Ao falar, o som é de uma voz tranquila, de paz. Na argumentação palavras que amparam e ecoam a forma como age e o que prega. Padre Reginaldo Manzotti é, literalmente, um sacerdote que reúne multidões. Em Fortaleza, por exemplo, na gravação de um DVD ele somou um público de 1 milhão de pessoas.
marcos hermes
Escritor, cantor, apresentador de programa de rádio e de televisão,o padre Reginaldo Manzontti é um verdadeiro sacerdote multimídia
Seria um grande artista? Absolutamente, padre Reginaldo não gosta de ser tratado como artista, não se considera tal e vai mais além: quando assinou o contrato com a Som Livre, sua atual gravadora, uma das cláusulas é não ser tratado como artista. A liás, nesse contrato outra restrição chama atenção: o sacerdote não cobra cachê. Mas não seria contraditório ao mesmo tempo que não cobra cachê no site oficial do padre há diversos produtos a venda, inclusive cadernos com a foto dele na capa? "Seria diferente eu vender minha imagem num caderno, numa camiseta se fosse para benefício próprio. Hoje eu conduzo uma instituição que se chama Associação Evangelizar é Preciso", responde padre Reginaldo Manzotti.
Escritor, cantor, apresentador de programa de rádio e de televisão, padre Reginaldo Manzontti tem hoje diversos canais de comunicação ao dispor do seu trabalho de evangelização. "As três coisas que me dão credibilidade e matéria e alimentam a evangelização: a palavra de Deus, a questão da Igreja, e a própria vida do povo", afirma o sacerdote. Padre Reginaldo desembarcará esta semana em Natal, onde participará da gravação do DVD com outros 29 padres e bandas católicas, dentro do projeto Bote Fé Natal. O convidado de hoje do 3 por 4 é um cidadão que logo no primeiro contato já transparece paz e espiritualidade, um padre que traz no próprio nascer "um milagre". A entrevista é uma lição de fé. Você está convidado a ler um pouco sobre a lição, a evangelização e a vivência de padre Reginaldo Manzotti.
O senhor participará sexta-feira da gravação de um DVD com 29 grandes cantores da Igreja Católica, evento que acontecerá em Natal no projeto Bote Fé Natal. Qual a expectativa do senhor e em que esse trabalho refletirá na sua carreira?Minha expectativa é muito grande porque esse DVD é um de preparação e ao mesmo tempo para suscitar nos jovens, na mídia, no rádio, o interesse pela Jornada Mundial da Juventude. É um DVD que tem objetivo despertar na juventude, seja fora da igreja ou aquela (a juventude) já presente na Igreja, que a Jornada Mundial está por acontecer. É tempo de preparação, é tempo de animação. É tempo de se preparar para uma atitude orante, numa atitude de discernimento, e realmente descobrir como fazer o jovem ser evangelizador de jovem. A música, o DVD, vem com a mensagem em cada faixa, em cada participação, para mostrar que nós somos uma Igreja e por isso ninguém é de Paulo, ninguém é de Pedro. Todos os padres, os cantores, estamos juntos numa mesma causa, que é a causa de Jesus Cristo, a causa da Igreja do Brasil. Preparar a Jornada Mundial da Juventude. Ali não há diferenças, estamos unidos no mesmo propósito. Acho que o grande mote desse DVD é esse.
O senhor tem trabalhado muito o CD "Em Deus um milagre". Qual foi o grande milagre que o senhor encontrou em Deus?Para mim há vários pontos na minha vida que foram milagres. Primeiro essa música "Em Deus um milagre" ela surgiu no meu coração no final do ano passado e foi um presente de Deus, a partir daquilo que eu escutava das pessoas no rádio. Inclusive eu falo com as pessoas aí em Natal através da Rádio Clube. O que eu escuto das pessoas: "a minha hora ainda vai chegar", outras dizem padre eu espero um milagre em Deus. Isso suscitou essa música que faz com que as pessoas acreditem que em Deus sempre o novo acontece. As vezes a gente está passando por tribulações, as vezes a gente perdeu o chão, mas isso não significa que Deus não possa reverter. Eu acredito nesse grande milagre. Na minha vida pessoal posso pontuar pelo menos um grande milagre, eu sou um milagre de Deus. Tanto que escrevi no livro "Mãe de todos Maria", eu pego vários títulos marianos, falo de Nossa Senhora de Lurdes, falo de Nossa Senhora do Carmo, mas falo de Nossa Senhora Aparecida. Quando eu nasci minha mãe já estava com 43 anos. Eu nasci desenganado dos médicos porque ela teve sérios problemas. Quando eu nasci minha mãe me consagrou que se eu vivesse eu seria consagrado a Nossa Senhora Aparecida. Fui batizado na hora do meu nascimento, porque os médicos diziam que eu não iria sobreviver. E estou vivo. Minha vida é um milagre de Deus. O segundo grande milagre que recebi eu tinha um ano de sacerdote, a minha irmã (tenho seis irmãos, três mulheres e três homens), a mais nova, estava com um hemangioma gravíssimo, desenganada dos médicos. Lembro que fui até o hospital, cheguei e falei "Nossa Senhora do Carmo". Minha irmã olhava para mim e dizia "eu não quero morrer, eu tenho meus filhos pequenos para criar". E eu disse "Nossa Senhora do Carmo se a senhora curar minha irmã propagarei pelo resto da minha vida a devoção ao santo escapulário". E na hora me veio uma intuição de tirá-la daquele hospital. Eu particularmente tirei todo os soros, por minha conta e risco e inspiração de Deus, e levei para um centro maior onde ela fez a cirurgia com um oncologista. Graças a Deus ela está viva até hoje. Minha vida está marcada com muitos milagres e, realmente, intervenções divinas. Isso que eu quero passar para as pessoas. As vezes tudo converge para o ruim, tudo converge para o desânimo, mas Deus continua agindo.
Por falar nas convergências, entre os livros que o senhor escreveu está "20 passos para paz interior". O que há de maior entrave para as pessoas encontrarem a paz interior?São muitos pontos para a paz interior. Primeiro é o desconhecimento de suas próprias fragilidades. A negação de sua fragilidade, essa é um grande empecilho para a paz interior. Nesse livro eu trago vários passos, como a superação do medo, a questão da auto-estima. A superação, se colocar como aprendiz e não como mestre. Um dos aspectos é a pessoa achar que está pronta, que não tem nada a crescer. Isso é profunda ignorância e falta de conhecimento. A partir do momento que admite tende a crescer e pode ser diferente isso já é um processo de conversão. Nesse processo da paz interior as pessoas acabam negligenciando sua vida emocional, guardando ressentimentos, mágoas, medos, frustrações. Isso só tende a minar, a prejudicar essa paz. Eu digo que é um conflito, um bombardeamento, uma guerra interna e essa guerra interna que São Paulo Apóstolo fala da batalha interior, que nós não lutamos contra exército nem contra tangues, mas lutamos com nossos próprios desafetos, com nossas próprias fraquezas. Isso tira a paz. E existe um princípio que eu acredito muito: ninguém dá aquilo que não tem. Se você não tem paz, você não gera paz. Isso se reflete na família e na sociedade consequentemente.
Chamou minha atenção o fato do senhor ter colocado no contrato com a gravadora Som Livre uma clausula que o senhor não deve ser tratado como artista. O que lhe incomoda no tratamento de artista?Me incomoda porque é uma linha muito tênue. O que eu quero e quis salvaguardar com essa cláusula foi que eu sou padre. Os holofotes cedo ou tarde vão sair de mim, o que vai me manter é o meu sacerdócio. O fato de que as pessoas venham a mim como artista pode ser que não venham a mim para Jesus. Salvaguardando a minha dimensão sacerdotal, eu sou um padre que evangeliza, exerço dentro do meu sacerdócio o sacerdócio da música. Parece redundante, mas não é. A grande missão minha é ser padre. E como padre me valer da música, dos shows, da pregação como instrumento de evangelização. O artista é artista por ser artista. Mas eu não sou artista. Antes de qualquer coisa eu fui escolhido por Deus para ser sacerdote da Igreja. Ser padre na mídia, ser padre com a música, ser padre no show, ser padre na televisão.
O senhor concordaria comigo que, embora o senhor tenha colocado essa cláusula, hoje o tratamento que o senhor recebe é de artista? As pessoas querem ver o senhor, pedem autógrafo, fazem foto.Mas isso para mim não é problema. Todas as pessoas que chegam a mim e a primeira palavra que fala é "benção padre!". Isso para mim é importante porque não estão olhando para mim como homem, nem como cantor, elas me reconhecem, no próprio tratamento, o padre. O fato de tirar foto eu faço com muito carinho. O autógrafo eu chamo de dedicatória. As pessoas chegam e dizem: você pode fazer uma dedicatória para mim. Quem me escuta pelo rádio, me vê na televisão, sabe que no próprio termo está a forma como eu me posiciono diante das pessoas. Não existe esse tratamento de vip. É o tratamento de um padre.
O senhor continua sem receber cachê?Essa é a segunda cláusula do contrato. Não cobro cachê dos meus eventos. Mas deixa eu explicar, quando alguém faz evento a pessoa tem gasto com palco, luz, estrutura. Então ela tem que achar um jeito de pagar os seus agastos. Os meus músicos recebem um cachê de músico. A pessoa arcando com viagem, hospedagem. Mas meu cachê pessoal como artista eu abro mão. Nunca recebi e nem pretendo receber. Consequentemente a tereira cláusula é não promover shows com bilheteria. No máximo 1 quilo de aliento, um litro de leuite, algo que ajude a comunidade local.
Embora o senhor tente separar essa questão financeira, mas no seu site pessoal há uma loja virtual, onde são comercializados desde CDs até cadernos com a foto do senhor. Seria diferente eu vender minha imagem num caderno, numa camiseta se fosse para benefício próprio. Hoje eu conduzo uma instituição que se chama Associação Evangelizar é Preciso. A Associação mantém gratuitamente mais de 1.062 emissoras de rádio. Os diretores dessas emissoras transmitem o programa sem custo algum. Mas você sabe que tem custo com satélite, custo de gerar, custo na televisão. Por isso, todo CD, DVD, todo livro, agenda, tem um destino que é a Associação Evangelizar é Preciso.
O senhor é um homem da comunicação canta, escreve, apresenta programa de rádio, televisão. Isso torna seu trabalho de evangelizar mais fácil?Com certeza. As três coisas que me dão credibilidade e matéria e alimentam a evangelização: a palavra de Deus, a questão da Igreja, e a própria vida do povo. O fato de eu estava muito em contato com o povo. Eu sou padre de missa diária, esse contato com a realidade do povo, quando falo não falo de Teologia abstrata, de coisas que estão fora da realidade do povo, acabo refletindo a própria vida do povo. O que mais procuro ser é autêntico com aquilo que acredito. Autencidade com veracidade nunca dá errado.