Entre Alagoas e Sergipe

Publicação: 10 de Fevereiro de 2013 às 00:00

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Nelson Mattos Filho

Velejador-avoante1@hotmail.com

Preciso consertar um pecado que cometi no texto de Domingo passado, 03/02, quando falei que levamos cinquenta e seis horas para cruzar o trecho de mar entre Recife/PE e Maceió/AL, antes que você comece a fazer contas e tente difamar a capacidade velocista de nosso barquinho. Sei que ele não é um exímio corredor, mas o bichinho pode ficar ressentido. As 125 milhas náuticas entre as duas cidades foi consumida em 30 horas. Ufa!

Os dois dias passados em Maceió deu para ver o quanto nossas cidades estão mais tristes, desprotegidas, desassistidas e vivendo uma disfarçada euforia desenvolvimentista. Não sei onde vamos parar, mas tomara que seja em algum berço esplendido.

Dá medo ver as drogas tomando conta das ruas e absorvendo crianças, adolescentes e adultos numa velocidade estonteante e exterminadora. É revoltante observar a forma leviana e parcimoniosa com que as autoridades tratam o assunto. É alarmante saber que tudo vai sendo discutido na base dos decretos e das teorias que não ultrapassam as portas dos gabinetes. E diante de todo o caos, ainda tentam nos empurrar de goela abaixo a liberação da maconha, como se ela fosse à causa, o efeito e a solução de todos os nossos males.

Foi com essa visão incrédula que deixamos Maceió para trás e tomamos o rumo da Praia do Francês, litoral sul de alagoas e a menos de 8 milhas náuticas da capital. Nunca havíamos entrando na Praia do Francês, apesar de não ter faltado à vontade e de saber que era um excelente fundeadouro. O que faltava era apenas um incentivo maior e dessa vez deu certo.

O Francês, como os alagoanos gostam de chamar, é uma das mais famosas praias de Alagoas com boas pousadas, bons restaurantes e muitos barzinhos espalhados pela orla. A ancoragem é por trás do molhe de pedra e bem abrigada na maré de quadratura, lua minguante e crescente, que foi a que pegamos. Nas marés de Lua cheia e nova, quando as ondas passam por cima das pedras, deve balançar um pouco, mas nada que seja insuportável.

O canal de acesso é largo e profundo e joga-se âncora, em frente à praia, na profundidade média de 8 metros. Passamos um dia e uma noite ancorados no Francês, mas poderíamos passar muito mais já que a praia é bastante convidativa. Porém, tínhamos que seguir viagem e a meteorologia não estava sinalizando boa coisa para o nosso lado. Relâmpagos iluminavam o céu por cima dos morros e no horizonte do mar alguma coisa dava sinal que viria surpresa. Deixamos a Praia do Francês com a certeza que aquela bela paisagem iria fazer parte das nossas próximas velejadas. Era um Domingo de sol e a praia estava lotada de visitantes, disputando palmo a palmo as areias da praia, naquela típica cena de um dia de verão com toda a quentura nordestina. O vento estava bom, mas dava claros sinais que há qualquer momento iria deixar a gente na mão. E deixou mesmo!

Chegamos no través da Foz do Rio São Francisco, que não assusta mais nenhum navegante, e nos deparamos com dezenas de barcos pesqueiros em busca do que resta dos camarões naquela área. Olhando de longe, o mar parecia uma imensa cidade iluminada. Quando chamei Lucia para assumir um pouco o comando do Avoante, ela perguntou: Estamos indo para terra? E aquela cidade ali na frente? Era muito barco!

A partir do São Francisco o vento acabou de vez e para não ficarmos parados em meio as dezenas de embarcações pesqueiras, com seus ameaçadores braços laterais para arrastar redes, meti a mão na chave e acionei o barulhento do pedaço. Não tenho palavras nem imaginação para definir o que é navegar a motor num barco a vela. Mas se você espera mesmo uma definição, posso dizer que é o mesmo quer passar a noite dançando com a irmã numa festa animada. Sem vento fomos tocando o barco com destino a Salvador/BA, já que na costa de Sergipe não existe nenhuma Barra convidativa para um veleiro. Lugares bonitos e abrigados têm muitos, mas nenhum oferece condições de segurança no acesso. É uma pena e uma falta de visão das autoridades sergipanas. A navegação amadora, principalmente a vela de cruzeiro, é uma fonte sem fim do turismo náutico e têm trazido excelentes benefícios as cidades que apostaram nesse nicho de mercado.

Como conheço bem essa rota e até já entrei no Rio Real, que faz a divisa de Sergipe e Bahia, hoje praticamente impossível, os amigos sempre me perguntam sobre Sergipe e sempre respondo: Passe reto e de preferencia bem afastado da costa, para evitar as plataformas de Petróleo. Uma pena, mas um dia o sergipano acorda para o grande potencial náutico que têm em mãos. Vamos torcer!



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