Em defesa
Publicação: 22 de Novembro de 2009 às 00:00
Sanderson Negreiros - Escritor
O assunto pode ser interpretado como prosaico e mais: os moralistas darão de ombro, num morcegar de dúvidas; mas o intelectual - ah, os intelectuais - proclamarão sua indisposição erudita, mas o assunto agora é o umbigo feminino. Não sei se a palavra dá vez a menoscabo em certos puristas da língua e do pensamento. A mim, o tema é quintessência pura, e interessa: umbigo tem uma sonância volátil, imperiosa, suspicaz, qualquer coisa assim de abrigo antiaéreo. Desde que Eva, por questões psicológicas, acedeu em usar o umbigo, que a maioria da humanidade não entendeu as razões profundas pelas quais o Criador, dentro de sua inumerável onisciência, resolveu dotar a pessoa humana de uma toca pequena e dúctil, côncava e convexa, subtraída ao olhar curioso, mas de grande densidade vascular e humana. No homem, o umbigo é mero acidente. Na mulher, uma geografia esplêndida de surpresas. Com propósitos de segredar átomos de radiação quântica, pois quando estudado mais cuidadosamente, explode fosforescências desconhecidas. Emite certa aura, convergência de sutis forças subterrâneas.
Tudo vem a propósito do seguinte: a nova moda, o "new look" europeu, ao avançar com influências definitivas nos EUA, é de que o umbigo, na mulher, deve desaparecer. Exemplo: as modelos, já magras e anoréxicas, estão aparecendo em algumas fotografias, com o indefeso umbigo tapado. Pois bem: os secos e frios diretores das grandes agências consideram o umbigo feminino uma tosca tolice, sem finalidade maior para realçar a beleza da mulher. Principalmente, nas fotografias, o que é grave. A palavra de ordem é essa: as mulheres devem fazer desaparecer seus umbigos, de agora em diante. Inaceitável moda que atinge na mulher seu dom mais feminino de balançar forças opostas, o famoso equilíbrio dos contrários.
Em nome, portanto, da raça dita forte, e da secular proverbial sensibilidade solidária, sob forma decidida e dialética de protesto, insurjamo-nos, com absoluta conscientização, diante da nova moda "engajé". O que será a mulher sem seu umbigo? Uma árvore sem intimidade, uma folha sem sombra, um motivo sem ideal, uma vírgula sem sinceridade, uma palavra sem som, uma nuvem sem umidade, uma música sem compasso, um lago sem fonte, uma fonte sem luz, um porto sem navio, uma luz sem origem, uma exclamação sem virtude, um desejo sem grandeza, uma beleza sem dádiva, uma molécula sem casulo, uma nostalgia sem poema, uma canção sem voz, uma saudade sem dono, uma noite sem vagar, uma onda sem mar, um mar sem peixes, um olhar sem horizonte, um horizonte sem ave, uma ave sem céu, um céu sem alma, uma alma sem semelhança. Estrela que riscou, de leste a oeste, o itinerário da luz votiva das estrelas que ficaram fora do "big-bang".
Há séculos, desde o tempo de Hipócrates, já se sabe que o umbigo é, na mulher, o centro de gravidade de sua ternura. Desaparecido esse centro, onde vai repousar a fonte dessa virtude? No olhar? Mas os olhos existem para domar a selvagem tristeza do homem. Nas mãos? Não, as mãos foram criadas, ou modeladas, com o objetivo de os homens serem salvos na áspera luta que eles travam com o destino previsível de violentos amantes. Tem de permanecer onde está, onde a lei da gravitação universal localiza os primórdios de seu poder. Nos braços? Não - estes foram feitos para que a mulher consiga salvar o homem dos seus naufrágios, ou condená-lo ao fogo da desilusão traidora. Nos cabelos? Definitivamente, não. Os cabelos eram a pequena floresta que Eva usou para despistar, escondendo-se, e amainar a paixão desatinada de Adão, pois, como é consabido, Adão nunca se apaixonara por outra mulher - e o amor, nele, veio de forma insuspeitada de incêndio e agradecimento.
O umbigo deve continuar onde sempre esteve, mapa astral de todos os zodíacos, solstício e aurora boreal. Ou, se quiserem, digamos que é uma pequena entrância; feliz reentrância, capaz de amortecer a feroz luta pela sobrevivência que Darwin tão bem descreveu. Primeiramente, tomemos a palavra "umbigo", suave e terna, como se fosse o orvalho caindo nas plantas silvestres da manhã. Deus assim o fez e nele soprou o espírito das águas. O umbigo foi o primeiro enclave - sutil forma de declive - intuído por Deus quando traçou, sobre as costelas de Adão, a anatomia perfeita - e instruiu o homem para dela dispor, com extremo cuidado e lerdeza.
Tudo isso, porque o umbigo feminino é dado a contraturas de sensibilidade fugitiva, capazes de sustar o desgaste das placas tectônicas que, por limite prudencial, não podem atingir o umbigo feminino. Não se pode avaliar, por exemplo, Gisele Bündchen sem umbigo. O eixo da Terra, que se inclinou uns centésimos com o último tsunami, no sul da Ásia, seria capaz de inclinar-se, mais ainda. Isso em todas outras belas fêmeas. Por isso, a moda, agora tornando-se lugar-comum, de as mulheres colocarem uma venda no seu umbigo, é uma das maneiras delas esconderem, em pura intuição, seus poderes ocultos, sua predestinação para a paixão inesperada; o pó virtual que elas guardam dentro do umbigo é para que, a qualquer instante, possam se defender dos graves perigos dessa vida. E, por inclusão, não sejam atingidas pelas oportunidades que o amor proibido enseja. Ah, que saudades do amor proibido!
Nostradamus já profetizava: o Planeta começará a fenecer em suas belezas, das transcendentais às mais cotidianas, no dia em que o umbigo feminino sofrer qualquer tipo de perseguição ou descaminho. Para defini-lo, só vem à lembrança uma palavra sem poesia, mas realista: ele é uma anfractuosidade. O resto é ignorância. Poetizemos a palavra: o umbigo feminino é uma anfractuosidade. Até o final dos séculos.