Alysson Oliveira (AE)Conta-se que quando os irmãos Lumière mostraram pela primeira vez, em 1895, seu filme de 50 segundos "A chegada do trem na estação", o público temeu que o trem saísse da tela e o atropelasse. Em "A Invenção de Hugo Cabret", novo filme de Martin Scorsese, essa cena é recriada. É improvável que, nos dias de hoje, alguém se assuste com ela. Mas há outra no longa que pode causar algum susto, quando um trem descarrilado parece realmente avançar para fora da tela. Um susto causado especialmente pela qualidade do 3D e pela incrível capacidade de sedução do longa.
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Hugo, vivido pelo jovem Asa Butterfield, descobriu a paixão pelo cinema ainda quando criança
"A invenção de Hugo Cabret" é um filme infantil - o que acontece pela primeira vez na carreira de Scorsese - mas não necessariamente apenas para o público infantil. É, acima de tudo, a obra de um cineasta completamente apaixonado pelo cinema, que vê nele o combustível para sua vida. O longa foi campeão de indicações ao Oscar, com 11 - entre elas, melhor filme, diretor, roteiro adaptado e fotografia.
Scorsese usa o máximo da tecnologia que o cinema oferece atualmente para contar uma história com ar retrô, sobre um período de quase um século atrás, os anos 1930, e falar dos primórdios do cinema - entre outras coisas. O roteiro, assinado por John Logan ("O Aviador"), adapta o magnífico livro infantil de Brian Selznick que já era uma homenagem ao cinema não só pelo tema como por suas ilustrações, também assinadas por Selznick, elas mais parecem um story board cinematográfico, mostrando detalhes e recortes entre planos de imagens.
Na história do pequeno Hugo (Asa Butterfield, de "O Menino do Pijama Listrado"), há muito em comum com a infância do próprio Scorsese, que descobriu a paixão pelo cinema quando ainda era criança. Mas também há algo que ressoa no Scorsese de hoje, que além de cineasta é um dos profissionais mais empenhados na restauração, preservação e difusão de filmes antigos. Não por acaso, o livro de Selznick tocou fundo no diretor de "Taxi Driver".
Com "A Invenção de Hugo Cabret", ele realiza um filme que, ao mesmo tempo, é a soma de tudo que fez e aponta novos caminhos, não só para o seu cinema, mas para a arte como um todo.
Há algo de Charles Dickens na trajetória do pequeno órfão que, desde a morte do pai (Jude Law), vive escondido numa grande estação de trem em Paris, onde seria criado pelo tio beberrão (Ray Winstone) que desapareceu. Para não ser descoberto e mandado para um orfanato, o garoto executa secretamente o trabalho do tio: dar corda em todos os relógios da estação todos os dias. Seu maior inimigo é o Agente (Sacha Baron Cohen), obcecado por manter a ordem no local, que, ferido na guerra, manca de uma perna e sempre circula acompanhado de um feroz doberman.
A vida de Hugo é pautada por máquinas e mecanismos. A única lembrança que o garoto guarda do pai é um boneco autômato, que foi salvo do esquecimento no porão de um museu em que ele trabalhava, antes de morrer no incêndio que destruiu o local. O menino tem certeza de que o boneco é capaz de escrever algo, uma mensagem deixada por seu pai. Mas, para tanto, precisa terminar o seu conserto. Faltam-lhe peças, e essas são supridas por meio de pequenos furtos da loja de brinquedos dentro da estação, de propriedade de um velho ranzinza (Ben Kingsley). A amizade entre Hugo e a filha adotiva de Papa Georges e Mama Jeanne (Helen McCrory), Isabelle (Chloë Grace Moretz, de "Deixe-me Entrar"), poderá ajudar não apenas o garoto a trazer o autômato de volta à vida como também resgatar o passado de Georges. Essa trama remeterá "A Invenção de Hugo Cabret" aos primeiros tempos do cinema, quando era pura diversão, algo pueril cujo conceito de arte ainda estava sendo descoberto.
Reis e ratosGolpe militar sob olhar de humorPara o seu terceiro longa como diretor, Mauro Lima ("Meu Nome Não É Johnny") vai buscar inspiração na história real - o golpe militar no Brasil, em 1964 - para inventar teorias de conspiração e personagens um tanto caricatos. A trama de "Reis e Ratos", assinada pelo diretor, pretende fazer rir, mas parece não se dar conta do quanto é difícil arrancar algo de engraçado de tema tão sério.
Uma das coisas que mais chama a atenção em "Reis e Ratos" são as interpretações antinaturalistas. Selton Mello é Troy, agente da CIA que tem uma sapataria no Brasil, que lhe serve de fachada. Suas falas seguem a entonação de dubladores de filmes noir antigos. Cauã Reymond é Hervê, locutor de rádio de voz fanhosa, que tem transes mediúnicos no meio de seus programas. Rodrigo Santoro é Roni Rato, um vigarista sujo e de dentes estragados que vive de golpes. Já a cantora Amélia Castanho (Rafaela Mandelli) usa o seu sotaque gaúcho ao natural.
Junto desses personagens também estão outros americanos que têm como objetivo evitar que o Brasil se torne comunista - como é o caso de Skutch Sanders (Kiko Mascarenhas), que fala com o sotaque de americano em novela e veio ao Brasil investigar a fidelidade de Troy ao seu país natal.