Gal: o canto é o seu barato

Publicação: 24 de Março de 2013 às 00:00

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Yuno Silva  - Repórter

O mesmo palco que testemunhou a ‘doce bárbara’ Gal Costa gravar o emblemático “Fa-Tal – Gal a todo vapor” em 1971, volta a abrigar um novo projeto ao vivo da cantora quatro décadas depois. Em comum, “Recanto” traz o desejo de transgredir, de ir além, e mostra as ‘várias Gals’ que pontuam uma carreira prestes a completar meio século de estrada. Além da voz límpida e do repertório que mescla composições inéditas com clássicos da MPB como “Vapor barato”, “Divino maravilhoso”, “Baby” e “Barato total”, entre outros, todos devidamente reembalados para o século 21, o êxito do novo álbum também deve muito ao clima familiar dos bastidores e do visto em cena. “Sempre gostei de coisas novas, do inusitado, de experimentar e isso nunca me assustou”, disse Gal Costa à TRIBUNA DO NORTE sobre “Recanto Ao Vivo” (Universal Music).
Andre SchiliróAos 67 anos e com a mente de 30, cantora se diz revigorada após ter lançado Recanto, que agora ganha registro ao vivo em CD e DVDAos 67 anos e com a mente de 30, cantora se diz revigorada após ter lançado Recanto, que agora ganha registro ao vivo em CD e DVD

A versão de estúdio do disco foi lançada em 2011, sob os cuidados de Caetano Veloso, que por sinal assina as canções inéditas, e agora em março volta ao centro das atenções como registro (em CD e DVD) do show realizado em outubro do ano passado no Teatro Tereza Raquel, Rio de Janeiro, atualmente rebatizado como Theatro Net Rio.

Durante a entrevista, Gal fala do potencial que o álbum tem de atrair um público mais jovem, sobretudo devido a atualização sonora que aposta em guitarras distorcidas e batidas eletrônicas. “Meu público mais tradicional pode até achar o disco estranho num primeiro momento, mas quando assiste ao show entende melhor seu significado. As coisas mais modernas se misturam às músicas clássicas de maneira harmônica. Acredito que seja um show popular”.

Gal, qual a emoção de voltar ao palco do Teatro Tereza Rachel (hoje batizado de Theatro Net Rio) quatro décadas depois de “Fa-Tal - Gal a todo vapor” (1971)? Passou um ‘filme’ pela sua cabeça?
A escolha do Tereza Raquel foi proposital. Foi lá onde eu gravei “Fa-Tal”, que me marcou demais. Moreno (Veloso) foi atrás do teatro, disse que havia passado por uma reforma, gostou de como havia ficado e tocou o projeto. Foi muito comovente voltar ao mesmo lugar. O espaço está diferente, mas a emoção foi a mesma. Aquele dia (em 1971) foi muito especial, a música “Vapor Barato” foi lançada ali. Me emocionei demais por isso. Foi intenso estar lá nesse momento em que eu resgato minha vida, minha história.

Apesar da passagem do tempo a essência musical permanece e a maturidade artística é evidente. Quais mudanças destacaria de lá pra cá, e que agora estão em cena?
Esse disco é uma reunião de tudo o que eu sou, do que eu fui e do que eu serei, de uma maneira diferente, num outro tempo, mas sem perder essa essência, essa chama viva e esse gosto pelo novo, pela coisa que instiga, por se lançar um projeto sem medo, de gostar do risco. Isso só enriquece a vida de qualquer artista, na minha opinião. O tempo faz diferença, claro. Eu sou, eu estou diferente. Não tenho mais 25 ou 30 anos. Mas a paixão pelo palco é a mesma, se não é mais intensa. Cronologicamente eu tenho 67 anos, mas eu não  me sinto com essa idade, sabia? O meu espírito é mais novo. E eu me cuido. Eu tô malhando e não faço isso pra ficar com o corpo que eu tinha com 30 anos, faço por saúde, porque eu não quero enferrujar. As porradas que você tomou na vida, as coisas boas que você também vivenciou, tudo isso forma uma bagagem importante. Eu acho que maturidade me traz mais confiança, mais tranquilidade, mais serenidade, mais segurança, eu diria.

Guto CostaGerações no palco de Recanto: Moreno Veloso, Dora Jobim (neta de Tom) e Gabriela Gastal cuidaram da produção do novo DVD de Gal CostaGerações no palco de Recanto: Moreno Veloso, Dora Jobim (neta de Tom) e Gabriela Gastal cuidaram da produção do novo DVD de Gal Costa
Você colaborou/opinou no processo de atualização dessas músicas para que contivessem sua personalidade? Qual o grau de sua influência no resultado de “Recanto”?

O projeto todo partiu do Caetano. Ele compôs as canções especialmente pra mim e me trouxe todas prontas. O restante do repertório também foi ele quem fez. Ele escolheu todas as músicas e foi me mostrando e eu fui aprovando ou não. O trabalho não existiria sem ele. Caetano dirigiu mais a parte musical, a estética do show. Mas o show foi nascendo, eu fui incorporando aquilo, e o espetáculo foi se formando. Acho que só uma que eu não quis gravar, o restante foi perfeito.

E como é estar no meio dessa moçada (músicos na faixa dos 30 e poucos anos) que te acompanha no palco e nos bastidores? Oxigena, revigora?
É revigorante, com certeza! Cantar ao lados dos jovens e para os jovens traz uma energia forte, boa. O Pedro (Baby), por exemplo, é filho do Pepeu (Gomes e da Baby Consuelo) que tocou comigo. É emocionante tê-lo ao meu lado. Moreno, filho de Caetano, é meu afilhado, também é muito rico tê-lo na equipe. Eles trouxeram elementos novos e ao mesmo tempo conheciam todo o meu trabalho. Os ensaios vieram com harmonia, uma coisa espontânea dos músicos, quando vimos já estava bonito. Nos encontramos. (Detalhe: Zeca Veloso, outro filho de Caetano, também participa do disco como autor de bases eletrônicas)

Guto CostaDisco Recanto reuniu gerações: Caetano assina a direção geral; Pedro Baby, à direita, filho de Pepeu Gomes e Baby Consuelo, tocou guitarra e violãoDisco Recanto reuniu gerações: Caetano assina a direção geral; Pedro Baby, à direita, filho de Pepeu Gomes e Baby Consuelo, tocou guitarra e violão

O formato da banda, um power trio básico (baixo, guitarra e bateria) com elementos extras (bases eletrônicas), apresenta uma Gal Costa mais roqueira – mesmo que o conjunto da obra siga por várias direções. Diria que o rock é uma forma de renovar, de se reinventar, e até de retomar alguns momentos da carreira?

Claro. O disco foi um desafio, eu gosto disso. É um disco de vanguarda, principalmente do estúdio, que me emociona muito, me instiga. Eu consegui misturar a Gal de antes e a Gal de agora, de maneira harmônica, no mesmo disco. Eu posso fazer isso porque eu sou verdadeiramente tudo aquilo que está ali no show. Se eu não tivesse assumido ou entendido isso de uma maneira inteira, efetiva eu acho que o “Recanto” não seria o que é. E esse formato do disco trouxe um público mais jovem.

Você fez alguma sugestão sobre quais instrumentos estariam presentes no palco?
Caetano me trouxe o show pronto. Fui me adaptando a ele, colocando minha voz, dando meus palpites.

Alguns críticos afirmam que “Recanto” é tão emblemático quanto “Fa-Tal - Gal a todo vapor” (1971), “Plural” (1990) e “O sorriso do gato de Alice” (1994). Também enxerga dessa maneira? Está entre seus principais trabalhos?
Com certeza. “Recanto” é minha atual paixão. É forte, é instigante, me emociona muito.

 Sobre mercado fonográfico: vê alguma solução para a equação [internet + pirataria x direitos autorais]? Imagina alguma fórmula para resolver as tensões do mercado em um futuro próximo?
A crise do disco é grande, se vende pouco disco. A internet ajuda a divulgar os shows, já que o artista não vende mais discos. Antigamente, quando tinha turnê, eu ficava semanas nas capitais fazendo show e não precisava de patrocínio, hoje tem que ter apoio. Por exemplo, a luz de “Recanto” é simples, mas cara. Até os anos 90 era mais fácil fazer show, hoje é mais difícil. Temos que nos adaptar ao mercado. “Recanto” foi feito para se ouvir por inteiro, mas também para ser baixado, música a música pela internet. Mas ainda acho necessário o material físico para chamar a atenção do público e, consequentemente, dos contratantes de shows.

E para finalizar, quando “Recanto” passará por Natal?
Quero levar esse show para o maior número de cidades possível, estamos indo atrás de lugares e contratantes. Com certeza espero desembarcar com o “Recanto” em Natal, uma cidade linda, já estive aí diversas vezes, e espero poder voltar em breve.

Assista trailer do show no Theatro NET Rio:


Setlist RECANTO AO VIVO
1. “Da maior importância” (Caetano Veloso)
2. “Tudo dói” (Caetano Veloso)
3. “Recanto escuro” (Caetano Veloso)
4. “Divino maravilhoso” (Gilberto Gil/ Caetano Veloso)
5. “Folhetim” (Chico Buarque)
6. “Mãe” (Caetano Veloso)
7. “Segunda” (Caetano Veloso)
8. “Minha voz, minha vida” (Caetano Veloso)
9. “Barato total” (Gilberto Gil)
10. “Autotune autoerótico” (Caetano Veloso)
11. “Cara do mundo” (Caetano Veloso)
12. “Deus é o amor” (Jorge Ben Jor)
13. “Dom de iludir” (Caetano Veloso)
14. “Neguinho” (Caetano Veloso)
15. “O amor” (Caetano Veloso/ Ney Costa Santos/ Vladimir Maiakovski)
16. “Baby” (Caetano Veloso)
17. “Vapor barato” (Jards Macalé/ Waly Salomão)
18. “Um dia de domingo” (Michael Sullivan/ Paulo Massadas)
19. “Miami maculelê” (Caetano Veloso)
20. “Mansidão” (Caetano Veloso)
21. “Força estranha” (Caetano Veloso)
22. “Meu Bem, meu mal” (Caetano Veloso)
23. “Modinha para Gabriela” (Dorival Caymmi)



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