Isaac Lira - Repórter
Se existe um consenso entre os infectologistas, independente da influência do Carnatal, é que a epidemia de Gripe A (H1N1) irá se expandir. Como a rede de atenção básica dos municípios do Rio Grande do Norte, e de Natal em particular, está bastante aquém das necessidades, a expansão da epidemia irá desaguar, na opinião de gestores, nos hospitais de referência, a exemplo do que já ocorreu em outras epidemias, como a última de dengue.
Alex Régis
Gustimário Ribeiro Bezerra esteve com toda a família em busca de atendimento no Maria Alice
Os principais hospitais de referência são o Walfredo Gurgel, o Santa Catarina, o Maria Alice Fernandes, o Deoclécio Marques, o Giselda Trigueiro, entre outros. Para se ter uma ideia, durante a última epidemia de dengue o número de atendimentos do Hospital Santa Catarina, por exemplo, chegou a 25 mil por mês. Atualmente, esse número está em torno dos 15 mil. "Nosso pronto socorro está sempre cheio e, apesar de ser um hospital de urgência e emergência, a nossa maior demanda é a clínica médica", explica o diretor administrativo do Santa Catarina, José Carlos da Silva. E complementa: "Como os pronto-atendimentos não estão estruturados, a população da Zona Norte vem direto para o Santa Catarina, que já tem tudo pronto para receber. Por isso, o nosso PS está sempre cheio".
O mesmo panorama pode ser encontrado no Hospital Maria Alice Fernandes, que de acordo com a diretora Lana Brasil, tem cerca de 70% de seu atendimento direcionado para demandas que deveriam ser resolvidas em postos de saúde. "Como as pessoas não encontram atendimento nos postos, vêm para o Maria Alice. Temos recebido uma demanda alta de pessoas preocupadas com a gripe", diz Lana Brasil, acrescentando que está esperando um grande aumento da demanda, a exemplo do que aconteceu durante a última epidemia de dengue.
A tendência de superlotação dos hospitais de referência não está apenas nas palavras dos gestores. Também pode ser percebido na realidade. Na manhã da última sexta-feira, o policial militar Gustimário Ribeiro Bezerra, de 36 anos, estava com toda a família, mulher e dois filhos, à procura de atendimento no Hospital Maria Alice Fernandes. Seu filho, Guthierry, de 11 anos, estava com febre, tosse, dores musculares e dispnéia (dificuldades de respiração). Gabrielle, de apenas sete, também já começava a manifestar alguns sintomas. "Fui nos pronto-atendimentos e não consegui atendimento, por isso vim para cá", conta Gustimário. Ele estava no Maria Alice há uma hora e meia quando conversou com a reportagem. De acordo com a diretora Lana Brasil, durante o surto de dengue o tempo de espera por atendimento na clínica era de até seis horas.
A secretária municipal de Saúde, Ana Tânia Sampaio, afirma que a deficiência no sistema de saúde pública existe e independe da epidemia de gripe. "O que existe é uma deficiência na atenção básica à população, independente dessa epidemia", aponta Ana Tânia.
Novos leitos e excesso de demandaCom o déficit de leitos de UTI e clínica médica, a Prefeitura de Natal procedeu, por orientação do Ministério Público, com a contratação de leitos na rede privada. Desde então, foram contratados 50 leitos, sendo 10 de UTI no Natal Center e no Hospital do Coração, e 40 leitos de clínica médica, sendo 10 no Hospital Memorial e 40 no Natal Center.
Esses contratos, de acordo com Ana Tânia Sampaio, já são para dar vencimento à demanda da Gripe A. "Iríamos contratar de qualquer maneira, até porque a cidade precisa, mas antecipei os contratos por conta da gripe", informa Ana Tânia.
Quanto às notificações, a secretária admite uma falha no esclarecimento da população, o que leva a um natural excesso de demanda. "Temos um número de notificações muito maior do que o de casos confirmados", diz Ana Tânia. De acordo com dados do Município, são 673 notificações e 45 casos confirmados, embora seja importante ressaltar que muitos exames estão retidos no Laboratório Evandro Chagas.