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Natal, 05 de Setembro de 2010 | Atualizado às 19:11

Gelo: Um frio na barriga

Publicação: 21 de Março de 2010 às 00:00
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Michele Maisto - madrelingua@supercabo.com.br

“O meu reino por um sorvete!” esbravejava o Príncipe Regente (1) nos corredores do Paço do Rio de Janeiro, naquele tórrido verão de 1808. Fanta-história? Talvez. Com certeza, porém, o gelo foi um produto procurado e caro durante séculos. Os antigos romanos recolhiam e armazenavam a neve e o gelo em poços escavados ou em grutas naturais: coberto com folhas, palha ou plumas de pássaro, que garantiam ótimo isolamento, o gelo conservava-se durante meses. Já nessa época os Romanos misturavam a neve a sucos de frutas para obter refrescos antecessores do sorvete. Mas foi com a descoberta de que alguns sais, como o nitrato de potássio, (salitre), ao serem dissolvidos em água, provocavam uma queda de temperatura do líquido que começaram os estudos para produzir o frio, e o gelo, por via química.

Esta descoberta parece ter acontecido em 1550, e foi descrita por Blasius Villafranca, médico espanhol radicado em Roma: em um seu tratado o médico afirma ter sido o primeiro a descrever publicamente este fenômeno. Por volta de 1660 descobriu-se que misturando certos sais diretamente ao gelo podia-se obter “mesclas refrigeradoras” que alcançavam uma temperatura muito inferior àquela de partida do gelo. A primeira descrição pode ser encontrada no livro “De Fama et Siti”, publicado em 1607 por outro médico: Latinus Tancredus, professor em Nápoles. Descreve ele que um copo de água colocado numa solução de gelo e salitre transformava-se rapidamente em gelo. Em 1626 Santorio Santorio, em seus comentários à obra de Avicena (2), conta que foi capaz de congelar vinho usando uma solução de água e sal comum, em lugar do salitre. A partir da Itália, essa descoberta difundiu-se rapidamente em outros países e começou a ser usada para a produção de versões primitivas, porém muito apreciadas, de raspadinhas e sorvetes.

Duzentos anos atrás, as tropas de Napoleão, obrigaram a corte portuguesa a deixar precipitadamente Lisboa e seus picolés. Na hora de fechar os baús, alguns funcionários da Real Biblioteca enfiaram neles uma planta de uma fábrica de gelo (3). Resta saber se alguém cogitava construir uma parecida aqui, num país de eterno verão, sem neve nem gelo, como o Brasil.


1 Está documentado que se vendia neve nas ruas de Lisboa já em 1615. Quando o rei espanhol Filipe III, alguns anos depois, em pleno verão, visita a capital portuguesa, o “neveiro” Paulo Rodrigues é contratado para “fornecer diariamente 96 arrobas de neve para a corte”: o monarca devia estar particularmente acalorado, até porque acabara de assistir em Évora ao suplício de quatro homens e oito mulheres, queimados vivos pela Inquisição!

2 Avicena é o nome dado nas culturas ocidentais a Ibn Sina (Bucara, 980 — Hamadã, 1037), célebre filósofo e médico persa da Idade Média. Sua obra é enorme, perto de 270 títulos acerca de filosofia e ciência. A sua principal obra médica é o enciclopédico al-Qanun (ou "Cânone"). O Cânone foi traduzido posteriormente, no século XIII, para o latim por Gerardo de Cremona e posteriormente imprimido e reimprimido por toda a Europa. Depois de Avicena e até ao século XVIII, todo o trabalho farmacêutico na matéria médica foi influenciado pelo seu trabalho.

3 A planta de uma destas fábricas, uma aquarela portuguesa do século XVIII, se encontra na Divisão de Iconografia da Biblioteca Nacional, catalogada com o nome de “Fábrica de Neve”. Com toda probabilidade se trata da planta da Real Fábrica de Gelo de Montejunto, a 60 km a norte de Lisboa e a 500 metros de altitude, cujas ruínas ainda hoje são objeto de visitação.


Receita

Gelo de melancia com chocolate

Rendimento: 4 pessoas

Ingredientes

• 3kg de melancia

• 120g de açúcar refinado

• 90g de maizena

• 80g de chocolate em gotas

• 50g de abobora glaceada

• Extrato de baunilha

• Canela em pó

Modo de preparo:

Retire a casca e as sementes da melancia, em seguida passe a polpa na centrífuga. Numa panela misture a maizena com duas conchas pequenas de suco de melancia; em seguida coloque mais um litro de suco e o açúcar, leve ao fogo até ferver e deixe reduzir durante 4-5 minutos, mexendo com um acolher de pau. Retire o fogo, adicione o extrato de baunilha, uma pitada de canela e a abobora e m pedacinhos. Deixe resfriar mexendo de vez em quando; em seguida incorpore as gotas de chocolate, que darão a impressão ótica das sementes. Divida o composto em 6 forminhas e deixe solidificar na geladeira durante algumas horas antes de servir.

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