Governadora: "José Agripino está com medo do presidente Lula"
Publicação: 27 de Maro de 2010 às 00:00
Depois de uma década e meia no Executivo, a professora Wilma Maria de Faria está de volta à disputa por uma vaga no Legislativo. Ela passa o governo do Estado ao vice Iberê Ferreira de Souza na próxima quarta-feira. Poucos dias depois estará nas estradas em busca de votos para o Senado. Wilma está convicta da vitória. Afirma que sai do governo com a sensação do dever cumprido, satisfeita com os índices sócio-econômicos e com disposição para enfrentar as dificuldades. Como conquistas do governo ela cita o programa de adutoras, recuperação de estradas, saneamento básico e assistência social. Reconhece problemas na Saúde e na Segurança Pública, "problemas que o Brasil todo tem." Sobre as críticas, que começam a ter um tom mais elevado em função da campanha eleitoral, ela é enfática: "Não vou aceitar linchamento moral. Responderei à altura." Nesta entrevista, Wilma faz um balanço dos sete anos de governo - ela foi prefeita de Natal por dois mandatos - garante que é "candidatíssima" ao Senado e critica o senador José Agripino, "que está com medo do presidente Lula", e a senadora Rosalba Ciarlini, pré-candidata do DEM ao governo do Estado. "Eu não a vejo fazer nada. Vejo-a fazendo propaganda política esquecendo de fazer a parte dela no Senado."
A senhora deixa o governo com a sensação de dever cumprido ou de que ainda falta muita coisa a realizar?
Sensação de dever cumprido. Saio bem avaliada, apoiada positivamente pela população e com um respaldo muito grande. Eu agora estou fazendo muitas inaugurações e sinto isso da população. Os indicadores econômicos e sociais dizem também que crescemos muito nesses aspectos, então tenho a sensação de dever cumprido.
Entre os indicadores que a senhora cita, quais se destacam mais?
O IDH, por exemplo, é o segundo melhor do Nordeste. Nós estamos empates em termos de IDH com Sergipe. Esse é o principal indicador da situação boa que nós temos. Nós somos também o melhor estado em termos de população abaixo da linha de pobreza. Saímos de 42% para 28%.
A senhora atribui à melhoria do IDH às ações sociais do seu governo? Geralmente, os indicadores que foram o índice se referem ao censo de 2000...
São indicadores recentes. O IBGE de 2008, por exemplo, diz que a expectativa de vida do RN é a terceira melhor do Nordeste. A pobreza caiu.
E no caso dos indicadores econômicos?
No PIB per capita, por exemplo, em primeiro lugar vem Sergipe e nós estamos empatados com a Bahia. Isso representa um crescimento econômico muito grande. O Rio Grande do Norte já é autossuficiente em energia. Nós investimos em energia em todos os sentidos. Temos aí um investimento em energia limpa, energia eólica. Nós tivemos um leilão em energia eólica e o Rio Grande do Norte foi o primeiro. Além disso, temos também a biomassa, que é uma coisa muito boa. Nós tivemos a refinaria [de Guamaré] consolidada. Ela é a sétima ou oitava do Brasil, onde conseguimos agregar valor. Nesse período de refino, nós temos mais uma unidade de óleo diesel, temos outra unidade de querosene de aviação e outra de gasolina automotiva para consolidar esse polo que só tinha a gerência na área de exploração de petróleo e agora nós temos na área de refino.
A senhora acha que aquele episódio da perda da refinaria para Pernambuco, está superado?
A refinaria de Pernambuco vai ser feita quando? E a do Ceará e do Maranhão? Para daqui a 10 anos? A nossa foi feita este ano.
Como é que a senhora transmite o governo em relação ao equilíbrio das contas?
Nós vamos deixar o governo com dois bilhões de reais para investimentos e ainda relacionar todas as obras prontas e em fase de conclusão. Nós dobramos o saneamento no RN, vamos dobrar em Natal. Nós vamos ter também a estação de tratamento para 21 bairros de Natal. O programa de estradas, que foi o maior já visto. Ontem mesmo (terça-feira) foi publicado no Diário Oficial mais um crédito de 300 milhões para a construção de novas estradas. Nós vamos ter a melhor malha viária do Nordeste, tanto do ponto de vista de BRs como do de Rns, e isso vai ficar concluído até o final do ano porque está tudo licitado e estamos dando a ordem de serviço. Fora o que já fizemos em estradas. Foram 1.500 quilômetros de recuperação de vias. Quando eu assumi o governo as estradas estavam péssimas e nós vamos deixar tudo ok.
E as que as chuvas...
As que não estiverem bem por questão das chuvas que aconteceram nos últimos anos, nós vamos recuperar todas. Na área de habitação, nós já temos cerca de 35 mil famílias que serão beneficiadas e mais mil até o final do ano para serem concluídas. Está tudo assegurado e é uma parceria com o Governo Federal. Na área de Adutoras nós vamos ter até o final do ano cerca de 1.500 quilômetros de adutoras prontas e ainda vamos ter a do Alto Oeste, que são 367 quilômetros de adutora. A de Acari-Currais Novos que não foi feita ainda por ter um problema judicial na licitação e vamos concluir agora a adutora que liga João Câmara a Bento Fernandes e Pureza e a segunda etapa do Boqueirão.
Nesses sete anos de governo a senhora tem ideia de quantas indústrias foram implantadas no RN?
Cento e trinta e quatro empresas e todas estão funcionando.
Isso representa investimentos próprios do governo de quantos milhões?
Por ano cerca de 350 milhões de renúncia fiscal, sem falar no gás, que é outro componente. Nós tínhamos o Progás (Programa que oferece concessão de gás natural a preço reduzido, para as indústrias que se instalem no Rio Grande do Norte ou para aquelas, já implantadas em nosso Estado, que ampliem suas plantas industriais), mas não tínhamos a tubulação, então praticamente não tínhamos esse programa. Nós fizemos a tubulação através da Potigás e estamos levando para muitas empresas um outro incentivo, com uma redução de 39% do preço do gás para servir como atrativo para investimentos no RN. Além dos investimentos na área do agronegócio. 70% do camarão está sendo vendido no mercado interno com agregação de valor.
Há setores em que a senhora acredita que não foi possível avançar como imaginava ao assumir o primeiro mandato?
Nós temos dificuldades em duas áreas que o Brasil todo tem. O SUS, que precisa ser feito pelos três entes da federação - federação, estadual e municipal - então aí tem uma dificuldade. Primeiro porque a emenda 29 ainda não foi regulamentada e não foi definido os percentuais a serem repassados pela União, segundo porque os municípios sem condições não faz a parte da assistência básica e eu cito o exemplo de Natal, Mossoró, Pau dos Ferros, então o hospital deixa de fazer o que é de sua responsabilidade para fazer ambulatório e isso não é para nós fazermos.
Falta empenho dos prefeitos?
Falta recurso para os prefeitos, então eu não vou avaliar isso. Além de há uma demanda maior.
O outro ponto negativo seria a Segurança?
Sim, porque aumentou muito a violência no Brasil e principalmente o tráfico de drogas. No Fórum dos governadores foi falado exatamente isso: que nós precisamos que todos se preocupem com essa questão. É necessário um efetivo maior da Polícia Federal para nos ajudar a combater o tráfico de drogas porque isso incomoda socialmente e economicamente. O Rio Grande do Norte, apesar de tudo, é um dos estados mais tranquilos do Brasil.
O vice-governador diz que tem duas áreas prioritárias, que são Saúde e Segurança. O que ele vai poder fazer que a senhora não conseguiu?
Iberê deve fazer a continuação do nosso trabalho. Eu aumentei o efetivo da policia, a mpliei a compra de armamento e veículos da Polícia. Hoje nós somos o maior efetivo do Nordeste, comparando a população de outros estados. Ele vai entrar em uma hora boa porque nós fizemos concurso para a Polícia Civil e vamos poder ter um quadro de profissionais maior para combater o crime organizado. Agora mesmo eu assinei um convênio com o Ministério da Justiça para modernizarmos e ampliarmos o Itep, então isso tudo é muito positivo.
Isso nos leva a supor que, ao contratar essas pessoas, o governo saiu do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal...
Depende da forma como você vai analisar o limite prudencial. O Executivo do Rio Grande do Norte tem a situação melhor em relação ao limite prudencial. Agora nós fazemos um cálculo diferente dos demais poderes, que retiram do cálculo o imposto de renda e os valores da previdência. Nós fazemos o cálculo com a despesa de pessoal e os encargos sociais. Se nós retirarmos esses valores a nossa despesa é a menor de todas. Mas nós esperamos não aumentar nada esse ano com as contratações porque o Brasil vai crescer. Ano passado nós tivemos um crescimento negativo e esse ano, segundo os economistas e o governo, nosso crescimento será entre 4 e 6% do PIB e isso aumentará a arrecadação. Somente o ICMS cresceu bastante esse ano. O Fundo de Participação caiu. Melhorando a arrecadação melhora essa relação da despesa com pessoal e a arrecadação. Com isso vamos poder contratar esses profissionais sem problemas legais.
Wilma questiona atuação política de Rosalba Ciarlini
Além da carência de recursos, o que mais faltou para a Segurança Pública ser melhor avaliada pela população?
Faltou essa parte da Polícia Civil, que nós precisamos de mais profissionais, e uma maior integração da Polícia Militar com a Civil e a Judiciária.
A população reclama muito que não vê a polícia na rua...
A polícia está na rua. Nós modernizamos o Centro Integrado de Segurança Pública. Estamos monitorando com câmeras de vídeo todo o litoral de Natal. Com o sistema, podemos localizar, na hora, todas as viaturas, mobilizar os policiais.
A senhora credita o aumento da violência a quê?
Às drogas.
Diante de toda a dificuldade para o vice-governador, a senhora acredita que ele terá como apresentar resultados dessa gestão?
Ele vai apresentar porque nós investimos tanto nesses últimos 20 meses, que vamos conseguir mostrar os resultados agora.
Qual a diferença do RN que a senhora herdou e o RN que será herdado por Iberê?
A mudança dos indicadores sociais, crescimento econômico, redução da pobreza, da mortalidade infantil.
Quando a senhora assumiu o governo teve a sensação de terra arrasada? Geralmente é o que diz a oposição quando assume o poder.
Depois que assumi, o Estado cresceu muito em arrecadação, modernizamos a máquina de arrecadação. O RN cresceu muito com a chegada de novas empresas, novas indústrias. O comércio do RN é o que mais cresceu nos últimos tempos. Janeiro, fevereiro e março, que eram péssimos, agora são meses bons par o comércio. Tivemos também uma parceria muito boa do governo federal nas áreas de estradas, adutoras, habitação. Fizemos o maior programa de saneamento dos últimos 30 anos.
Seu sucessor não terá discurso para dizer que recebeu um Estado falido ou obras inacabadas?
Vou relacionar as obras em fase de conclusão que vamos deixar, com recursos já assegurados. Vou deixar a adutora do Alto Oeste para ser concluída, o Terminal Pesqueiro, Parque de Santa Luzia em Mossoró, estrada nova de Pipa. Vamos deixar 300 milhões para construção de estradas.
Seus opositores dizem que o segundo mandato foi um fracasso. A que a senhora atribui isso?
Quem diz isso não conhece o Estado, não leva em conta a crise que de certa forma desacelerou um pouco os investimentos. Mas não deixamos de investir.
O primeiro mandato foi melhor?
O primeiro mandato sempre tem uma relevância. No primeiro você dá uma alavancagem. O segundo é o mandato da continuidade ao trabalho que fez.
Como congressista a senhora votaria a favor de uma emenda que acabasse com a reeleição.
Sou favorável a um mandato com tempo maior e com coincidência de eleições [de vereador a presidente da República]. Seis anos dá para fazer tudo.
Diante dos últimos acontecimento políticos, em que muda a estratégia de seu grupo político?
Nosso grupo continua com a mesma estratégia. O problema de saúde de Iberê foi detectado a tempo e ele será o candidato. Eu sou candidatíssima ao Senado.
A que a senhora atribui o fato de estar abaixo nas pesquisas?
Não sei que pesquisas são essas. Em 2006, todas as pesquisas davam que eu estava abaixo e ganhamos a eleição. Passei 16 anos no Executivo e muitas pessoas ainda não sabem que sou candidata. Gente de classe média. O mais importante para mim é que estou bem avaliada administrativamente.
A decisão do TRE sobre coligações ajuda a trazer ou a afastar o PMDB de seu grupo?
Política é diálogo. Vamos continuar dialogando com os partidos. O deputado Henrique Alves, que é o líder do PMDB, maior partido do País, quer manter a mesma aliança nacional.
O senador José Agripino tem ensaiado um discurso de oposição mais enfático...
José Agripino deve ter muito cuidado porque há muito voto dele comigo (risos).
Agripino adotou um discurso mais ameno com relação ao governo federal. É estratégia?
Acho importante que as pessoas reconheçam as coisas boas. O radicalismo não leva a nada. Mas Agripino está com medo do presidente Lula, com medo de perder a eleição para o Senado.
A senhora considera Garibaldi um senador de oposição a seu governo?
Garibaldi não tem feito colocações contra o meu governo.
Como se explica a diferença entre Rosalba e Iberê?
Iberê é um grande candidato que o povo vai conhecer melhor quando ele entrar no governo. Muita gente não conhece a atuação de Iberê. Como deputado ele tinha atuação no Trairi e no Seridó. Agora ele será conhecido em todo o Estado.
O desempenho de Rosalba no Senado a credencia a disputar o governo do Estado?
Eu não a vejo fazer nada. Ao contrário, eu a vejo viajando. Não tem um processo de discussão no Senado. Vejo-a fazendo propaganda política esquecendo da parte dela no Senado.
A senhora vinha reclamando da ação dos poderosos. A senhora é uma pessoa magoada?
Não. Sou uma mulher lutadora, guerreira, que aceita enfrentar os desafios. Ao contrário, estou preparada para a luta.
A senhora cultiva o sentimento do rancor.
Não. Não tenho.
Mesmo diante das críticas de envolvimento de familiares em escândalos?
Sou contra setores da imprensa que querem fazer difamação e antecipar julgamentos. Julgamento quem faz é a Justiça.
A senhora não quer identificar esses setores da imprensa?
Não vou aceitar linchamento moral. Responderei à altura.