Alex Fernandes
Para o médico Edmar Oliveira, a responsabilidade sobre os doentes mentais é da própria sociedade
Anna Ruth Dantas - Repórter
Conversar com o médico Edmar Oliveira é entrar um pouco no universo dos doentes mentais. Conhecer em detalhes o sofrimento, angústia e abandono dessas pessoas que, muitas vezes, são renegadas pela sociedade e pela família. Autor do livro "Ouvindo Vozes - Histórias do Hospício e lendas do Encantado", Edmar Oliveira participa há 30 anos da luta antimanicomial. Uma luta que ganhou voz e espaço. A defesa do psiquiatra é para a implantação, em número cada vez mais crescente, dos chamados CAPS, que são os centros de atenção. O médico alerta que a responsabilidade sobre os doentes mentais é da própria sociedade, dos profissionais de saúde e da família. "O tempo todo os pacientes psiquiátricos e a doença mental foram tiradas da sociedade, foi como se jogassem para debaixo do tapete aquilo que a sociedade não queria ver", lembra.
Ele ressalta que o tratamento não pode ser dispensado apenas para o doente, mas para a própria comunidade. "Não adianta a gente separar aquilo que depositamos como doença mental. É preciso que tratemos essa pessoa em comunidade. É preciso que a comunidade também seja tratada junto com o doente", frisa.
Analisando a situação do Rio Grande do Norte, Edmar Oliveira observa que há um número maior de leitos em Natal do que a média nacional. Enquanto Teresina tem 200 leitos, a capital potiguar, com o mesmo número de habitantes, tem 400 leitos para os doentes mentais.
Um dos grandes alertas dessa entrevista recai sobre a sociedade. Edmar Oliveira ressalta: ela está doente. "Não sei quem é mais doido se é quem está internado ou quem está do lado de fora da internação com esse egoísmo desenfreado", avalia.
O convidado de hoje do 3 por 4 é um médico por formação, mas, principalmente, um cidadão por atitude e um profissional que demonstra solidariedade e atenção com seu principal foco: os doentes que trata.
O que pensa e como pensa o médico psiquiatra Edmar Oliveira.
No tratamento do doente mental, quem tem mais responsabilidade: a família, os profissionais de saúde ou os gestores públicos?Diria que o tratamento é uma responsabilidade hoje da sociedade. A responsabilidade da sociedade vai envolver tanto a família como o Estado, como os profissionais. Isso é um conjunto porque o tempo todo os pacientes psiquiátricos, a doença mental foi tirada da sociedade, foi como se jogassem para debaixo do tapete aquilo que a sociedade não queria ver. A sociedade estava isolada. A reforma psiquiátrica prevê a linha dos direitos humanos. A liberdade das pessoas que foram sequestradas pela sociedade como um todo, a ciência, a sociedade, ela sequestrou essas pessoas que não cabiam no seu seio de uma forma a higienizar a sociedade e não tratar essas pessoas. Repensando isso, em nome nós cometemos, em nome da ciência, um erro e estamos fazendo a reparação desse erro. A questão é ter os direitos humanos, isso nós trabalhamos juntos aos órgãos públicos para que o governo faça aquilo que lhe cabe. Não adianta passar de um modelo desse de internação compulsória para o resto da vida para um tratamento em sociedade se a gente não faz os serviços que irão substituir esse atendimento. As vezes isso não anda numa velocidade necessária e isso provoca uma desasistência. A gente tem trabalhado muito ao Ministério Público para obrigar os órgãos governamentais a executarem suas tarefas.
O tratamento dispensado pela sociedade aos doentes mentais mostra que ela (a sociedade) está doente?Mostra. Mostra que estamos juntos, no mesmo barco. Não adianta a gente separar aquilo que depositamos como doença mental. É preciso que tratemos essa pessoa em comunidade. É preciso que a comunidade também seja tratada junto com o doente. Ela está doente também. Veja bem, o transtorno mental que acomete o indivíduo ele não pode ser responsabilizado de uma doença de dentro para fora, mas de uma relação dele com a sociedade. As vezes ele é depositário de uma relação muito maior que está acontecendo no seio da família, no seio da sociedade, uma pessoa excluída. Vamos pegar um caso, que a sociedade está querendo uma solução rápida para a questão do crack. O crack é um problema sério. Mas ele não é um problema só de saúde. Essa é uma questão do usuário do crack ele está precisando de ajuda, mas para ele ter chegado ali tem outras ações sociais que não cabem só a saúde. A criança que está usando crack em situação de rua ela não tem passado, não tem presente e não terá futuro. O crack é a única coisa que ela tem naquele momento. Na realidade são crianças que estão dizendo para sociedade, olha estou incomodando e vocês não vão me dar resposta? A resposta não é só pegar ele (o dependente de crack) isolar para tratar. A resposta cabe a todo governo e sociedade não cometer a exclusão como ela vinha cometendo. São crianças que estão abandonadas. Temos que ter política educacional, política de educação, política de emprego, essa é uma questão que vai atingir o crack. Não será o depositário (o dependente) que vai resolver aquilo.
Estamos na fase de transição dessa luta antimanicomial?Estamos vendo claramente na sociedade que caminhamos para um certo nível de egoísmo muito grande. O consumo da sociedade, essa sociedade consumista, veja que o shopping center substitui a igreja. Antes, aos domingos, as pessoas iam para igreja, agora elas vão para os shoppings centers. Você precisa de tudo novo, o celular novo não serve mais. É um egoísmo tanto que dificulta as relações sociais. Acho que isso propicia essa coisa que é chamada de transtorno mental. É preciso que estejamos juntos da sociedade fazendo mais solidariedade, mais laços sociais, atividades que congreguem as pessoas para uma ação mais humana. Estamos ficando muito egoístas. Não sei quem é mais doido se é quem está internado ou quem está do lado de fora da internação com esse egoísmo desenfreado.
O senhor vê perspectiva dessa luta antimanicomial ter sucesso?Diria que o sucesso já se impõe como um dos melhores programas de saúde mental do mundo, reconhecido pela Unesco. A gente conjugou essa história não só de fechar manicômio, mas substituir o manicômio por outras atividades. A gente não quer jogar todo mundo na rua desesperadamente. Não é esse o nosso planejamento. O que queremos é uma substituição responsável, que as pessoas que aqui estão fiquem integradas com a sociedade com os CAPS, que já são mais de 1.500 em todo Brasil, que são a residência terapêutica para aqueles pacientes que ficaram abandonados pela família. Tem paciente que não precisava estar no hospital, eles ficam porque não tem casa. Estamos dando um lar abrigado, um lar diferente para sociedade. Já tem mais de 500 casas no Brasil. O Ministério da Saúde para pensar a transformação do Hospital João Machado nessa linha vagarosamente e sem assombrar que o João Machado vai fechar. Queremos uma transição gradativa. Queremos usar o João Machado para um hospital clínico, integra a emergência psiquiátrica e geral.
Quem é mais "perigoso": quem está lá fora ou quem está aqui dentro (do hospital psiquiátrico)?Lá fora. Respondo isso de pronto. O nível de violência dentro das instituições manicomiais é muito inferior ao nível lá de fora. Você não pode fazer essa ilação da periculosidade do paciente psiquiátrico porque a sociedade é ambigua. Se você perguntar porque ela é prende diz que é porque é perigoso. Aí você responde, mas ele (o doente mental) não é tão perigoso asism, aí ela diz é porque ele (o doente mental) é desprotegido. Aí você pergunta: ele é desprotegido ou perigoso? Você tem uma razão para internar. A gente está vendo que temos uma sociedade em Natal, com 800 mil habitantes, com um número de vaga muito grande nos hospitais psiquiátricos. Tabalhamos na capital de Teresina, que tem o mesmo número de habitantes, lá são 200 leitos, não são os 400 leitos que temso aqui. Há um excesso de leito. Lá tinha 400 leitos e conseguimos baixar. Construímos uma rede na sociedade com a luta antimanicomial e nenhum paciente está na rua abandonado.
Lembrando até o título do seu livro, o doente mental ouve vozes de quê?A questão do livro foi uma brincadeira. Todo paciente psiquiátrico ouve vozes, é real para ele. É completamente real, ele acredita naquilo e eu não posso duvidar daquilo. É um direito dele e o que eu posso fazer é conversar com ele. O nome do livro é ouvir vozes. Por que a gente não ouve as vozes deles (pacientes mentais) que não querem estar aqui, não querem ficar aqui a vida toda?
O doente mental, na ótica dele, ele sofre?Muito. É um sofrimento muito intenso.
O que pensa um paciente desse?É complexo. O que posso dizer é que é um sofrimento muito intenso de uma pessoa que para ela algumas coisas que para nós não está no nível real, para ela está. Ela fica em dúvida e o inferno é maior. É você ouvir que estão falando mal de você e você pode atribuir isso a outra pessoa, mas duvida se é verdade ou não. É infernal o cara (paciente) fica pensando se é verdade (a voz que ele ouviu) ou não. Isso é um sofrimento muito grande porque ele não distingue muito o que é verdade do que não é. Agora, também se nós formos fazer uma análise mais sociológica está na base das crenças. Quantas pessoas estão falando sozinhas no meio da rua enquanto andam? Quantas pessoas não falam com santo, não ouve vozes do além? A gente tem que saber dosar e lidar com isso. O que nós queremos com o paciente é que ele aprenda a lidar com esse fenômeno (de ouvir vozes), que outras pessoas também lidam.
Qual a visão da família sobre o paciente e do paciente sobre a família?É uma estranheza. É essa visão de estranheza que se passa entre a família e o paciente. E, geralmente, tem alguma coisa se a gente for atrás, diria que não vamos ficar só na evidência, vamos pegar a narrativa. Por que ele está assim? O que fizeram com ele?
Mas os laços familiares são mantidos?As vezes. As vezes a família rejeita. O nosso trabalho técnico é o refazer desses laços. Refazer o laço é ele está em comunidade junto com ela. Essa é a grande tarefa nossa.