Yuno Silva - repórter
Conectado com o mundo a partir de São Paulo, o artista visual e performer Marcelo Gandhi é daquelas pessoas que não rezam em cartilhas. Antes mesmo de se arriscar no 'sul maravilha', onde foi buscar maior valorização e alguma compreensão para seus trabalhos contemporâneos, o potiguar já ultrapassava as fronteiras de conceitos provincianos e seus trabalhos são protagonistas das mais diversas reações - tanto positivas quanto negativas.
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PROVOCAÇÃO: A vídeo-performance O Educador foi apresentada na bienal Deformes Corpos Colonizado, no Chile.
Nascido em Natal há 36 anos, formado em Arte Educação pela UFRN e envolvido com música, audiovisual, artes plásticas e performances até o pescoço, Gandhi faz questão de passar as férias na cidade para visitar a família e 'pegar uma praia'. Este ano, sua estadia no RN coincidiu com a realização da 3ª Semana de Artes Visuais do Departamento de Artes da Universidade Federal, da qual participou como palestrante e oficineiro.
Conhecido por ter opiniões contundentes, por vezes polêmicas, sobre os vários níveis do fazer e do consumir arte, Marcelo Gandhi está há quatro anos na capital paulista e lá busca reconhecimento para estabelecer-se como um legítimo nordestino que cria arte contemporânea. Dentro desse contexto a música está latente pois ele está canalizando todas as energias para as artes visuais e isso demanda dinheiro e tempo.
Ganhador de prêmios e menções honrosas em Salões de Artes Visuais realizados em Natal, Gandhi foi revelado na edição 2006 do programa Rumos Itaú Cultural de Artes Visuais - quando expôs e ganhou bolsa para estudar por dois meses na paulicéia desvairada - e atualmente faz parte do catálogo Viewing Program, que reúne artistas do mundo todo. Iniciativa do Drawing Center, um centro de desenho contemporâneo de excelência em Nova Iorque, estar listado no catálogo já é meio caminho andado para participar das exposições organizadas periodicamente pela instituição norte-americana. "Eles sempre abrem editais, e estou nessa aguardando meu momento", informou o artista, que tira seu sustento exclusivamente da arte: ele vende desenhos feito em nanquim em duas galerias paulistanas (Arterix e Design Soma) e circula pelo Brasil e América Latina desde 2009 com sua vídeo-performance "O Educador".
A reportagem do VIVER conversou com Marcelo Gandhi para saber o que pensa o artista que vem se destacando dentro do cenário contemporâneo nacional. Duas coisas são certas: além de saber muito bem o que quer, sabe muito melhor o que não quer. O artista não brinca em serviço e, de seu ponto de observação privilegiado, lança comentários que traçam um panorama atualizado do que falta para Natal deslanchar em termos de arte.
Ele considera "O Educador" uma síntese desses questionamentos emergenciais e pulsantes. "Me inspirei na frustração como arte educador em escola pública, que é perseguido e recebe ameaça dentro de sala de aula. Essa experiência com educação foi o encerramento do meu ciclo aqui em Natal e 'O Educador' nada mais é que uma tiração de onda escancarada. Questiona os modelos, os padrões... o que afinal é educação? A partir daí criei esse alter ego e situações para lidar com ele", explica. "Hoje a sala de aula é meu desenho, a dialética é minha performance. Preciso me colocar enquanto artista, pensador, enquanto propositor da realidade atual que estou vivendo e da qual faço parte".
O artista já levou a vídeo-performance "O Educador" para Argentina, Chile, Brasília, São Paulo, Natal (enviou a vídeo-performance para o Circuito Body Arte), entre outros - quando não pode ir pessoalmente, manda o vídeo. "Essa questão do tempo e do espaço mudou com a internet, então não tem mais essa história de que isso ou aquilo é moderno ou vanguarda. A visão do mundo contemporâneo é o agora, é o agora que tem força", garante.
Para Marcelo Gandhi, a arte precisa deixar de ser encarada como entretenimento para ser vista como um negócio. "Qualquer cidade avança na medida que percebem que economia está atrelada à educação, que por sua vez está atrelada à formação... é uma reação em cadeia. E nesse sentido São Paulo é uma máquina, funciona, a arte é vista lá com seriedade e move muita grana".
De acordo com o artista, isso tem a ver com educação. "Como valorizar algo sem recursos nem vocabulário? Como um povo vai abstrair se ele não tem formação para se relacionar com o mundo a sua volta? É aí que entra a arte contemporânea. Ela é dialógica, contaminada, envolve pluralidade e diversidade. E não se trata de entender, o desafio é se manter imerso nessa contemporaneidade".
Marcelo faz um paralelo entre as realidades de São Paulo com Natal e constata que o que falta é tão somente educação: "Vou continuar martelando nesse ponto. Nossa educação aqui é capenga, muito ruim mesmo, horrível, é utilizada como massa de manobra política para manter as pessoas no cabresto". E nem a UFRN escapa de suas críticas: "o Departamento de Artes, por exemplo, tem que assumir um bacharelado em Artes Visuais, é o pilar mais forte. A licenciatura tem que ser segunda opção. Os alunos ainda reclamam que continuam ouvindo o mantra de que não são artistas e sim professores. Que porra é um arte educador? O que é um professor de arte? Esse conflito existe desde que estava por lá em 1999 e até agora não sei o que é!"
Gandhi diz que o Nordeste desconhece seu potencial, e que "o elefante não faz ideia do peso da pata. O NE ainda é um oásis, um ponto de fuga. Veja o caso Rafinha Bastos: ele está super queimado lá no Sul e quando vem pra cá fazer show fica na crista da onda. Ou seja, aqui ainda é o cano de escape para a sujeira do Sul. Se você se queimou em São Paulo, no Sul e Sudeste, vem pra cá. É meio que local pra passagem da bandidagem, da galera que está em decadência. Claro que tem o outro lado, de pessoas que se cansaram da correria e querem sair de lá em busca de mais tranquilidade".