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Natal, 11 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 16:31

Emanuel Barreto, jornalista professor da UFRN

Publicação: 24 de Maro de 2010 às 00:00
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Como o senhor entrou na TRIBUNA?
Em meados de 1975,  o jornalista Djair Dantas trocou o Diário de Natal pela TRIBUNA DO NORTE. Quinze dias depois ele me ligou, convidando para trabalhar com ele.  Djair, então correspondente da revista Veja e um profissional muito respeitado, era uma espécie de publisher na TRIBUNA. Eu era um repórter de polícia doido pra largar o ofício.   Foi assim que entrei na TRIBUNA DO NORTE.

Saiu-se bem como repórter de Polícia?
Embora não fosse a minha primeira opção, sim. Inclusive,  cheguei a cobrir alguns crimes terríveis na época, como o monstro de Capim Macio e a morte da amante de Mansinho, que levou mais de 55 facadas..foi bom ter chegado à TRIBUNA para cobrir matérias na Editoria de geral. E geral era geral mesmo - você fazia tudo que aparecia. Na época só havia as editorias de Esporte, Política e Geral.

Como era a TRIBUNA nesta época em que o senhor praticamente iniciava na profissão?
A TRIBUNA era um jornal profundamente envolvido com a questão política. O fundador e diretor da TRIBUNA, o ex-Ministro Aluízio Alves, estava com seus direitos políticos cassados e vivíamos o auge da repressão da ditadura. Contudo, a TRIBUNA mantinha duas posições em sua linha editorial: de tranquilidade em relação à Brasília, mas de oposição aberta ao então governador Cortez Pereira, indicado pelo regime militar.

Como era a linha editorial da TRIBUNA nessa época?
Era de um jornal bastante opinativo em matéria de política local, sem descuidar do noticiário nacional, à cargo então do jornalista Francisco Macedo, que veio a ocupar a cadeira de professor do curso de Comunicação da UFRN. Macedo, como a maioria dos jornalista dessa época, era um polivalente, pois trabalhava o jornal em qualquer instância, dos processos mais simples aos mais sofisticados. Tinha um temperamento agressivo, mas era imensamente competente. Infelizmente, não está mais entre nós.

Que mais havia na TRIBUNA?
Nessa época tínhamos, sempre muito brilhante, a coluna de Woden Madruga; de Agnelo Alves e Ticiano Duarte - e, como eu já disse, era um jornal eminentemente opinativo, especialmente na política. E fazia uma oposição frontal ao Governo do Estado, mantendo relações cordiais com o Governo Federal. Lembro que republicávamos, por meio da tesoura press, a coluna de Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil. Os leitores da época sabem que Castello não emitia opiniões e sim construía comentários a partir de dados factuais que muitas vezes só ele tinha acesso. E assim ele passava todo um conteúdo que queria nas entrelinhas.

O senhor esteve mais de uma vez na TRIBUNA...
Sim. Na primeira vez, fiquei pouco tempo - de 1975 a 1977. Foi quando sai para assumir um cargo na Fundação José Augusto. Fiquei ali por dois anos, mas o apelo do jornalismo me puxou de volta às redações. E voltei exatamente para a TRIBUNA como copy, o sujeito encarregado de ler e reescrever matérias, quando necessário. Em 1979, a TRIBUNA recebeu Miranda Sá, contratado para fazer a reforma gráfica e editorial do jornal, um jornalista paraibano radicado no Rio e trazido pelo Dr. Aluízio, com a indicação de uma cooperativa de jornalistas da época. Acompanhando Miranda veio David Fishel, responsável pela execução da reforma gráfica.

Foi um bom tempo para a TRIBUNA?
Miranda era um grande puxador de redação - foi ele quem me ensinou a editar jornal. Em pouco tempo, de copy passei a editar páginas. Miranda, que era uma personalidade solar, tinha uma qualidade: valorizava tanto os grandes temas nacionais como os assuntos locais aparentemente menores. Creio que isso conferiu um estilo bem pessoal ao seu trabalho.

O senhor se lembra de algum exemplo desse estilo de trabalho?
Lembro que um dia ouvimos falar da existência de disco voadores no interior do estado. Por causa disso, cogitamos enviar uma equipe com uma barraca para passar a noite e tentar avistar um desses OVINIs. A matéria acabou não se concretizando. Um outro exemplo do estilo Miranda. Pouco depois dele chegar a Natal, em fins dos anos 70, houve um pequeno movimento grevista de motoristas de ônibus.  Lembro que o jornal deu uma nota que foi mal interpretada pelos grevistas e alguns deles chegaram a invadir a redação, que na época ficava na Tavares de Lira.

O que aconteceu?
Miranda pediu que eles formassem um pequeno grupo para subir à Redação. Entre eles havia um sujeito que apelidamos de Galego. porque era muito loiro,  e que transformamos numa espécie de ícone dos grevistas. Com isso, Miranda, que era um homem de esquerda, fez a reconciliação com os grevistas.

O senhor achava que isso fazia sentido?
Nossa preocupação, apesar das limitações evidentes, era sempre evidenciar o fato, claro para nós, que o regime militar estava nas últimas. Reforçar esse fato com situações ilustrativas era o que mais gostávamos de fazer.

Como funcionava a redação dos anos 70?
A Redação da época, que funcionava na rua Tavares de Lira, era tão pobre que todos os jornalistas trabalhavam sobre uma única mesa grande sobre a qual havia mais máquinas de escrever quebradas do que funcionando. O problema era tão frequente que precisávamos sempre recorrer a um profissional conhecido como "Pilão", responsável pela reposição de tipos. Ele aportava no jornal trazendo uma parafernália de tipos em chumbo e fazia o reparo ali mesmo. Era uma época difícil, andávamos de ônibus para cumprir as pautas. Só depois ganhamos uma Kombi, que fazia o transporte coletivo. Além da redação, haviam pequenos cubículo mais reservados onde trabalhavam Woden Madruga em um, Ticiano Duarte em outro, e Macedo em outro. Moacir Oliveira, grande diagramador, ocupou o último cubículo disponível. Telefone, havia um único para toda a redação, com um fio, que tinha talvez oito a dez metros, para atender toda a Redação. Trabalhavam na época ali umas 20 pessoas. Todos gostaram muito quando foram transferidos para onde hoje funciona a Redação da TRIBUNA.

Em que momento a TRIBUNA dá o seu grande salto?
Foi na época em o que jornal passou para offset, em 1979. Tempo de uma aproximação política entre as famílias Alves e  Maia, fato conhecido como a "Paz Pública", durante a qual a TRIBUNA registrou um grande progresso. Não sei até que ponto uma coisa está ligada a outra - o crescimento econômico com a paz pública. Não me considero apto para falar dessa época. 

Como era a TRIBUNA do ponto de vista gráfico antes da chegada da impressão offset?
Era um jornal em transição. O Caderno de Cultural da TRIBUNA era impresso na gráfica do jornal A República, enquanto o outro caderno saia da gráfica própria do jornal. Isso produziu uma dicotomia visível a olho nu. Enquanto o primeiro caderno, impresso na TRIBUNA, tinha aspecto envelhecido, o caderno de Cultura impresso na gráfica oficial do estado tinha uma aparência clara e radiante - era literalmente o casamento do velho com o novo. Seja como for, isso foi uma espécie de treinamento para o pessoal da TRIBUNA, que antecedeu a chegada ao jornal da impressora offset. Tinha início então um longo processo de consolidação da TRIBUNA DO NORTE, deixando de ser um jornal de partido para ser um jornal- empresa.

O senhor foi editor de Política da TRIBUNA em que seu fundador, Aluízio Alves, perdeu a eleição ao Governo do Estado. Como foi essa experiência?
Na campanha de 1982, eu realmente era editor de política de jornal. Era uma editoria pequena: eu e Luciano Herbert. Na disputa estavam Dr. Aluízio Alves e José Agripino, da família Maia. Portanto, já estava desfeita a "Paz Pública" e os Maia voltaram a ser inimigos dos Alves. Venceu José Agripino com mais de 100 mil votos de diferença. A equipe da TRIBUNA  cobriu aqueles eleições com muita vibração, pois tinha a consciência que aquele pleito, acima da disputa política, era uma resposta democrática ao regime militar.

A cobertura da TRIBUNA foi isenta?
Era impossível pensar em isenção na época. Ao contrário, foi uma cobertura totalmente parcial a favor do Dr. Aluízio. E eu diria que foi uma cobertura militante, a exemplo do que a Folha de S. Paulo fez com a campanha das "Diretas Já". Não foi uma cobertura que distorcia fatos, mas foi cobertura doutrinária. Preenchia os interesses de campanha de Aluízio Alves, mas era principalmente rica ao sugerir o enfraquecimento do regime militar.

Por que?
Dr. Aluízio repetiu em 82 o que fizera em 60, ao se eleger governador: empreendeu uma a grande marcha de Natal até Macaíba. Olha, não é brincadeira -fazer uma multidão caminhar quilômetros de uma cidade até outra. Lembro que uma fotografia da primeira marcha foi publicada na TRIBUNA como chamariz para a passeata de 82. E foi um sucesso. Ao final da campanha, o editor Manoel Barbosa fez uma página antológica na qual a primeira página era a última e a última página, a primeira. Uma edição conceitual. Tudo isso era totalmente avesso ao que pregavam os militares na época.

Mas, afinal, o jornal não trouxe os votos esperados para Aluízio Alves...
Para mim,  jornal impresso  não transfere voto, especialmente a TRIBUNA, que já era conhecida de longa data como um jornal de partido. Um jornal bonito, renovado, que tinha a mais bela diagramação de Natal, mas que não transferiu os votos que Dr. Aluízio necessitava. Foi uma grande lição para a TRIBUNA - decisiva para pavimentar o que ela é hoje, um jornal profissional, que sabe dividir as coisas e quase nunca comete exageros editoriais.

De lá para cá, o ambiente do jornal impresso no RN sofreu mudanças importantes?
Acho que houve mudanças para melhor e para pior. É aquela história - nada é completamente bom ou completamente mal. As mudanças tecnológicas foram estupendas, sem dúvida - transforaram o jornal num produto bonito, fácil de ser lido, agradável. Todavia, as relações interpessoais sofreram com isso. Na minha época - vou novamente usar essa expressão que pode soar saudosista -, os jornalistas eram confrades e o  jornalismo uma confraria. A Redação era um lugar muito unido, solidário e isso acabou. Hoje, o jornalista é a peça de uma engrenagem, cumprindo o que mais se assemelha a um ofício. O entusiasmo ainda existe, mas o jornalista hoje é um refém do deadline.

Como o senhor viu o fim do diploma profissional de jornalista?
O fim do diploma profissional de jornalismo foi muito ruim porque, além de um problema ético e técnico, criou uma questão trabalhista na medida em que esmigalhou uma categoria que, por si só, sempre foi muito dividida. O jornalista nunca se considerou como uma classe para si e sim como uma classe em si.

Que destino o senhor vê para o jornal impresso?
Digam o que quiserem, mas a importância documental do jornal é algo muito forte. Uma coisa é ver o atentado de 11 de setembro estampado na primeira página do The New York Times e outra é ver a mesma manchete na tela do computador. A diferença está ai e explica porque, durante muitos anos, as pessoas ainda darão preferência ao papel. Porque é palpável e faz com que elas sintam literalmente a notícia em suas mãos.

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