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Fernando Silva: "Vamos expandir nosso know-how"

Publicação: 14 de Maro de 2010 às 00:00

Vicente Estevam - Repórter de Esportes

O Consultor de futebol do Santos, Fernando Silva, que veio a Natal para tratar da parceria com o Alecrim para revelação de novos talentos, reconheceu que o clube paulista 'nada contra a corrente' no futebol nacional. Enquanto muitos dirigentes estão desistindo de investir nos trabalhos de base, o clube paulista criou uma categoria para garimpar novos valores a partir dos 11 anos. O dirigente reconhece que existe uma brecha na legislação favorecendo a ação dos empresários, mas acredita que a Fifa vai criar métodos para controlar a ação dos caçadores de talentos. O dirigente também defende a mudança da "Lei Pelé".
Júnior SantosFernando Silva é diretor do Santos Futebol ClubeFernando Silva é diretor do Santos Futebol Clube

Quais os motivos que levaram o  Santos a tratar de uma parceria com o Alecrim?
Nós estamos em busca de expandir o know-how das escolinhas do Santos, ou seja, espalhar por alguns centros nacionais aquele  trabalho que desenvolvemos na Vila Belmiro em termos de preparação e formação de novos talentos. O Alecrim é um clube do Nordeste que está situado numa região que vem crescendo muito, além do mais não sofre com processo de rejeição e assim como o Santos é uma equipe querida pelos torcedores dos demais clubes.

Em que pé está esse entendimento entre os dois clubes?
Está bem adiantado, mas um negócio desse tipo tem de ser bem planejado porque além do nome do Santos e do Alecrim vai envolver alguns investidores. Quando envolve dinheiro o contrato deve ser bem amarrado para que nenhuma das partes seja prejudicada e também é necessário que fique determinado previamente as questões legais em relação aos jogadores que serão revelados e as partes que irão caber a cada um dos agentes neste negócio.

Já existe um custo definido para que o projeto possa ser tocado?
Os clubes não terão gastos exorbitantes, no máximo vão gastar na reforma do Centro de Treinamento do São Gonçalo e a parte mais pesada mesmo virá dos investidores que nós estamos buscando no mercado. Isso também é um dos pontos que ainda não permitiu a assinatura desse contrato, nós ainda estamos buscando os agentes financiadores. Mas não tenham dúvida que a marca Santos é capaz de atrair muito investidor e trazer muitos benefícios para a cidade onde ela se encontra. Além de investir no Nordeste, a meta dessa nova gestão no Santos é criar mais dois centros avançados de futebol, sendo um no Centro Oeste e outro na região Sul.

Qual o segredo do Santos no trabalho com as bases e na revelação de tantos talentos?
O segredo é possuir um bom centro de treinamentos e trabalhar de forma específica para aumentar a chance de sucesso dos nossos garotos. O Santos hoje dispõe de duas assistentes sociais, dois psicólogos, fisiologistas, equipe médica tudo a disposição do departamento das bases. Pessoas que acompanham o desempenho escolar de cada um desses meninos, além de treinadores específicos para trabalhar com os garotos: de defesa, de ataque e o principal. Com isso você consegue formar uma safra com chance de ter sucesso.

Um garoto talentoso nas bases deve ser bem mais trabalhado para ter sucesso no profissional?
O sucesso não é garantido no futebol, às vezes você tem um jogador que vai muito bem nas categorias de bases, mas quando é profissionalizado, por um motivo qualquer, não consegue repetir a mesma performance no time principal. Esse caso é até corriqueiro e temos vários exemplos disso. Além de oferecer boas condições de formação dos atletas, nós também temos de contar com um pouco de sorte. Por isso nos organizamos no sentido de aumentar a nossa chance de sucesso.
 
O know-how do Santos pode ser transportado para outros centros, como no caso do Alecrim?
A gente acha que sim, isso é como uma franquia. Dispomos de um método de trabalho que se você repicá-lo você tem chance de dar certo. Temos apenas de dar os elementos básicos para que o negócio venha a dar certo por aqui também.

Essa parceria com o Alecrim servirá como um balão de ensaios para as futuras, ou independente disso, esse trabalho será difundido pelo resto do Brasil?
Temos de equalizar a oferta com a demanda, ou seja, se a gente fosse buscar fazer isso respeitando todo o tempo de planejamento, talvez só conversássemos com o Alecrim no segundo semestre. Mas como surgiu essa oportunidade de trabalhar com pessoas sérias, transparentes e de boa reputação no futebol, o que não é muito fácil nos dias atuais, a gente decidiu acelerar o processo. O mesmo fato ocorre na região Sul, onde pretendíamos iniciar no segundo semestre, porém surgiu um parceiro interessante para fazer já. O cavalo passa selado na sua frente uma única vez e se você não tomar uma decisão corre o risco de perder a oportunidade. Mas esse daqui não deixa de ser um modelo embrionário, um modelo que nenhum clube tem feito. Sabemos que o Cruzeiro tem algo semelhante no Ceará, que o Atlético/PR vem agindo assim no interior do Paraná e indo para o Centro Oeste. Existe a tendência das grandes marcas se expandirem para dentro do país.

Qual a visão de vocês da figura do empresário no mundo do futebol?
O empresário é um profissional que por uma brecha na lei ele entrou no mercado, existem os bons e os ruins e nós temos de conviver com eles. Nós temos de lutar para preservar e garantir os direitos do clube formador, daquele que investe na revelação de novos talentos para isso não cair apenas nas mãos dos empresários e eles sejam os grandes favorecidos. O empresário tem uma atividade com qualquer outra, a Fifa está tentando disciplinar essa função, mas ai também recai a questão da oferta e da procura. Eles estão ao redor de todos os campos de futebol, identificam os talentos, chegam na família, pegam procuração e deixam os clubes meio refém desse sistema. Temos de fazer leis para dar garantia de retorno aos clubes formadores de atletas.

A ascensão dessa figura provocou transtorno no mundo do futebol?
Sim, eu mesmo já vi presidente de clubes dizerem que vão acabar com as categorias de base, manter apenas o sub-19 para ficar esperando o empresário oferecer jogador. É uma decisão, mas nós do Santos estamos no caminho inverso e até criamos uma divisão que há muito não existia no clube: a sub-11. Além dela temos a sub-13, 15, 17 e 19, que já é uma extensão do futebol de salão, onde o garoto tem o primeiro contato com o futebol no nosso clube. Quer dizer que nós estamos apostando que o governo federal irá normatizar essa situação existente hoje.

Devido ao trabalho que vocês realizam, o Santos sofre muito com assédio dos empresários?
Nós estamos há dois meses na gestão do Santos, pegamos uma herança muito complicada, já que o clube sofria a interferência de vários empresários, com várias participações. Hoje essa história mudou, o Santos não aceita ficar com nenhum jogador se a participação do clube na futura negociação do atleta for inferior a 70% do negócio. Eu sei que o São Paulo trabalha com 100%, outros trabalham com 80%. Nós tivemos de limitar essa participação do empresário porque a gente dá a formação, os professores, o material, o torneio, a prateleira de exposição e no final você fica apenas com 30% ou 40% do jogador. Não concordamos com isso e estamos trabalhando para alterar essa ordem, porém, estamos cientes de que essas coisas não se alteram do dia para noite.

O Santos também faz corrente pela alteração da "Lei Pelé"?
O Santos faz corrente para logicamente se normatizar e proteger o clube formador, estamos trabalhando junto com outros times para que seja realizada essa alteração na lei e, pelo que sei, não está muito longe disso virar realidade.

O clube brasileiro hoje é obrigado a viver das suas bases?
Tem sim, logicamente que deve trazer alguns jogadores para dar aquele toque de experiência, mas é obrigado a formar jogadores. Quem não fizer isso terá um custo de reposição muito grande e depois isso será sentido no fechamento das contas no final da temporada, que estarão sempre no vermelho.

Como estão as coisas no Santos que revela muitos atletas?
Pelo que percebemos nesses dois meses de administração, achamos que o Santos é auto-sustentável, que não precisa vender seus atletas para fechar as suas contas. O que precisamos é adequar o salário dos atletas a realidade do clube, não podemos gastar mais do que recebemos. O que a gente vê no futebol  brasileiro são gestores irresponsáveis que gastam mais do que arrecadam e chegam ao final do ano com a necessidade de vender as suas jóias para quitar os salários que estão em atraso. A categoria de base não pode ser usada para pagar o salário do zagueiro que tem 32 anos e que ganha um absurdo, dessa forma você trabalha em sentido contrário. Nosso objetivo hoje é que Neymar jogue no Santos até a Copa de 2014 e que ele receba salário padrão da Europa que é para onde ele se transferiria, é para isso que temos de trabalhar, não vender o garoto para pagar um Zé Mané que recebe R$ 300 mil por mês.

O governo fala em limitar a idade para a saída de jogadores, você acha que essa ação deveria partir das autoridades ou dos próprios clubes?
O certo seria os clubes se adequarem, mas isso é difícil de acontecer porque quando aperta o calo você vai buscar remédio onde deve. Acho que o governo deve mesmo fazer a lei, controlar e as exceções devem ser analisada como tal. Você vê um caso como o de Phillipe Coutinho que um mês antes de acabar sua gestão no Vasco Eurico Miranda vendeu o garoto para Europa a um preço considerado irrisório. Um ativo do clube que ficou apenas seis meses no time e vai embora jovem. Certamente irá perder toda sua referência na carreira, pois vai ser muito difícil o garoto ser titular na Europa numa equipe de ponta, ser visto para seleção e voltar.  Saindo prematuramente o garoto está deixando para traz um monte de coisa e ele não percebe isso.

O Santos consegue fazer algo diferente para segurar suas revelações?
Começamos a fazer uma parte social muito forte no clube para enquadrar o jogador e a família dentro do nosso clube, no sentido de que o atleta não sinta essa necessidade tão latente de sair logo do país em busca da independência financeira. Ele pode perfeitamente fazer o pé de meia dele atuando no Brasil e deixando para se transferir quando estiver mais maduro para assumir os compromissos dele lá fora.

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