As investigações sobre a suspeita de abuso sexual contra crianças na Creche Lar Feliz, em Cidade Satélite, correm em segredo de Justiça. A determinação, segundo o juiz da Vara da Infância e da Adolescência Sérgio Maia, obedece as prerrogativas do Estatuto da Criança e do Adolescente, no sentido de preservar as vítimas - quatro menores, com idades entre oito e 12 anos. O caso está na fase de apuração do inquérito policial, sob responsabilidade da delegada Adriana Shirley, titular da Delegacia da Criança e do Adolescente.
Aldair Dantas
Lindomar Campelo de Carvalho e Antônio Nascimento se dizem inocentes das acusações
"O sigilo se dá pela natureza e gravidade da denúncia (abuso sexual) envolvendo crianças", justificou Sérgio Maia. A coletiva de imprensa concedida no último dia 10, após a prisão dos acusados, acrescentou o juiz, se restringiu a explicar a articulação de promotores de justiça, juízes e polícia civil durante a operação.
As diligências serão realizadas no prazo de 30 dias e deverá ser concluída até o dia 7 de agosto. A partir daí o Ministério Público terá subsídios para oferecer ou não a denúncia a Justiça. Até lá, os dois homens acusados de abusar sexualmente de crianças abrigadas, Antônio Nascimento, de 55 anos, e Lindomar Campelo de Carvalho, de 34 anos, permanecerão detidos. Os homens são o ex-marido e o genro da diretora da instituição, Terezinha Getúlio do Nascimento, conhecida como "Irmã Terezinha".
Em reportagem publicada pela TN, no dia 14, a delegada revelou que iria ouvir pessoas ligadas aos acusados, além de cinco das nove crianças mantidas em tempo integral. As possíveis vítimas seriam submetidas a exames de corpo de delito. O MP acionou os demais órgãos após denúncia anônima de alguém que pretendia adotar uma das vítimas, uma criança de 10 anos. Outras denúncias, via "Disque 100" levantaram a hipótese da dupla ter praticado crimes sexuais com outras três crianças, de oito a 12 anos de idade, que permaneciam na creche em tempo integral
A creche Lar Feliz é mantida por uma OnG, e atende a 50 menores entre seis e 12 anos. Deste total, nove são acolhidos em tempo integral. A creche foi fechada temporariamente pelo MP e as crianças encaminhadas para outras unidades de acolhimento.
Acusados estão detidos no Centro de Detenção ProvisóriaVisivelmente abalados, os dois homens que estão detidos há 15 dias no Centro de Detenção Provisória (CDP), no bairro da Ribeira concederam entrevista, permitiram ser fotografados e desabafaram. Aos 34 anos, o vigilante Lindomar Campelo de Carvalho e aos 55, o aposentado Antônio Nascimento, respectivamente, genro e sogro estão detidos sob a suspeita de terem abusado sexualmente de crianças da creche Lar Feliz, em Cidade Satélite.
A prisão temporária de 30 dias pode ser prorrogada, porém ambos acreditam que daqui a 15 dias estarão em liberdade e junto dos familiares. Lindomar é pai de
duas meninas da união com a filha de Antônio. Uma criança tem cinco anos e a outra tem dois.
Apesar de estar pela primeira vez atrás das grades, Lindomar tem fala mansa, mas não esconde a tristeza de estar passando por um constrangimento - como ele mesmo define a situação.
O preso contou que foi intimado para comparecer à Delegacia de Atendimento ao Menor (DCA), às 16h30 do mesmo dia que foi detido. Antônio também foi intimado para comparecer à unidade policial.
De acordo com a versão de Lindomar, horas antes, às 5h30, policiais civis estiveram na creche Lar Feliz, onde ele mora com a família (Lindomar residia em uma casa construída em cima da creche). "Eu fui conduzido para a Delegacia e o meu sogro que não estava em casa foi para a DP minutos depois".
Lá, segundo relato de Lindomar, após genro e sogro terem prestado depoimento foram informados que estavam presos por determinação judicial. "Não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo". O vigilante conta que não exercia nenhuma função dentro da creche e que há doze anos acompanhava de perto todo o trabalho da sogra e da companheira, que segundo ele, se dedicava totalmente ao trabalho filantrópico. "A creche sobrevivia com doações".
Lindomar explicou que uma semana antes de ser preso, o Conselho Tutelar esteve na instituição e retirou as 40 crianças que lá estavam. Sobre o porquê da retirada dos menores, o preso disse apenas que, provavelmente, a atitude foi tomada diante das denúncias feitas contra ele e o sogro. Lindomar enfatizou que foi informado pelos policiais que iria ficar preso por ser suspeito de abusar sexualmente de crianças. Questionado se seriam meninas ou meninos, o vigilante afirmou: "Acho que estão me acusando de violentar meninos e meninas".
O vigilante confessou ter transtorno bipolar - variação extrema do humor entre uma fase maníaca ou hipomaníaca, hiperatividade e grande imaginação, e uma fase de depressão, inibição, lentidão para conceber e realizar ideias, e ansiedade ou tristeza. "Por vezes, depois que fui preso, tenho me sentido mal".
Lindomar revelou que a instituição sofreu represálias outras vezes. "Das outras vezes foi a inveja que nos prejudicou. Foram feitas denúncias de que o trabalho não era sincero e que a administração não era coerente". Antônio, mais reservado, afirmou que espera ganhar a liberdade rapidamente. "Eu não morava lá, havia chegado há uma semana. Sou inocente".
MemóriaEntenda o casoLindomar Campelo de Carvalho e Antônio Nascimento foram detidos após uma investigação realizada em conjunto com representantes do Ministério Público, juízes e a polícia civil. O MP recebeu uma denúncia de que uma pessoa interessada em adotar uma das crianças assistidas pela creche teria sofrido a violência sexual. A partir daí foi iniciada a investigação. Além de uma criança de 10 anos, outras três confirmaram ter sofrido abusos sexuais. No dia da prisão, o juiz da 2ª Vara de Infância e da Juventude, Sérgio Maia informou que os menores foram ouvidos por uma psicóloga para não causar danos as crianças. Através de um ponto eletrônico, a profissional foi orientada a fazer as perguntas para as supostas vítimas.Durante o depoimento, foi descoberto que as crianças haviam criado mecanismos para se defenderem dos abusos. Eles andavam em grupos para evitar a aproximação dos acusados.