Um total de 134 pacientes que deram entrada no Walfredo Gurgel, nas últimas semanas, ainda aguarda na fila de espera para que a SMS marque suas cirurgias de ortopedia. Os pacientes atendidos no hospital, de forma emergencial, precisam passar por uma segunda intervenção, para que os problemas de fratura sejam devidamente solucionados. Como esse tempo de espera é longo, acabam tendo de ir para casa, ou ocupando macas nos corredores do PS Clóvis Sarinho.
Na terça-feira, eram 19 nos corredores e 12 em enfermarias do HWG. Na manhã de ontem o número tinha sido reduzido a nove em cada um dos locais. De acordo com a Unidade de Gerenciamento de Vagas do hospital, a UGV, chegam até 15 pacientes de ortopedia diariamente, que necessitariam de cirurgias eletivas, mas há datas em que não há sequer um encaminhamento por parte da rede municipal.
Emanuel Amaral
Pacientes permanecem nos corredores do Walfredo Gurgel à espera de cirurgias ortopédicas
Os casos mais simples são liberados para aguardar em casa. Uma espera que, segundo alguns médicos, ultrapassa meses, e que se intensificou agora com a reforma no Hospital Itorn, onde era realizada parte dos procedimentos. As piores situações, porém, vivem os pacientes "moradores" dos corredores do Walfredo Gurgel.
Pessoas como Reginaldo de Souza, de 42 anos. Morador de Ceará-Mirim e empregado de um abatedouro de frango, ele sofreu uma queda e quebrou os ossos da perna na semana passada. Até ontem pela manhã ainda não sabia quando seria operado, para voltar a trabalhar e ajudar no sustento dos quatro filhos.
Um dos "vizinhos" de Reginaldo de Souza, o soldador Roberto Ferreira, de 27 anos, está no hospital há 10 dias, sem perspectiva de deixar o corredor do Walfredo. Ele foi espancado por assaltantes e teve o braço quebrado. "Tenho uma filha e minha esposa não trabalha. Quem está sustentando as duas é a mãe dela. Já estou aqui há 10 dias e ainda não sei quando vai ser minha cirurgia. Enquanto isso teve gente que chegou depois e já foi embora", reclama. A fila não atende somente ao critério de chegada. Os idosos têm prioridade, assim como os casos mais graves. E há ainda os que conseguem agilizar suas cirurgias através de decisões judiciais.
SMS está ciente da situação do Hospital Walfredo GurgelA Secretaria Municipal de Saúde está ciente da situação no Hospital Walfredo Gurgel e já estuda a possibilidade de habilitar mais um hospital da rede privada para a realização das cirurgias ortopédicas. A informação foi dada pela coordenadora do Departamento de Regulação, Avaliação e Controle da SMS, Maria da Saudade de Azevedo. Ela admitiu que existe uma fila de espera, mas disse que nem todos os pacientes são do município de Natal.
Segundo a coordenadora, a situação se agravou por causa do fechamento do Itorn para obras. Ela não soube precisar quantos leitos estavam disponíveis para a SMS mas afirmou que, para tentar minimizar os impactos, aumentou o número de leitos disponíveis na rede já contratada. "Foram dez leitos a mais no Hospital Memorial e doze no Hospital Médico Cirúrgico", afirmou Maria da Saudade de Azevedo.
Ainda assim não foi suficiente para atender a demanda e a outra alternativa estudada é a habilitação do Natal Hospital Center para atender a esses pacientes da fila de espera. "Mas ainda estamos avaliando a viabilidade dessa habilitação, portanto não temos como informar quantos leitos".
Falta de médicos preocupa direçãoAs escalas dos médicos do Walfredo Gurgel continuam sendo montadas sob risco constante da falta de profissionais. De acordo com a diretora-geral, Hélida Bezerra, a unidade que conta com cerca de 330, necessitaria de pelo menos mais 50 para atender adequadamente à demanda. "Ortopedistas, anestesistas, clínicos e intensivistas são as áreas com maior carência", aponta, complementando: "Na área de terapia intensiva, a escala ainda está precária."
As duas unidades semi-intensivas interditadas em novembro pelo Conselho Regional de Medicina continuam sem receber os profissionais necessários (16 ao todo para fechar as escalas). Apenas uma delas vem sendo ocupada por pacientes, de forma improvisada, graças ao apoio de médicos remanejados da Clínica Geral, onde também falta pessoal. Em ortopedia, o hospital recebeu dois novos profissionais, com contratos provisórios, e aguarda a apresentação de quatro que foram transferidos do Hospital Regional Deoclécio Marques, de Parnamirim.
A perspectiva de ampliação do quadro geral de médicos, no entanto, não é das melhores. Um processo seletivo recentemente aberto para a contratação temporária de intensivistas não registrou nenhum candidato. Já dos 35 clínicos que foram convocados pela Sesap, aprovados no último concurso público, ainda nenhum se apresentou. Diante dessas lacunas e do intuito do hospital de passar a atender somente os casos de urgência e emergência, a diretoria continua reforçando a orientação de que a população procure o Samu (192), ou a unidade de saúde mais próxima de suas casas, antes de se dirigir ao Walfredo Gurgel. Os casos mais simples que chegam à recepção são encaminhados a outras unidades.
Bate-papo: Hélida Bezerra - diretora-geral do Walfredo GurgelA demora para que os pacientes sejam encaminhados a essa segunda cirurgia tem sido grande?Tem alguns pacientes que estão aguardando mais de 20 dias. A priorização está sendo para pacientes idosos, mas pacientes jovens demoram mais de 20 dias internados nos corredores.
Essa situação tem sido uma constante ou é um fato novo?Uma constante.
E qual a explicação da Secretaria Municipal para não agilizar essas cirurgias?Que não tem a quantidade de leitos suficientes na rede contratada e o número existente não atende à demanda.
A atual reforma realizada no Hospital Itorn, por exemplo, estaria comprometendo esse atendimento?Com certeza.
E essa demora pode causar sequelas nos pacientes?Sim.
E de que tipo?A mais frequente seria o que a gente chama de consolidação viciosa, ou seja, o osso se consolida de forma errada e aí a gente tem de refraturar para depois colocar no lugar certo.
E para o hospital o que representa esse público que fica aqui, ocupando espaço, enquanto aguarda as cirurgias eletivas?Mais do que ocupar espaço, o fato é que eles ficam em macas, de forma desconfortável e em locais inapropriados, aguardando vagas, já que não temos leitos suficientes. E de fato eles não estão internados, eles estão aguardando, dentro do hospital, pela transferência para que possam realizar suas cirurgias. Internados estão aqueles que são de resolução do hospital, como o exemplo dos pacientes com fraturas expostas, que são operados aqui mesmo. Os de fraturas fechadas são transferidos para serem operados em outros serviços, depois de passarem pelo atendimento de emergência, mas ficam aqui esperando essa transferência.
E os problemas pessoais que essas pessoas enfrentam, sem poder trabalhar, com a família tendo de vir cuidar deles, ou então ficando dias e dias longe dos parentes? São exatamente esses que você falou.
E existe alguma promessa do município de que essa fila possa andar mais rápido?Não saberia dizer.