Ciro Marques - repórterAtire a primeira pedra quem nunca mudou de faixa sem ligar a seta, quem nunca estacionou "rapidamente" na calçada com a linha amarela só para deixar um documento ou para ter uma conversa curta, quem nunca acelerou quando viu o sinal amarelo ou quem nunca "xingou" ou "buzinou" para chamara a atenção de outro condutor. No trânsito de Natal, é difícil não passar, diariamente, por momentos como esses.
Adriano Abreu
Ultrapassagem de sinal vermelho é frequente nos cruzamentos
Claro que o problema do trânsito não se limita apenas aos condutores. Ruas em péssimo estado de conservação, buracos, sinalização deficiente são alguns dos obstáculos diários de quem se arrisca como motorista. No entanto, é fato que eles se tornam coadjuvantes em meio a tantas infrações e desrespeitos flagrantes. "Os condutores só dirigem no individualismo, pelo menos, a maioria deles. Isso é fato. E isso não diz respeito em relação somente às infrações não, é uma questão de educação mesmo", diz o secretário-adjunto de trânsito da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob), Haroldo Maia.
Da avaliação do secretário-adjunto compartilham também outros especialistas em trânsito, como Ana Karla Araújo, instrutora e administradora da auto-escola Rio Branco, localizada no Centro da cidade. "O que percebemos é que falta educação e respeito mesmo. Os condutores conhecem a legislação, as vias são bem sinalizadas, mas o problema é que muitos não têm consciência do que é preciso fazer para construir um trânsito melhor", avalia a instrutora.
Mas afinal, se há essa falta de educação, o que fazer para combatê-la e tornar as ruas da cidade um lugar melhor para carros, motos, pedestres e ciclistas? Na opinião de Haroldo Maia, a fiscalização é fundamental. "Para o trânsito fluir bem, são necessários quatro aspectos: educação, planejamento, execução e fiscalização. No entanto, nenhum deles se torna uma realidade se a fiscalização não for eficiente", afirma. "Se não existir fiscal, não há como controlar o trânsito e educar os condutores, mesmo que na forma punitiva da multa", justifica.
Além disso, na visão da instrutora Ana Karla, é preciso também mais investimento e rigorosidade na conscientização dos condutores. "É preciso uma educação infantil, como ocorre em outros países. As crianças têm que chegar à fase adulta já sabendo como devem se portar no trânsito. Além disso, para os condutores atuais, é preciso mais cursos de reciclagem", comenta.
Condutores assumem as infraçõesA equipe da TN esteve nas ruas na manhã de sexta-feira ouvindo alguns condutores de veículos e perguntando a eles qual o motivo para tantos problemas registrados nas ruas de Natal. A resposta foi unânime: a falta de educação dos condutores. Alguns, inclusive, até assumiram ter cometido "pequenas infrações" devido ao mundo louco do trânsito na cidade.
É o caso do condutor Marcos Adelmo, que disse faltar educação para todos nas ruas, e não só para os condutores de veículos. "Falta, sobretudo, para os pedestres, que querem chegar na faixa e atravessar a rua, esquecendo que carro não para de vez", acusou ele, que, em seguida, confessou: "Dirijo dentro das regras sim. Uma vez ou outra, é que esqueço de ligar a seta, porque falta tempo...".
Apesar da opinião de Marcos Adelmo, inclusive, não é devido à falta de educação dos pedestres o motivo principal dos atropelamentos nas faixas de pedestres. Pelo menos, na visão dos internautas da TRIBUNA DO NORTE Online. Em enquete publicada no portal no início do mês, 52,12% (ou 1.243) dos votos, colocaram como a culpa sendo dos motoristas pelo atropelamento. Menos da metade, 24.36% (ou 581 votos), apontou os pedestres como responsáveis.
Em outra enquete do site, que foi ao ar nesta semana, os internautas elegeram como "a falta de educação dos condutores", o principal problema do trânsito de Natal. Foram mais de 45% (850 votos) dos internautas que escolheram essa alternativa. O "excesso de veículos", com 619 votos, foi a segunda e a "falta de fiscalização", ficou apenas em terceiro, com 229 escolhas.
"Falta responsabilidade no trânsito. Muita gente acredita que erros simples não provocam acidentes, mas provocam sim. O que custa ligar uma seta antes de mudar de faixa?", questionou Ruzemberg Brito, proprietário de uma oficina localizada na avenida Prudente de Morais. Ele, que trabalha próximo a um cruzamento, disse já ter perdido as contas do número de acidentes registrados no local. "Aqui são problemas simples, como a falta de responsabilidade dos condutores. Vemos que a cidade é bem sinalizada, mas falta compreensão dos que estão no volante, principalmente no fato de que pequenas infrações podem resultar em acidentes graves", afirmou.
Próximo à calçada da oficina de Ruzemberg Brito, Paulo Sérgio Medeiros, que havia estacionado o carro em um estacionamento próximo apontava o problema: "É falta de educação mesmo. Vemos que essa rua está bem sinalizada e cheia de placas, mas olhe a quantidade de veículos em local proibido", enquanto apontava para o trecho da Prudente de Morais antes do cruzamento com a avenida Alexandrino de Alencar, no sentido Sul-Norte.
A alguns metros de Paulo Sérgio, a equipe de reportagem da TN flagrou um carro utilitário estacionado na faixa amarela enquanto a condutora resolvia um problema em uma loja de eletroeletrônicos. "Sei que é proibido, mas não tenho onde parar e é por pouco tempo", afirmou ela, que pediu para não ter o nome citado na reportagem. Para a proprietária da loja, Arevânia Gomes de Oliveira, o problema do local não era dos condutores, mas sim da proibição do estacionamento na região. "Se não puderem nem parar aqui na frente para descarregar as televisões 'super-pesadas', é melhor fechar logo a loja e pronto", afirmou ela enquanto atendia a cliente.
Se o estacionamento em locais com a faixa amarela já causa transtornos, a situação piora quando os veículos estão parados em cima da calçada, com foi flagrado em diversos pontos da cidade pela equipe da TN. "É um absurdo, um desrespeito total. Se passa uma deficiente física pelo local, como vai fazer? Passar pelo meio da rua também?", questionou a pedestre Lila Tatiana, que na manhã de quinta-feira se arriscou, com a mãe, na rua porque um veículo ocupava a calçada da rua Mossoró, no bairro de Petrópolis. Em outra rua do mesmo bairro, a Mipibu, a japonesa Sakika Kobayashi sofria com um outro veículo parado no lugar onde deveriam estar os pedestres. "É muito ruim. Estou com meu filho aqui e fico me arriscando. No Japão não tem disso", afirmou ela, enquanto empurrava o carrinho do bebê.
Natal precisa de mais 100 agentesGrande responsável pela fiscalização do trânsito em Natal, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob) tem, em um número, basicamente toda a explicação para o "sentimento de impunidade no trânsito". A Semob tem 80 agentes de trânsito para manter os quase 250 mil veículos registrados em Natal "sob-controle". O número se torna ainda mais alarmante quando o reduzimos pela metade - os agentes trabalham um dia e folgam no outro - e, depois, o dividimos por três - cada fiscal trabalha um turno. Depois desses cálculos, chegamos à surpreendente marca de 13. Esse é o número de agentes que estão trabalhando por turno na capital do Estado. Suficiente?.
Isso porque a função do agente de trânsito não se limita apenas a fiscalizar os condutores. É deles, também, a responsabilidade de garantir, em muitos casos, que o fluxo não fique ainda pior mediante um acidente ou um sinal quebrado. "Atendemos cerca de 10 ocorrências desse tipo por dia. Por isso, estamos sempre 'apagando incêndio' com o número de fiscais que temos", explica o secretário-adjunto de trânsito da Semob, Haroldo Maia.
Para o secretário-adjunto, seria necessário, pelo menos, mais 100 agentes de trânsito para que a fiscalização em Natal fosse feita de forma eficiente. "Convencionalmente, dizem ser ideal um agente de trânsito para cada mil veículos. Não temos nem perto disso e não conheço nenhuma cidade que tenha. Com mais 100, já daria para fazer um trabalho eficiente nas quatro regiões da cidade", garante Maia.
E não basta só aumentar a quantidade de agentes, é preciso também um incremento na qualidade deles. "Já solicitamos contratação de mais agentes e queremos que eles tenham um nível de escolaridade mais alto. Queremos pessoas bem preparadas para o trabalho. Os agentes que temos são excelentes, mas muitos são funcionários de secretarias que foram remanejados e passaram por um curso técnico para atuar", explica Haroldo Maia.
Equipamentos
Se os agentes são em número baixo, a Semob tem tido o apoio da tecnologia para evitar que a situação se torne um caos de vez. Foram os equipamentos eletrônicos de fiscalização que registraram, em 2009, aproximadamente 77,5% das multas no trânsito - as principais, referentes a excesso de velocidade e avanço do sinal vermelho. Foram 101.189 multas flagradas pelo "computador", contra 29.638 assinadas pelos agentes.
Além das lombadas e dos sensores nos sinais, a Secretaria conta com câmeras instaladas em vários pontos da cidade que servem para registrar e controlar as ocorrências. "Pelo sistema de vídeo, conseguimos encontrar um carro parado em local irregular e mandar um agente de trânsito lá para aplicar a multa", explica Haroldo Maia.
Flagrantes mostram o desrespeito dos motoristasBaseado na falta de educação e nas denúncias diárias de impunidade no trânsito, a equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE decidiu dar "uma volta na cidade" e registrar as infrações mais corriqueiras - pelo menos, nas reclamações dos condutores. Da entrada de Natal pela BR-101 Sul até à Ribeira, onde fica a sede do jornal, por volta das 9h da última quinta-feira, foram flagrados, simplesmente, 33 mudanças de faixa sem que o motorista tenha ligado, antecipadamente, a sinaleira. Oito veículos fizeram ultrapassagens pela direita e dois carros avançaram no sinal vermelho. Outros três condutores foram flagrados falando no aparelho celular enquanto dirigiam.
Na manhã de sexta-feira, a equipe da TN foi até o cruzamento das avenidas Alexandrino de Alencar com a Coronel Estevam (a avenida 9). Após cerca de 10 minutos no local e depois que o sinal fechou seis vezes, os números já impressionavam. Três carros tinham passado no sinal e um deles, inclusive, tinha ficado parado no meio do cruzamento, quase provocando um acidente. Outros três ônibus e duas motos também já tinham sido flagrados passando depois que o sinal fechou. Isso, sem contar nos dois motoristas que estavam em alta velocidade e acabaram parando em cima da faixa para não cortar o sinal.
Apesar da aparente falta de fiscalização, fica claro, baseado nos números da Semob, que o que há também é muito condutor infrator. Segundo a Secretaria, no ano passado, foram registradas 131.654 multas por infrações diversas no trânsito. Claro que a maioria delas (77,5%) foi anotada por equipamentos eletrônicos, devido à escassez de agentes de trânsito, mas, de qualquer forma, o número ainda impressiona. É como se, por dia, fossem registradas mais de 360 infrações no trânsito. Por hora, seriam 15, ou seja, uma a cada quatro minutos em Natal.
Bate-papoHaroldo Maia » secretário-adjunto de Trânsito da Semob"Precisamos de fiscalização no trânsito"
Qual a importância do agente de trânsito?O papel do agente vai desde a orientação do trânsito até o registro das infrações. É ele quem vai garantir que o trânsito flua mesmo diante de um sinal quebrado ou de um acidente. No que diz respeito à fiscalização dos condutores, para mim, o papel do agente é combater as infrações de trânsito e, para isso, ele não precisa exercer um papel educativo, tem é que multar. Sejamos sinceros: o cidadão recebe educação da família, da escola, da autoescola, e não entende que é errado ter certas atitudes no trânsito, não vai ser o conselho do agente que vai fazê-lo ter mais consciência. O que faz o condutor deixar de cometer infrações é a multa mesmo. Um exemplo é a questão do cinto de segurança. Fez-se uma campanha educacional mostrando que ele salva vidas e tudo, mas a população só passou a usar quando se fiscalizou e multou quem estava andando sem cinto. A população não usa porque ele é seguro não, usa porque tem medo da multa.
Quais os problemas que a falta de agentes ocasionam?Para o trânsito fluir bem, é necessário quatro pontos: educação, planejamento, execução e fiscalização. E esta é, para mim, a mais importante e fundamental para que todas as outras existam. Se não tiver fiscal, não há como controlar o trânsito. Por exemplo, o projeto Via Livre. Temos vários pontos da cidade que já estudamos e planejamos a implantação do projeto, mas não há como porque não há fiscal suficiente para fiscalizar e, realmente, inibir as infrações que, neste caso, são os estacionamentos irregulares.
Falta educação aos motoristas?Os condutores só dirigem no individualismo, pelo menos a maioria deles. Isso é fato. E isso não diz respeito só as infrações não, é uma questão de educação mesmo. Por exemplo: o que custa você reduzir um pouco a velocidade e deixar um camarada que está lá na frente, entrar? Não custa nada. No entanto, é difícil ver esse tipo de respeito ao próximo no trânsito. Claro que a ausência de fiscalização, dá uma sensação de impunidade mesmo, mas a questão também é de educação.
O que pode ser feito para mudar isso?Estamos investindo na educação de trânsito nas crianças. Depois de adulta, é difícil uma pessoa mudar a consciência, mas a criança não.