Havemos Sono

Publicação: 24 de Março de 2013 às 00:00

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Quando o afro italiano Mario Balotelli, mais ou menos na meia-lua da área brasileira, vendo Júlio César adiantado encobriu-o com uma  jogada de craque empatando o jogo em dois a dois, no mesmo instante caiu na minha bacia das almas um bilhete de Alex Nascimento. O futebol já foi o esporte preferido do poeta (chegou mesmo a jogar futebol de salão no velho e abandonado Ginásio Silvio Pedrosa, num tempo em que o bairro de Petrópolis não tinha apelido e a rua Seridó não inundava nas temporadas de chuvas). Faz muito tempo. Hoje o seu esporte do coração e do fígado é a Fórmula Um, principalmente quando as corridas são disputadas durante as madrugadas nas pistas do Oriente e os zumbidos das máquinas ficam mais sensuais.

O bilhete de Alex encaminha um texto que ele escreveu motivado pela eleição papal de Francisco e enfileira algumas considerações filosóficas em torno do cenário cinemascope em que vive a sociedade humana, além de registar suas recentes viagens ao Jalapão e ao Kabul que lhe causaram recordações do tempo distante do Colégio Marista, mas nada a ver com Proust. O bilhete só tem uma linha e meia e pt saudações. O texto é bem mais longo, acho que umas 40 linhas. Você confere, agora:

“Madruguinha:

Família semimiserável, não tínhamos BMW nem apartamento em Miami, e refeições harmonizadas com vinho, nem pensar. Todas as noites eu ficava puto quando perguntava “Mamãe, o que vamos jantar?” e ela repetia “Temos papa”. Aquilo me impregnou de modo tão sinistro que somente com 10 anos de análise, além de alguns cargos públicos, é que passei a me sentir um psicopata simpático, sociável. Se não pude dar aos meus filhos caráter, nunca faltaram Cashemire Bouquet e espartilhos, para os meninos, nem Winchester e Red Bull com ácido lisérgico, para as meninas. Era minha cara que corria o risco quando eu explodia caixas eletrônicos. Como pai exemplar, depois de jogar no mato as notas chamuscadas, corria para o Paraguai em busca do pão de cada dia que o diabo amassou. O resto do filme é o mesmo de tudo que se conversa em qualquer sala de espera desses dentistas que clareiam os dentes e as almas.

Hoje, vivo folgado – mas nunca pensei em perineoplastia -, e gosto de passar nos shoppings pra me enfeitiçar com a luta de classes. Vez por vez ainda me sobra uma suburbana que, por um pequeno punhado de dólares, mata em mim a saudade daquela cachorra que amei às turras, lágrimas e sexices onomatopaicos. Ticiano me disse a viu nos braços de Cassius Clay, Muhamed Ali me disse que a viu nos braços de Ticiano. Em quem acreditar? Prefiro esquecer o futuro, aproveitar o passado e embrulhar o presente. Um ser humano só se mede feliz (ou desgraçado) quando consegue ser anônimo até pro espelho. Ligo a tv e escuto um gênio gritando que Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança. Mudo de canal e, pelas notícias, começo a pensar que tipo de gente foi Deus.

Antes de seguir pra Kabul, dei uma parada no Jalapão, rever Florentino, lembrar de alguns selinhos ingênuos que trocamos no Marista anos atrás, como todos os ânus costumam ser. Nada agora sentimos que arrepiasse a pele da nossa história e nos limitamos a Dimple e falar mal da vida alheia (duvido existir tira-gosto melhor). Ele me disse que querem ressacanear a velha ponte de Igapó. Perfeito, Madruga, a ponte passando a servir pra pedofilia, fobia, atria, crakia, e inda tem aquele buracão sobre os dejetos-potengi onde podem ser jogados os milionários excêntricos que insistem em dormir pelos recantos assépticos do Walfredo. Claro, tem também os detentos. Invejo a vocação turística, humanitária e filosófica de Natal tão gentil que tripartiste. Anuncio a você, com gáudio magno, que vou dormir. Havemos sono.
Beijos de fratellanza,
Alex”

Exposição de Leopoldo

Na arrumação e desarrumação dos livros descidos das prateleiras carcomidas encontro entre as páginas de um exemplar de Peregrino Júnior, Doença e Constituição de Machado de Assis, 2ª. edição de 1976 da José Olympio ( a primeira é de 1938, Rio de Janeiro), devidamente autografado pelo autor, um convite para uma exposição de Lepoldo Nelson. Está escrito assim:

“O presidente da Fundação José Augusto, Bacharel Valério Mesquita e o Vice-Consul da Espanha em Natal, Nemésio Morquecho Marina, sentem-se honrados em convidar V. Exa. e Exma. família para a abertura da Exposição do Pintor Leopoldo Nelson – Óleos – a realizar-se na Galeria de Arte da Biblioteca Pública ‘Câmara Cascudo’, às 20,30 horas do dia 14 de novembro de 1980.”
Aproveito a virada da página para ler um pouco do que Peregrino Júnior escreve sobre Machado de Assis, no capítulo VII, “Tendência Explicativa”:

“Um dos traços mais curiosos de Machado de Assis é a sua tendência explicativa, que é característica do epileptoide (Bleuler). Machado fazia questão de explicar tudo, de esclarecer até os mínimos detalhes dos fatos e das coisas. Tornava-se, não raro, prolixo e enfadonho, de tanto repetir e explicar um caso, um episódio, uma ideia. Vejamos, por exemplo, “curto esboço genealógico dos Cubas”:

E lá se vai Machado dando suas “explicações” em Memórias Póstumas de Brás Cubas”, trecho recolhido por Peregrino Júnior.
Para o pessoal mais jovem, um lembrete: Peregrino Júnior é natalense (12.03.1898 – 25.10.1983), médico, jornalista e escritor. Foi o segundo potiguar a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras (o primeiro foi o historiador Rodolfo Garcia), chegando a presidi-la). Irmão do jurista Miguel Seabra Fagundes e do escritor Umberto Peregrino.

Opinião pública

Abro outro livro: “Lições de um ignorante”, de Millôr Fernandes, editado pela José Álvaro em 1963. Delícia de leitura. Vou no capítulo “A máquina da Justiça e suas peças principais” e destaco a definição que Millôr, sempre genial, de “Opinião Pública”:

“A opinião pública é uma opinião particular que saiu à rua. Ela se deixa influenciar por todas as forças publicitárias da vida moderna e ao mesmo tempo influencia essas forças. Quando todo mundo está certo de que a opinião pública condena o réu ela o absolve. E vice-versa.”



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