Emanuel Amaral
As lojas de seis reais têm conquistado os clientes que antes frequentavam as feiras dos bairros
Sara Vasconcelos - Repórter
O que você faz com R$ 6,00? Come um sanduíche, compra uma revista? Pois saiba que os poucos trocados fazem o guarda-roupa de boa parcela da população. Graças a era do "tudo por 6 reais". Lojinhas instaladas em quase todos os bairros, sobretudo em áreas periféricas, oferecem peças bem acabadas e em grande diversidade por um preço que sequer justifica o custo. Herdeiras do estilo "R$ 1,99", que tomou conta do comércio no final da década de 1990, o comércio de roupas reajustou o preço, ganhou espaço e se mantém como alternativa favorita de quem segue a moda, sem dispor de muito dinheiro.
Em geral, os usuários pertencem às classes C, D e E, são moradores do entorno das lojas, ex-adeptos das feiras livres e de lojas de departamento, que escolhem o canal de compra levando em consideração dois fatores: proximidade do ponto de venda e preço. Mas engana-se quem pensa que a clientela é formada somente por pessoas de baixa renda. Sacoleiras, lojistas e o público da classe B também freqüentam os espaços.
Nestes "micromagazines" do preço baixo, é possível encontrar da lingerie a roupas masculinas e femininas, assessórios, cosméticos, brinquedos, moda infantil, bijouteria e artigos de cama, mesa e banho por meia dúzia de reais. Alguns estabelecimentos se mantêm ao longo de 10, 15 anos. Os produtos são adquiridos em tradicionais feiras populares como as de Caruaru (PE), Fortaleza (CE), Turitama (PE) por preços similares aos passados para o consumidor. A renovação do estoque semanalmente é também outro atrativo, que garante a variedade e o fluxo constante de consumidores ávidos por novidades.
A balconista Milane Pereira da Silva, 23, é uma das que 'batem o ponto" toda quarta-feira, dia em que chegam peças novas, na loja Show de Bola Variedades, localizada nas Rocas, zona leste da cidade. Por semana, são gastos em média R$ 12 com vestuário. Milane conta que na sua casa todos adquirem estes produtos, atraídos pelo preço. "Depois que passei a comprar aqui, me livrei do parcelamento no cartão e sempre estou com algo novo. E ninguém acredita que paguei só isso por elas", diz se referindo à qualidade dos produtos.
A dona de casa Francisca Alexandre, 65, que escolhia vestidinhos para a neta de cinco anos, diz fazer publicidade gratuita. "As pessoas se surpreendem e perguntam onde tem. Gosto de dizer que é barato", afirma.
No outro extremo da cidade, na zona oeste, a manicure Selizeuda Medeiros é outra que só se veste neste segmento. Duas vezes na semana, às quartas e sextas-feiras, a moradora da Cidade da Esperança vai conhecer as novidades nas araras e cabides da loja Trilegal Variedades, próximo onde mora. Com produtos para ela, dois filhos, um neto, além da casa, chega a gastar R$ 50, por vez. "Depende do dia, do dinheiro e da mercadoria", afirma. Há cerca de cinco anos, ela deixou de sair de casa para bater perna no Centro e no Alecrim. "Só vou em shopping quando preciso ir a uma festa ou casamento, algo mais arrumado. Para o dia-a-dia é tudo aqui. Na Esperança, a cada esquina tem uma lojinha dessas", acrescenta.
Para a estudante Raquel Doricelle Pereira Inácio, 26, além do preço acessível, as lojinhas permitem diferenciar o modelito. "Se você compra nessas lojas de departamento, como Riachuelo, C&A e Renner da vida, você corre o risco de esbarrar com várias pessoas usando a mesma peça na próxima esquina. Aqui não, eu gasto bem menos e tem um quê de exclusivo", garante a vaidosa moradora de Nova Descoberta, que levou o namorado para escolher bermudas em uma das lojinhas do bairro, a 40 Graus.
Cliente assídua há seis anos da Bella Chic, no Alecrim, a pedagoga Gleiane de Lima observa que é comum encontrar os mesmos produtos e marcas sendo comercializados no comércio "normal" pelo triplo ou mais. "Esta malhinha de ginástica aqui é R$ 6, ali mais na frente você encontra igual por R$ 20. Uma blusa para trabalhar sai por até R$ 50 em outros locais. E você vai comparar a etiqueta é a mesma", disse.
O aposentado Geraldo Antonio do Nascimento, 64, além de usar as peças, achou na facilidade do preço uma forma de complementar a renda. Há mais de um ano, é revendedor. "Tem uma grande aceitação e pouca gente difere do comprado nessas lojas e o adquiridos em outros locais", analisa.
Produtos não esquentam nas prateleirasA ideia que povoa o comportamento do comércio é rebatida com a proliferação das lojas de R$ 6,00. Ao contrário dos demais comerciantes, que reajustam o custo final da mercadoria em 30%, 50% ou até mais de 100%, o segmento vem se consolidando com lucros que variam de R$ 0,80 a R$ 1,50 por peça. Para cobrir despesas com estoque, impostos e funcionários, donos destas lojas criam novo modelo para fugir do vermelho: o pouco muitas vezes.
A rotatividade da mercadoria é sem dúvida, segundo a gerente e filha da proprietária da Loja Show de Bola, nas Rocas, Elaine Rochelle Lopes Gomes, o segredo do crescimento deste setor. Atraídos pelo preço, o produto não "esquenta" nas prateleiras. "O público é bem definido e fiel, são moradores do bairro, pessoas mais simples, que encontram aqui a oportunidade se vestir, de presentear, de arrumar a casa. Ou seja, hoje em dia só anda nu quem quiser, porque todo mundo pode se vestir", afirma.
A criatividade é outra estratégia. Para incrementar as vendas e poder manter o preço baixo, as lojas apostam na diversificação de produtos e preços. Em boa parte delas, além dos produtos típicos, há ainda mercadoria com custo mais elevado, chegando até R$ 25. "Tem que dá uma misturada com peças melhores e mais caras, para garantir que não tenha prejuízo. Por que a gente está comprando mais caro também. Mas não perdemos a característica, do carro-chefe de vendas", disse Marleide Moraes, gerente comercial da Trilegal, em Cidade da Esperança. A loja criou o dia da novidade, sempre as quartas-feiras, onde o público alvo são sacoleiras e lojistas. "Fica tudo lotado e sai como água, não temos problema com ponta de estoque", afirma.
O atendimento diferenciado tem conquistado o público das feiras, com lojas amplas, arejadas e com boa localização. "Diferente do que acontece nas feiras, o cliente entra na loja e tem maior comodidade para escolher. Isso garante a venda e a fidelidade. Vale a pena vender mais por menos", diz a dona da 40 Graus, de Nova Descoberta, Adriene Fernandes.
Feirantes veem concorrência deslealAo contrário do verificado nas feiras livres de outras cidades nordestinas, como em Caruaru (PE), Juazeiro do Norte (CE), Simões Filho (BA), onde o comércio de roupas teve um incremento de 30% nos últimos cinco anos, os produtos vendidos nas ruas da capital potiguar perdem espaço e o prestígio de outras décadas.
Sem chances de competir com as lojas de R$ 6,00, os feirantes do setor de roupas e calçados relatam que a concorrência "desleal" é reforçada pelas facilidades de vendas parceladas no cartão de crédito e do comércio de peças usadas em bazar por valor irrisório, dentro das feiras. A mercadoria vinda de Recife, Caruaru, Fortaleza e Santa Cruz acresce ao preço final repassado ao consumidor, as despesas da viagem realizada regularmente a cada um ou dois meses para renovação dos estoques.
RocasA movimentação começa cedo. Antes mesmo dos primeiros raios de sol, feirantes de todos os lugares da cidade descarregam carros e transportam as mercadorias numa pressa voraz para quem há pouco acordou. Às 5 horas, quando a feira de fato inicia, peças íntimas de todas as cores e tamanhos, calças jeans, vestidos estampados, bermudas e sapatos estão dispostos ironicamente ordenados, em meio ao amontoado de confecções sob as tendas de lona na cor azul. Pronto, o vai-e-vem de clientes que param, olham, provam e nem sempre levam, seguirá até às 17h. Na feira das Rocas, zona oeste, uma das mais antigas de Natal, que acontece toda segunda-feira, o setor azul, destinado a miudezas e confecções, conta com cerca de 30 bancas, do total de 370.
Aos 54 anos, dos quais 26 dedicados à labuta nas feiras, dona Maria Antônia da Silva, que de segunda a segunda está em uma feira livre diferente da Grande Natal, conta que a dificuldade em comercializar os produtos é a mesma em quaisquer localidades. As peças de moda masculina e feminina em sua banca variam de R$ 2 a R$ 3. "Não dá para vender mais barato do que a gente vende se não fica no prejuízo. E é disso que a gente vive, paga casa, come e sustenta os filhos. Tem gente que vem comparar e vai comprar lá (lojas de R$ 6)", destaca.
A ex-manicure Maria de Fátima Calixto não se arrepende de ter abandonado os esmaltes e o salão que trabalhava para embrenhar, há 15 anos, no comércio de rua. Ela conta que ao longo do tempo, o espaço dedicado às indumentárias nas feiras das Rocas e da Cidade da Esperança, onde trabalha, é cada vez menor. "Não acaba, por que mesmo pouco sempre vende", observa. E tem mesmo, a dona de casa Conceição Linduíno, 42, é uma das que preferem a mercadoria das bancas. "É costume mesmo. Conheço os vendedores, o que eles trazem e principalmente porque cabem no bolso".
CarrascoA banca de roupas e peças íntimas de Gonçala Batista, 67, que há 29 anos vende na feira do Carrasco, já foi maior. Segundo ela, há menos de 10 anos, a área ocupada tinha o dobro do número de bancas instaladas ao longo da antiga Avenida10, no Alecrim. Vestimentas coloridas dividiam espaço semelhante aos das verduras, carnes e cereais. "Quem não desistiu, tem que se virar para continuar aqui", disse. Comprador antigo, o autônomo Sebastião Barbosa, 58, não abandonou o ambiente caótico na hora de escolher o que vestir. "Gosto de vir a feira e sempre que preciso, compro roupa também, que sai mais barato", disse
Alecrim Vendedores da feira do Alecrim atribuem a queda nas vendas às diversas mudanças para adequação e padronização. Segundo Maria das Chagas Araújo, mais conhecida como dona Célia que trabalha no local há 30 anos, a relocação regular dos pontos fez a clientela se perder. "Antes a gente tinha público cativo, podia até fazer fiado e conhecia as preferências do cliente. Hoje não, cada um se vira como pode", disse.
O funcionário público Ariano Targino, que nunca comprou roupa em loja, lamenta a redução da qualidade dosa produtos. "Não tem diversidade, é tudo igual. A gente gasta mais tempo para achar algo que goste e valha a pena, mesmo o preço sendo acessível", observa.
Prefeitura tem 2 mil feirantes cadastradosApesar dos relatos de diminuição de espaço ser comum em todas as feiras, a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos de Natal (Semsur) não tem dados comparativos. Segundo o diretor do Departamento de Feiras e Mercados da Semsur, Valtécio Pinheiro, existem cerca de dois mil feirantes cadastrados, destes cerca de 5%, ou seja, aproximadamente 100 pessoas são do segmento de roupas e calçados. Este número tem se mantido ao longo dos últimos três anos.
"Antes do recadastramento, nós pensávamos que teríamos cerca de cinco mil feirantes em Natal, devido ao tamanho das feiras. Contudo, o recadastramento nos revelou que um feirante, geralmente, é prestador de serviço em várias feiras. Acreditamos então que o número de vendedores mantém-se o mesmo há pelo menos três anos. Mas como não havia um trabalho de cadastramento constante, como o realizado em 2009, não temos como ter certeza desse dado", disse Pinheiro.