Tádzio França - repórter
Sentiu um peso a mais no prato na última vez em que saiu para almoçar fora de casa? Provavelmente foi o preço. Natal entrou para o rol das dez capitais com o almoço mais caro do Brasil - está em nono lugar. A conclusão foi resultado do Índice Alelo de Preço Médio de Refeição 2012, pesquisa realizada pelo terceiro ano entre o Instituto Datafolha e a Alelo, uma administradora de cartões benefício e pré-pagos. O levantamento foi realizado entre 4.312 estabelecimentos brasileiros entre setembro e outubro do ano passado, avaliando o custo individual de prato principal, sobremesa, bebida e café expresso. Tudo isso, no pacote, compôs o valor total da refeição.
Alex Régis
Natal está entre as dez cidades com o almoço mais caro do Brasil
O Nordeste despontou como a região com o almoço mais caro do país. O preço médio regional é de R$29,35, enquanto a média nacional é R$27,46. Isto representa um aumento de 2,54% em relação à pesquisa do ano passado. A capital do Maranhão, São Luís, é a mais cara (regional e nacionalmente), com o custo médio de R$36,21. No ranking nordestino segue-se Salvador (BA), Natal (RN), Recife (PE) - considerada o segundo pólo gastronômico do Brasil - e Fortaleza (CE). A capital potiguar figura agora em terceiro lugar no custo alto do almoço, com o valor médio de R$29,87. Vale salientar que na pesquisa do ano passado, Natal não havia entrado entre as dez mais careiras.
Quem costuma almoçar fora já percebeu, no geral, que a comida está pesando mais no bolso. Mas há várias questões a serem pensadas antes de se olhar o cardápio ou pôr o prato na balança. Questões relativas ao local para onde se está indo comer, paladar, ocasião, apetite, tempo, e intenção em relação ao local. Há um almoço para cada momento - e bolso. Se o horário deixar, é possível ter uma refeição em que o custo/benefício favoreçam o bolso e o estômago.
CARO EM VEZ DE PRÁTICOBenício Siqueira, diretor executivo da revista Deguste, considera que alguns self-services da cidade estão realmente exagerando nos preços. "Aquilo que era pra ser prático acaba saindo mais caro. Não é assim nas cidades maiores", avalia. Ele acredita que essa é uma das causas que tem feito os pratos executivos crescerem em preferência. "É mais barato e rápido que o prato a la carte oficial, e sai num custo similar ao do self-service. Em questão de qualidade é bem melhor", diz. Pesquisar é preciso: Benício sugere as casas de massas nas praças de alimentação dos shoppings, e mesmo os executivos de restôs tradicionais como Buongustaio e Abade Petrópolis.
O jornalista Washington Rodrigues acha que a cultura turística da cidade contribui para elevar os preços nos restaurantes. Ao mesmo tempo, tem incentivado os restaurantes mais tradicionais a criarem pratos a preços competitivos para o almoço. "É só pesquisar um pouco entre Petrópolis, Lagoa Nova e Ponta Negra, há lugares ótimos com preços justos", afirma. Ele afirma que prefere pratos executivos. "Self-service só se eu estiver com muita pressa", brinca.
Para o chef Angelo Medeiros, o hábito natalense do "prato cheio", de comer muito, é algo que os restaurantes aproveitam para capitalizar. Ele acredita que a qualidade da comida tem acompanhado o preço, mas acrescenta algo a mais no tempero: status. "As pessoas gostam de ver e serem vistas. Restaurante também é isso em Natal", ironiza. O chef tem opções para amenizar o bolso com satisfação, como as saladas, cada vez mais em alta na cidade, e locais intimistas, como o Tri-Chefs, anexo da loja Teca Helô, em Petrópolis.
O jornalista Ailton Medeiros conta que almoça fora desde 1987, e que nos últimos dois anos sentiu o peso no bolso. "Percebi a alteração nos lugares que eu costumava comer. Fui obrigado a variar, procurar alternativas", diz. Atualmente ele indica em Ponta Negra o Roça de Minas e o Dunas, "bons lugares e que só vivem cheios", ressalta. Ailton afirma que, em algumas ocasiões, é preferível evitar os self-services. "Se vou sair em família ou com amigos, melhor procurar um a la carte. Almoçar em grupo no Camarões, por exemplo, sai mais em conta do que num self-service", afirma.
O músico Anderson Foca afirma que, baseado em suas turnês pelo Brasil, não sentiu toda essa carestia em Natal. "Quando como em outros Estados ou quando músicos de fora vêm comer aqui, a opinião geral é de que Natal é acessível", explica. Claro, há o fator geográfico que pode influir. "Uma banda de Goiânia que vier para cá vai ficar deslumbrada com os preços dos frutos do mar. Aqui é baratíssimo, enquanto lá são os olhos da cara", compara.
A empresária Luciane Benfica, que vive na ponte aérea entre Natal e Recife, afirma que a capital pernambucana é muito mais cara nas refeições. "Talvez seja o local que eu frequente. Aqui em Natal sempre almoço no Talher, e acho o preço justíssimo. Eu moro em flat, não tenho empregada, portanto, almoçar bem é importante pra mim", analisa. "Já ouvi gente dizer que Natal é cara, mas não senti isso", completa.
A produtora cultural Kátia Collier considera os preços atuais coerentes com a qualidade do que Natal vem oferecendo. "Nosso produto principal são os frutos do mar, algo que costuma ser muito caro em todo lugar, menos aqui", diz. Ela é adepta dos restaurantes a la carte, "mais higiênicos e de comida superior", afirma. O paladar da produtora acompanha os menus de lugares como Santa Maria, Cook & Luxo, Temaki, e da churrascaria 'prime' Fogo & Chama. "Ter restaurante bom é caro. É preciso considerar isso", enfatiza.
A pesquisadora e cozinheira Adriana Lucena acredita que qualquer preço a ser pago vale, quando o produto oferecido é condizente com ele. "Temos restaurantes fantásticos por aqui. O português Santa Maria tem o melhor custo/benefício que conheço. Não me incomodo de pagar um prato no Cassol, o padrão é alto e corresponde ao que a gente deseja comer", diz. Mas quando o produto destoa, qualquer cafezinho vira um transtorno. "Em Natal é raro alguém tirar um café expresso direito. Os funcionários das cafeterias não sabem. E ainda cobram R$3,50 por isso. Eu reclamo mesmo!", afirma.
UMA PESQUISA PARCIALO jornalista Max Fonseca, atual presidente da Associação de Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) do RN, questiona a pesquisa da Alelo. "Acho que não representa uma estimativa completa, já que foi feita apenas em lugares que aceitam o cartão Visa Vale, não integra tudo", afirma. Para Max, os preços praticados em Natal são bem competitivos, nos segmentos de self-service, PF e executivos, só destoando mais no segmento a la carte. "As casas mais luxuosas no ambiente e serviço são naturalmente mais caras. Acho injusto fazer uma estimativa baseado apenas nos tops de linha", diz.
O presidente da Abrasel regional também ressalta outro dado. "O Nordeste não é uma região produtora de alimentos. Quase tudo, entre carnes, arroz e feijão, vêm de outros Estados. É algo que encarece os serviços", analisa. Max, que raramente almoça fora de casa, afirma que em viagens, achou os preços de outros Estados bem mais altos que os de Natal. Há apetite para qualquer preço.
Para a pernambucana Mariana de Morais, em Natal o que pesa no bolso é na questão qualidade vrsus preço. "Não querendo puxar sardinha para Pernambuco, mas come-se muito bem por preços mais em conta. Há restaurantes aqui em Natal que economizam nos ingredientes, mas cobram pelo produto de alta qualidade", alfineta. "Se é filé, tem que ser de verdade".
PREÇO MÉDIO DAS 10 CIDADES MAIS CARAS EM 2011São Luís (MA) - R$36,21
São Vicente (SP) - R$34,91
Rio de Janeiro (RJ) - R$32,78
Brasília (DF) - R$31,77
Sorocaba (SP) - R$30,54
Belém (PA) - R$30,33
Piracicaba (SP) - R$29,99
Salvador (BA) - R$29,96
Natal (RN) - R$29,87
Jundiaí (SP) - R$29,71
PREÇO MÉDIO DAS SETE CIDADES MAIS BARATASContagem (MG) - R$16,50
Cuiabá (MT) - R$20,18
Uberlândia (MG) - R$21,02
São José dos Pinhais (PR) - R$21,09
Vila Velha (ES) - R$21,34
Mauá (SP) - R$21,59
Bauru (SP) - R$21,62