheia e a Barragem Campo Grande, de São Paulo do Potengi, está sangrando. Em cima, nas cabeceiras rio, choveu em Cerro-Corá, 39, Bodó, 36, Lagoa Nova, 32. Tudo Seridó.
No Agreste choveu ainda em Jandaíra, 66, Taipu, 56, Parazinho, 47, Lajes Pintadas, 34, Barcelona, 25. No Sertão Cabugi: Caiaçara do Rio dos Ventos, 63, Jardim de Angicos, 33, Lajes, 24, Pedro Avelino, 18. Na região Leste: Ceará Mirim, 31, Parnamirim, 15. A chuva de Natal foi de 11.
Acho que na Ribeira, da tarde para o anoitecer da terça, choveu bem mais.
Manchetes
Manchete de O Globo: "Dilma abandona dogma do PT e privatiza aeroportos". Do jornal Zero Hora, de Porto Alegre: "Obras para a Copa são insuficientes, alertam companhias aéreas."
Aula
Será amanhã, coisa das 10h30, no auditório do Tribunal de Contas do Estado, a Aula Inaugural da Escola de Contas do TCE. Será ministrada pelo reitor da UFRN, professor Ivonildo Rego.
Tulipas
O artista plástico Erismar Antunes abre, hoje, sua exposição Tulipas na Galeria Conviv'Art, da UFRN (Centro de Convivência Djalma Marinho). A partir das 19 horas.