O inverno começou no sertão do Rio Grande do Norte onde foram registradas chuvas de boa intensidade no final de semana em 73 municípios. Típicas chuvas de inverno, que segundo a Emparn devem persistir até o próximo final de semana, também de forma generalizada. As últimas precipitações de março e a eventual média de 200mm em abril podem contrariar a previsão feita por meteorologistas no final de fevereiro de que o inverno para o sertão potiguar seria abaixo da média.
É o que diz o meteorologista Gilmar Bristot. "Surpreendeu até as previsões iniciais para o mês de março. É possível que, com as chuvas de abril, tenhamos um inverno melhor que o previsto", salientou o chefe do setor de meteorologia da Emparn. As imagens de satélite, aliadas aos dados de medições de temperaturas e pressão indicam que as próximas precipitações devem ocorrer sempre no final da tarde esta semana.
O serviço de meteorologia prevê para hoje chuvas de aproximadamente 50 milímetros para os municípios das regiões Central - Angicos, por exemplo - e Oeste potiguar. As condições de umidade, o resfriamento do Atlântico Norte e temperaturas mais quentes do Atlântico Sul são apontados como alguns fatores que favoreceram as chuvas desta semana. Condições que podem influir também no mês de abril.
Em Janduís - município com maior acumulado de chuvas no final de semana - choveu 173 milímetros, segundo registro da Emparn (entre às 7h da sexta-feira e às 7h de ontem). O prefeito Salomão Gurgel disse que houve uma chuva de "uns 60 milímetros" no domingo à noite, complementando outras duas de intensidade semelhante na semana passada.
Gilmar Bristot afirma que para os agricultores estão mantidas as orientações dos técnicos da Emater-RN, de plantio do sorgo e feijão, culturas de ciclos mais curtos. Milho e girassol, por exemplo, não são indicados para algumas regiões levando-se em conta a irregularidade de chuvas em março.
De acordo com informações da Rádio Rural, as chuvas destruíram um desvio rodoviário feito pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes na BR-427, entre Caicó e Jardim do Seridó, onde estava sendo feita a recuperação de um pontilhão.
Em Natal choveu 67 milímetros na noite do domingo. Em fevereiro, na última reunião dos meteorologistas, a previsão foi de que o inverno deste ano no sertão do Rio Grande do Norte ficará abaixo de normal. Em algumas regiões poderá ocorrer "seca verde". Isso acontece quando as chuvas são insuficientes para assegurar a produção agrícola.
Apesar da previsão de inverno abaixo do normal, não haverá problemas nos principais reservatórios do Estado, que estão com volume de água acima de 80%, resultado das chuvas abundantes nos dois últimos anos.
A barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no Vale do Açu, de onde é captada água para três grandes adutoras - Sertão Central, Mossoró e Meio Oeste - armazena 1,9 bilhão de metros cúbicos, o equivalente a 81% da capacidade. A barragem Santa Cruz, no Vale do Apodi acumula 543 milhões de metros cúbicos (91%) e Umari, na região de Upanema/Mossoró, 236 milhões (81%).
Chuva causa acidente na ponte e medo em NatalEmanuel Amaral
Estrutura de madeira que dá acesso à passarela ficou sem sustentação, se transformando em risco
As fortes chuvas que caíram da noite do domingo à manhã de ontem trouxeram transtornos para os moradores de Natal. Na ponte Newton Navarro, um buggy de placas MYH 4050 capotou, no sentido Norte-Sul, enquanto no Passo da Pátria os moradores passaram a noite preocupados com o possível transbordamento do canal do Baldo. As águas subiram e destruíram parte das cabeceiras de uma passarela improvisada.
Uma moradora da rua Beira Rio, que se identificou apenas como Maria Gorete, confirmou que a noite foi tensa. "As águas subiram muito, racharam a ponte e tiraram a areia dos lados", aponta. Nem mesmo as barreiras de contenção formadas por pedras impediram que a areia de uma das cabeceiras fosse completamente carregada para o rio Potengi. A estrutura de madeira que dá acesso à passarela ficou sem sustentação e quem passa pelo local corre o risco de cair no canal, pois as tábuas estão praticamente soltas.
O secretário Municipal de Obras, Demétrio Torres, garantiu que a Prefeitura irá recompor o material. Ele explicou que uma obra vem sendo realizada no local e a expectativa é que a nova estrutura, cujo objetivo maior é evitar o risco de alagamentos como os registrados nos dois últimos anos, na área em torno do canal, esteja concluída até o final do semestre.
Já na ponte Newton Navarro, o motorista de um buggy, que segundo populares transitava em alta velocidade, capotou o veículo no meio do caminho entre a Redinha e a praia do Forte. O carro ficou de rodas para cima e terminou sendo atingido por um Celta, de placas MZA 7781, que bateu na traseira do buggy. O condutor do veículo que capotou se negou a falar com a equipe de reportagem, mas apresentava apenas um corte no braço e algumas escoriações.
O acidente ocorreu pouco antes das 8h de ontem e o trânsito na ponte ficou parcialmente paralisado, no sentido Norte-Sul, durante cerca de 40 minutos, até que policiais militares e da Companhia de Policiamento Rodoviário Estadual (CPRE) desviraram o buggy. Em vários outros trechos da cidade as águas dificultaram a vida dos motoristas e causaram congestionamentos. No início da manhã de ontem, diversos veículos transitavam com os faróis acesos, devido à baixa luminosidade provocada pelas nuvens negras que tomavam conta do céu de Natal.
Mudanças climáticas afetam o NE"Só com um extremo otimismo, que não tem base na ciência moderna, podemos imaginar que nada vai acontecer em decorrência das mudanças climáticas que vêm se desenvolvendo no planeta." O alerta é do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro da Academia Brasileira de Ciências, Carlos Afonso Nobre. Ele proferiu, na manhã de ontem, a aula inaugural do Programa de Pós-graduação em Ciências Climáticas da UFRN, que se inicia com um doutorado pioneiro no país.
Estudantes, professores e pesquisadores lotaram o auditório da Reitoria para acompanhar as análises de Carlos Nobre a respeito dos efeitos da ação do homem na natureza. "O aquecimento global está acelerando e não é exagero dizer que a longo prazo, e até em um curto prazo, isso afeta a vida no planeta. Se não controlarmos esse aquecimento, seremos responsável por uma grande extinção de espécies. Hoje, observamos um nível insustentável do uso de recursos naturais", advertiu.
A preocupação aumenta, segundo o pesquisador, porque atualmente não há soluções tecnológicas "claras, fáceis ou simples" para os problemas que causam o aquecimento global, como o despejo contínuo de milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. Daí a grande importância de pesquisas como as que devem ser desenvolvidas dentro do doutorado lançado pela UFRN, principalmente para entender o mecanismo de aquecimento dos oceanos e sua influência sobre o clima da região Nordeste.
O programa de pós-graduação é coordenado pelo professor Francisco Alexandre da Costa e terá 16 alunos em sua primeira turma de doutorado, sendo apenas dois oriundos da UFRN. O vice-coordenador, Paulo Sérgio Lúcio, destacou que a demanda vem principalmente de cursos da área de ciências exatas e explicou que grande parte dos participantes é da Paraíba e Alagoas, onde há cursos de graduação em Meteorologia. "Criar um curso desses na UFRN é algo que deveremos analisar nos próximos quatro anos, dependendo desse doutorado", explica.
O reitor da UFRN, Ivonildo Rego, ressaltou a contribuição que o programá dará aos esforços da ciência em entender as mudanças globais, bem como para apontar medidas preventivas. Já a coordenadora de Meteorologia do Ministério da Ciência e Tecnologia, Darly Henriques da Silva, considerou a abertura do doutorado um marco para o setor, no Nordeste e no Brasil. "Precisamos estudar e ter mais conhecimentos sobre o Atlântico tropical e a interação do oceano com o clima", afirmou.