Situações absurdas acontecem onde menos se espera, e na comédia "O Velório da Marquesa di Fátimo" elas ganham proporções impensáveis e bizarras durante um insólito velório. Com abordagem cômica e sem peso na consciência, o texto visceral do escritor e dramaturgo Júnior Dalberto apresenta novas maneiras de encarar assuntos ainda considerados tabus como morte, homossexualidade e prostituição. O escracho também não perdoa o puritanismo religioso ao colocar católicos, protestantes e umbandistas no mesmo balaio. Esses são os elementos que dão liga ao espetáculo encenado hoje e amanhã no palco do Teatro Alberto Maranhão, com sessão às 20h30.
Tarcio Fontenele
O Velório da Marquesa é inspirado em personagens dos guetos
O elenco da Cia Vice-Versa de Teatro, formado pelos atores Gilberto Costa, José Neto, Stefano Alves, Gleydson Almeida e Júnior Minhoca, apresentam a história de cinco figuras que se encontram durante o velório da tal Marquesa. A montagem, baseada em fatos reais, estreou com casa cheia em novembro do ano passado, e chegou a ser reapresentado no mês de dezembro também para um grande público.
"Anos atrás aqui em Natal, não lembro direito a data, mataram um travesti no Bosque dos Namorados (Parque das Dunas) e durante seu velório aconteceram coisas curiosas. Queriam saber onde o defunto guardava as economias e até sequestro do corpo chegaram a cogitar. O episódio passou despercebido, afinal era o velório de um travesti, mas marcou quem estava mais próximo", lembrou Júnior Dalberto. "É uma situação tragicômica", disse o autor. Para compor seus personagens, uma ex-prostituta milionária que vive na Europa, um estudante que se traveste, uma cabeleireira, uma travesti que se prostitui nas ruas de Ponta Negra e um motorista de táxi traficante, o escritor caiu em campo: "Fui para as ruas acompanhar o cotidiano de travestis que se prostituem, aprendi as gírias mais usadas por eles. Também circulei bastante em outros 'guetos' urbanos para ter uma noção do comportamento de cada um dos tipos retratados no palco", disse Dalberto, cuja principal intenção é "mostrar o lado humano dos travestis, mostrar uma realidade nua e crua de forma divertida. Cada um dos personagens em cena tem sua maneira particular de encarar a vida e são conflitos entre essas diferenças que temperam as cenas."
Ex-agente da Polícia Federal, Dalberto começou sua carreira no Rio de Janeiro em 1981, quando lançou o infantil "Um robô no mundo da fantasia". Participou de um concurso e a história acabou selecionada para ser transformada em espetáculo - ficou em cartaz por um ano no carioca Teatro Tereza Raquel.
Adepto do realismo fantástico, lançou em 2011 o livro "Pipa voada sobre branca dunas" e ficou conhecido no circuito teatral pelo sucesso infantil "A Trilha da Caveira que Ri". Ainda escreveu "Pinóquio e o Circo", "O robô maluquinho" e "Mil vezes comédia".