O olhar mais atento de quem frequenta salas de cinema em Natal certamente já deve ter topado com algum tipo de divulgação do filme "2 Coelhos". Há dois meses, cartazes, displays e trailers antecipam a velocidade frenética, o humor negro e o alto nível técnico da nova produção brasileira que chega às telas de cinema nesta sexta-feira com a intenção de agradar - principalmente - um público vidrado em filmes de ação, efeitos especiais e boas doses de violência. De quebra, o espectador ainda é instigado à montar um quebra-cabeças audiovisual que remete a reflexões sobre sociedade, política, corrupção e impunidade.
DivulgaçãoFernando Alves Pinto, Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Thaíde e Robson Nunes estrelam filme de ação
O longa-metragem estreia com 300 cópias, número superior ao recente "O Palhaço", de Selton Melo, que se lançou no mercado com 270 cópias. Rodado em São Paulo, "2 Coelhos" foi todo filmado com tecnologia digital e consumiu cerca de R$ 4 milhões. Sem um patrocinador de peso, a produção independente teve perto de 80% do custo bancado pela produtora (Black Maria) do diretor estreante Afonso Poyart, 33. Para apaziguar as expectativas geradas, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE conversou com exclusividade com o diretor e com o ator Caco Ciocler, que está no elenco ao lado de nomes conhecidos do grande público como Alessandra Negrini, Fernando Alves Pinto e Thaíde.
DivulgaçãoAfonso Poyart, roteirista e diretor de 2 Coelhos
A grande novidade de "2 Coelhos" não é quem está por trás das câmeras e sim na embalagem da trama (não linear, diga-se de passagem): a história se desenvolve amparada por uma estética pop, que mistura de forma literal história em quadrinhos, vídeo game e cenas em super-câmera lenta - captadas por equipamentos (locados) que fazem até mil quadros por segundo, a mesma técnica vista na trilogia Matrix. Durante a produção foram utilizadas 20 câmeras, sendo duas para captação da super câmara lenta: "Essa tecnologia começou a ficar mais acessível de uns quatro anos pra cá e na publicidade já é bastante utilizada. Ela faz até mil quadros por segundo, pega detalhes de água, chocolate caindo e tal, enfim, pensei que seria interessante incluir essas elipses temporais, essas rampas de tempo que praticamente 'congela' a imagem em movimento", justifica.
Publicitário bem sucedido, editor de imagens e animador gráfico, Poyart tem seu nome vinculado a grandes campanhas publicitárias e confessa que cinema sempre foi seu objetivo desde o início da carreira aos 17 anos: "Trabalhar com cinema é um desejo antigo, mas acabei me 'perdendo' nos labirintos da publicidade. Aprendi muito, continuo atuando no ramo, mas estava passando da minha hora de começar a fazer cinema. Cheguei a pensar em comprar alguma história, mas concluí que não iria encontrar nada que me identificasse", disse o diretor, que escreveu o roteiro de "2 Coelhos" em oito meses e também assina como coeditor.
Poyart lembra que desde a gestação da ideia já havia a intenção de misturar linguagens. "Desde o início quis contar essa história com uma linguagem moderna, diferente, e existe uma conexão com dessa estética com a ótica do personagem principal (vivido pelo ator Fernando Alves Pinto), que é viciado em vídeo game, um nerd, um geek... então há um propósito. Os planos vão ficando mais realistas na medida que o protagonista se dá conta da situação."
ROTEIRO NÃO LINEAR
O enredo de "2 Coelhos" é revelado aos poucos, através de imagens em flash back e cenas que não obedecem uma linha temporal linear. Em cena, personagens ambivalentes, câmeras que acompanham os acontecimentos de diversos pontos de vista e o 'plano' de Edgar (Alves Pinto) que quer roubar dinheiro de um político corrupto. "Isso é o que o espectador imagina, na verdade as intenções são outras", antecipa Afonso, que prefere deixar a cargo do público descobrir. "Quis fazer um filme urbano, contemporâneo, que mostrasse a violência e o crime institucionalizado em todas as suas instâncias", informou o diretor, que coloca o protagonista como o autor e executor de um plano de "justiça pelas próprias mãos" onde corruptos e criminosos entram em rota de colisão - os tais dois coelhos.
DivulgaçãoFernando Alves Pinto e Alessandra Negrini formam o núcleo da trama
Ainda há espaço para relações infiéis, um casamento desfeito por uma morte abrupta e um romance que vai sendo descortinado na medida que a 'chapa esquenta'. Detalhe importante apontado pelo crítico Luiz Carlos Merten, que participou da sessão de pré-estreia em SP: 'o roteiro labiríntico faz sentido, e a grande dica é a cena da aula, quando Caco Ciocler fala para seus alunos sobre a morte. Preste atenção quem é um dos alunos - é ali que nasce a temporalidade do filme'.
O roteiro foi determinante para o êxito do filme: "Não teríamos conseguido, com a verba que tínhamos disponível, se atores e equipe não topassem o desafio. Foi um projeto de parceria."
O risco da produção quase levou o empresário à falência, mas os frutos já começam a ser colhidos: distribuído no Brasil pela Imagem Filmes, "2 Coelhos" já está sendo sondado por multinacionais interessadas em distribuir o filme no exterior. "Por enquanto não quero nem pensar nisso, agora estamos totalmente concentrados no lançamento por aqui mesmo."
O QUEBRA-CABEÇA DO PERSONAGEM / ENTREVISTA COM CACO CIOCLER - ATOR
DivulgaçãoCaco Ciocler, ator de 2 Coelhos: A única coisa estranha foi dar tiro, sendo filmado em super câmera lenta e ver em detalhes as caretas que eu fazia
Em cena, na pele de um professor cercado por mistérios, que se envolve em uma trama de crime e corrupção cheia de reviravoltas, o ator Caco Ciocler conversou com a TRIBUNA DO NORTE sobre seu personagem no filme
"2 Coelhos", que estreia hoje em 300 salas de todo o país. Dirigido pelo estreante Afonso Poyart, o longa-metragem Escancara as portas do cinema tupiniquim para o gênero Suspense de Ação, classificação pouco explorada por realizadores Brasileiros. O grande destaque da produção são as imagens que misturam referências e linguagens que explodem na tela com uma estética impregnada pelo universo da cultura pop, e Ciocler comenta com exclusividade a experiência de ter participado do projeto: Caco, "2 Coelhos" é uma produção independente, ousada, que provavelmente não teria sido realizada sem o envolvimento e a parceria da equipe e do elenco. Como foi seu 'embarque' no filme? Quando recebeu o roteiro percebeu que ali tinha uma boa história?
Realmente, na primeira leitura do roteiro, já ficou claro que o espectador teria que sair da passividade... e isso, cada vez mais, me interessa em qualquer obra que se pretende artística. Tinha alguma coisa no meu personagem que encantava mas que, naquela altura, eu ainda não sabia identificar muito bem o que era. Quando encontrei o Afonso (diretor do filme) pela primeira vez, fiquei bastante comovido com sua paixão quase ingênua.
Além de marcar a estreia do diretor Afonso Poyart no cinema, o longa-metragem também Inaugura uma estética calcada em tecnologia e na mistura de linguagens pop. Como enxerga isso?
Não acho que o Afonso tenha feito esse filme com o objetivo de inaugurar uma estética pioneira, tudo isso - tecnologia, videogame, linguagem pop - faz parte do universo de referências dele desde criança. O que ele fez foi contar essa história usando referências que sempre fizeram parte da sua bagagem estética. O resultado te surpreendeu?
O resultado surpreendeu não só a mim mas à maioria das pessoas que viram o filme! Acho que ninguém imaginou que um cineasta estreante apresentasse tamanho domínio na e na condução de um filme tão difícil. A parte técnica também impressiona e surpreende, não pensava que tudo isso pudesse ser feito aqui no Brasil e com tão pouco dinheiro. Na prática, o que teve de diferente em termos técnicos? O processo de filmagem foi alterado devido o uso de novas tecnologias?
Para mim não mudou muita coisa porque só tenho no filme uma cena de ação. Então não tive que contracenar com nenhum fundo verde e nem fingir que estava explodindo... nada disso. A única coisa estranha foi dar tiro sendo filmado em super câmera-lenta e ver em detalhes as caretas que eu fazia de medo do estouro, foi um trabalho "limpar" esse medo da cara.
DivulgaçãoElenco e equipe de produção no set de filmagem de 2 Coelhos
Como avalia seu personagem dentro da trama? Você ajudou a construir a personalidade ou a base do perfil já estava pronta no roteiro?
Acho que a grande novidade para o Afonso, acostumado a dirigir comerciais publicitários, não era a equipe e nem o equipamento, nem os efeitos, a novidade para ele eramos nós, os atores. Então ele pediu muito nossa colaboração, inclusive para transformar os diálogos de maneira a torná-los menos literais. Essa liberdade foi muito prazerosa e ficou impressa nas boas interpretações dos atores. Lembro de ter me dado conta, durante os ensaios da minha primeira cena, que meu personagem teria que ser construído todo no contra-fluxo. É um papel periférico, de poucas falas e poucas cenas, um personagem misterioso que o público não deve, em momento algum, conseguir compreende-lo na totalidade. Foi bem instigante. Violência, romance, corrupção e
política são temas que dominam o enredo do filme. Acredita que há um paralelo estreito entre "2 Coelhos" e a vida real? O público também pode encarar o longa-metragem como uma espécie de crítica social?
Acho que o filme não tem esse objetivo. Serviço
Estreia do filme "2 Coelhos" (Black Maria/Imagem Filmes), de Afonso Poyart. Com Fernando Alves Pinto, Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Thaíde, Marat Descartes, Thogun e Aldine Müller no elenco. Em Natal o longa está em cartaz no Cinemark 1 (sessões 13h, 15h30, 18h, 20h40 e 23h10* - *apenas sábado); e no Moviecom 4 (sessões 15h10, 17h20, 19h30 e 21h40). Classificação: 16 anos. www.2coelhosofilme.com.br