Forró de pai pra filho

Publicação: 2012-06-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva - Repórter

Antes, bem antes de ‘boquinha da garrafa’, ‘dança da manivela’, ‘rebolation’, ‘ai se eu te pego’ entre outras ‘pérolas’ de gosto duvidoso que tomam conta da programação radiofônica e invadem lares sem cerimônia, os trocadilhos musicais enfatizavam o humor e respeitavam a imaginação e a inteligência do ouvinte – que, claro, invariavelmente acabava pensando “naquilo!” O paraibano Genival Lacerda, 81, é um dos pioneiros desse perfil irreverente e legítimo porta-voz de uma época quando a letra e o ritmo eram muito mais importantes que as ‘dancinhas’ de hoje.
DivulgaçãoO rei do trocadilho, Genival Lacerda, 81, e filho João lacerda se apresentam juntos hoje no Arraiá do Zé Bonitinho. O cantor de Severina Xique-Xique vai homenagear a Luiz Gonzaga.O rei do trocadilho, Genival Lacerda, 81, e filho João lacerda se apresentam juntos hoje no Arraiá do Zé Bonitinho. O cantor de Severina Xique-Xique vai homenagear a Luiz Gonzaga.

Se você, caro leitor incauto, lembra desses tempos com ar de saudade ou ainda não tinha idade suficiente para acompanhar Genival Lacerda nas paradas de sucesso cantando as impagáveis “Julieta”, “Radinho de pilha”, “Severina Xique-xique”, “Galeguim do Zoi Azu”, “O Gato Tico” e “De quem é esse jegue”, mas tem vontade de conferir ao vivo o cantor e compositor balançando sua enorme pança para frente e para trás como se estivesse dançando com uma parceira imaginária, então seu destino é o Arraiá do Zé Bonitinho, na Reta Tabajara em Macaíba, onde Genival e o filho João Lacerda fazem show neste sábado às 20h.

Com exatos 61 anos de estrada e quase uma centena de discos lançados, Genival é tido como o artista mais velho do forró em atuação: “Depois de mim só Dominguinhos”, disse o forrozeiro por telefone à reportagem do VIVER. “Fico encafifado quando vejo esse povo que começou agora dizendo que já sabe de tudo. Fico só olhando esse pessoal! Eu tenho mais de 60 anos de carreira e continuo aprendendo todo dia”, disse com a sapiência de quem dividiu o palco com Luiz Gonzaga, Elino Julião e Jackson do Pandeiro.

Natural de Campina Grande e radicado no Recife, Genival traz para Natal “Luiz Gonzaga no balanço do forró”, seu mais recente trabalho, e aproveita a ocasião para apresenta oficialmente a carreira solo do filho João Lacerda, 33, ao público potiguar – João acompanha o pai desde os 11 anos, com quem começou como percussionista e hoje responde pela produção artística de Genival. Ele já contabiliza um DVD e três CDs gravados, está preparando o quarto álbum e hoje em Macaíba divulga “São João Lacerda – volume 1”, que circula desde 2010 e conta com participações de Dominguinhos, Reginaldo Rossi e do próprio Genival Lacerda.

CDs tem distribuição gratuita

“Em ‘São João Lacerda’ faço versões juninas para clássicos como ‘Frevo Mulher’ (Zé Ramalho) e ‘Banho de Cheiro’ (sucesso na voz de Elba Ramalho), além de músicas que estão nos CDs anteriores”, disse João Lacerda por telefone. Ele informou que, assim como o pai, não está mais preocupado em vender e sim em divulgar sua música: “Não adianta mais brigar contra a pirataria, por isso prefiro distribuir os discos e receber convites para fazer shows. As músicas estão todas disponíveis para baixar pela internet”, informou o cantor, que está trabalhando na gravação de mais dois álbuns ainda este ano – um de carreira e outro com vistas ao Carnaval 2013.

“Já fizemos 50 mil cópias deste disco junino, espalhamos por todo o Nordeste, e no show de hoje trouxemos mil cópias para distribuir entre o público presente”, adiantou João. “Hoje prefiro cantar, pois direitos autorais não garantem mais nada”, verificou Lacerda pai.

O filho de Genival co-produziu o documentário “O rei da munganga” sobre o pai em 2009, com a diretora carioca Carolina Paiva, quando foi registrado a turnê da dupla durante os festejos juninos em Aracaju, Caruaru, Campina Grande e Juazeiro do Norte. O documentário traz depoimentos da saudosa Marinês, Jorge de Altinho, Flávio José, entre outros, e conta detalhes, curiosidades e histórias da carreira de Genival Lacerda.

Trocadilhos do Genival

Julieta
Juliêta-tá, tá me chamando
Juliêta-tá, tá me chamando 
Maria preta escreveu na tabuleta 
Quem tiver dinheiro come 
Quem não tem toca...pandeiro!...

Severina Xique-xique
Quem não conhece 
Severina Xique-xique, 
Que montou uma butique 
Para vida melhorar. 
Pedro Caroço, filho de Zé Vagamela,
Passa o dia na esquina fazendo aceno para ela.
Ele tá de olho é na butique dela!
Ele tá de olho é na butique dela!

Radinho de Pilha
Fui pra cidade do Rio de Janeiro, 
Trabalhei o ano inteiro e fiz até cerão, 
A vida do paraíba não foi brincadeira, 
De servente, de pedreiro 
pra ganhar o pão 
Fiz economia, deixei de fumar, 
Comprei um rádio de pilha 
E mandei pro meu bem 
Fiquei muito revoltado 
quando regressei, 
O rádio que eu dei pra ela, 
ela doou pra alguém 
Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio 
Ela deu sim, foi pra fazer pirraca, 
mas ela deu de graça, 
O rádio que eu comprei, 
e lhe presenteei

O gato Tico
Tico-Tico é um gato 
Que a Maria quer bem 
Não dá, não vende, nem troca 
E não empresta a ninguém 
O tico tem um defeito 
Que nem da pra consertar 
O defeito do tico 
É que é danado pra miar 
Tico mia na sala, Tico mia no chão 
Tico mia na cozinha, 
encostado no fogão 
Tico mia no tapete, Tico mia no sofá 
Tico mia na cama, toda hora 
sem parar

Genival Lacerda: Hoje tá uma esculhambação só!BATE-PAPO

GENIVAL LACERDA


“Hoje tá uma esculhambação só!”

Genival as coisas estão se invertendo: agora é você quem está vindo acompanhar o filho no show aqui em Macaíba?

É mais ou menos isso. Quero apresentar o menino aqui no RN, onde não venho há mais de 10 anos. Ele (João) tem muito mais contato que eu aqui, e como meu nome é mais conhecido então estou voltando pra abrir essa porta pra nós dois.

E por que demorou todo esse tempo pra voltar?

Boa pergunta. Espero que comece a vir mais vezes. Tenho apenas passado de viagem por aqui, em direção a Fortaleza ou voltando de lá.

Como é o estilo do João, é parecido com o seu?

Ele me acompanha desde menino, mas o estilo dele é bem diferente. Se fosse querer me imitar não ia dar certo, eu sou muito mais bonitinho. [risos]

E esse disco novo em homenagem à Luiz Gonzaga, o que tem de diferente de outros tantos tributos que estão sendo lançados?

Canto as músicas com mais suingue, com mais balanço, um jeito mais marcado. O disco tem várias participações como Fagner, Flávio José, João Lacerda, Elba Ramalho e (o mossoroense) Carlos André, que produziu vários discos de Gonzagão. Como tem muita gente gravando, festa pra todo canto, tenho que fazer diferente né!?

Qual o repertório do show desta noite?

Vou cantar Luiz Gonzaga, alguma coisa do tributo que à Jackson do Pandeiro e meus grandes sucessos como “Radinho de pilha”, “Severina Xique-xique”, “Caldinho de mocotó” entre outras tantas.

E vem com banda completa?

Claro, completa, só não venho com ‘mulé’, só ‘homi’ feio, o mais bonitinho sou eu! [risos]

E como vê essas novas músicas que abusam da sexualidade?

É uma esculhambação só. Antes era uma sátira engraçada e vem esses deturpadores e esculhambam a coisa toda. Uma pena o que está acontecendo.



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