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Natal, 11 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 13:38

Encontro com Capitu

Publicação: 20 de Maro de 2010 às 00:00
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Ivan Maciel de Andrade [ advogado ]

Tornei-me amigo de um advogado que tinha uma das melhores "bancas" de São Paulo. Ele dava assistência a uma grande empresa que passou a ter interesses em nosso Estado. Era professor universitário e publicara diversos estudos sobre temas jurídicos. O mais importante: partilhava comigo uma grande admiração por Machado de Assis. Em diversas ocasiões, quando se esgotavam os assuntos profissionais, voltávamos aos temas machadianos. Os comentários mais frequentes eram sobre o "Dom Casmurro". Ele achava que o mais notável nesse romance é que Machado concedeu total liberdade ao narrador - Bento Santiago, Bentinho. Ele é um narrador-personagem, que não conta a verdadeira história a que se propõe e sim aquela versão que lhe convém, acomodando os fatos à mórbida desconfiança de que fora traído por Capitu. Somente um leitor atento percebe a sua tendenciosidade, nascida do ciúme e também da arrogância da consciente superioridade de classe - ele um "aristocrata" latifundiário, ela uma moça pobre, sonhando ascender socialmente. Havia entre eles uma diferença: Capitu era uma insatisfeita, Bentinho um acomodado. Não é sem razão que Machado de Assis deixa para o leitor a decisão sobre a ocorrência da infidelidade. Como indica Helen Caldwell (no ensaio "O Otelo brasileiro de Machado de Assis"), Bentinho sintetiza "seu ponto de vista no capítulo final: ela (Capitu) era enganadora por natureza, dissimulada de nascença." No mesmo capítulo, diz Caldwell, Bentinho "resume a ação para nós: a mulher e o amigo adorados - duas naturezas enganadoras - uniram as forças para enganar uma natureza aberta, franca, generosa, cegamente crédula e apaixonada".

O meu interlocutor machadiano contou-me, num momento de alguns uísques e de especial predisposição à confidência, que chegara a conhecer Capitu. Eu estranhei: você está brincando. Ele me garantiu que não. Fora procurado em seu escritório por uma jovem mulher, que, segundo ele, "transpirava sexo". Mas, sobretudo, de uma fortíssima personalidade, que se percebia até na maneira segura e controlada de falar. Era casada com um empresário. E os dois tinham íntima amizade com outro casal de nível social idêntico. Amigos de convivência diária, de festas, passeios, viagens. Ela, com poucos anos de casada, engravidara. O marido era louco pelo filho. Mas, a partir de certo momento, passou a ter atitudes estranhas, fazendo insinuações sobre uma possível semelhança entre o filho e o amigo com quem conviviam diariamente. Ela, de início, achou que o marido estava com algum problema psíquico, devido ao estresse de suas atividades. Convenceu-o a procurar um médico. Não adiantou. A desconfiança cada dia aumentava mais e se tornava explícita, sem subterfúgios, agressiva. Antes, passadas as crises de ciúme, ele chorava, pedia desculpas, prometia corrigir-se. Agora, não havia mais isso. Já chegava a propor a separação. 

O advogado machadiano que me contava a história, disse-me que interrompeu a cliente, a essa altura, para lhe dizer: "Você, não tenho a menor dúvida, é Capitu. A minha obsessão por Machado de Assis fez com que você saísse das páginas do romance e viesse aqui conversar comigo". A cliente achou muita graça, mas lembrou que o seu nome era outro. O advogado pediu autorização para chamá-la de Capitu, pelo menos no escritório, quando ninguém o ouvia. Ela concordou, bem-humorada. O advogado machadiano achou que, desta vez, poderia esclarecer as dúvidas sobre a infidelidade de Capitu no romance de Machado de Assis: declarou à cliente que havia uma condição para poder aceitar a causa - ela teria de dizer a verdade, toda a verdade.

Concluiu o advogado a sua história com uma pergunta: você sabe quem é hoje minha mulher? E sem esperar resposta: Capitu. E sabe por quê? Ele se convencera de que tanto a Capitu machadiana quanto a sua, com quem casara, tinham sido injustiçadas. Em ambos os casos, não houvera infidelidade. Hoje, de tão apaixonado, não sabe mais distinguir uma Capitu da outra...  

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