Mais um verão e mais um cruzeiro

Publicação: 13 de Janeiro de 2013 às 00:00

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Nelson Mattos Filho - Velejador-avoante1@gmail.com

Não é fácil conseguir amigos para uma velejada. Essa é uma afirmação que beira a estranheza, mas é a mais pura verdade. Principalmente quando a velejada é um pequeno cruzeiro pela costa.
DivulgaçãoVerão no nordeste é a melhor época de sair navegando por ai em busca da tão sonhada velejada perfeita.Verão no nordeste é a melhor época de sair navegando por ai em busca da tão sonhada velejada perfeita.

Todo mundo quer velejar e cobra dos amigos que tem veleiro um passeio, mas na hora que chega o convite fatal, é tanta da desculpa esfarrapada que até deixa a gente com cara de paisagem por ter feito o convite. Mas não pense que isso acontece apenas com os pretensos tripulantes, pois o caso é muito mais complicado com os donos de barco. Com eles o problema é mais embaixo.

Verão no nordeste é a melhor época de sair navegando por ai em busca da tão sonhada velejada perfeita. Praias coloridas e festeiras. Vento brando e mar de águas tranquilas e mornas. Um alinhamento perfeito para quem gosta de mar e sonha em sair por ai. Mas a cabeça dos homens não funciona com essa lógica toda e a ordem é complicar.

O Brasil é dono de um litoral encantador e extremamente convidativo para a náutica. Sou sabedor da falta de infra-estrutura em clubes e marinas, causada por uma legislação caduca, sem sentido e que castra empreendimentos, mas nem isso é motivo suficiente para se evitar o mar. Nem só de clubes e marinas vive um navegador. Nada melhor do que ancorar em um local a esmo de uma bela enseada e se deliciar com a paisagem que existe em volta. Nada melhor do que a sensação de ver nosso barquinho emoldurado pelos traços geográficos de uma praia deserta. Não tem preço sentir o gosto de liberdade em olhar pela gaiúta e ver que a paisagem mudou apenas pela vontade dos ventos e das correntes.

Em 2011 idealizamos e organizamos um passeio pelos mares do nordeste, saindo de Natal tendo como destino a Bahia, e que denominamos de Cruzeiro Costa Nordeste – CCN. Naquela ocasião sete veleiros, de várias partes do país, fizeram parte da flotilha, que fez paradas em vários destinos maravilhosos, entre eles Barrinha dos Marcos e Praia dos Carneiros no litoral pernambucano. Nesse Janeiro de 2013 mais uma vez botamos a flotilha do CCN para navegar e com promessas de adesão ao longo do percurso. Do Rio Grande do Norte apenas três veleiros inscritos: Musa, Proteus e Avoante.

A programação de 2013 não inclui a Bahia como destino final e sim a alagoana Maragogi e suas piscinas naturais. Idealizamos uma programação mais enxuta, e em menor tempo, para despertar o sonho de velejadores, mas nem assim a turma se animou em trocar as varandas das casas de veraneio por um cockpit de um veleiro. São apenas quinze dias de velejadas, em um período tradicional de férias, mas que trarão boas histórias e lembranças para o resto da vida.

Muitos têm o sonho de velejar e até a ferramenta principal que é o barco, mas as amarras que criam em suas mentes não permitem olhar além do próprio nariz. Culpam a família, o trabalho, o tempo, o chefe, a sogra, o cachorro, o cunhado e até Nossa Senhora das causas impossíveis, para dar razão a sua falta de compromisso com o sonho. Vivem num eterno dilema existencial e acham que a vida, para eles, é um caso perdido.

Sonhos impossíveis todo mundo tem, mas não podemos fazer dessa causa uma barreira intransponível. Muitas vezes o sonho está ali ao alcance de um piscar de olhos, mas não enxergamos ou não queremos enxergar. Conheço velejadores que abandonaram o sonho e o barco ao relento e vivem a se lamentar que não tem tempo de velejar e muito menos de ter o direito de sonhar. Mas todo fim de semana está no clube. Conheço velejadores que tem bons barcos, mas vivem a olhar o barco dos outros apenas para achar defeito no dele mesmo e assim, criar motivo para não ir ao mar. Outros têm apenas o prazer de uma reforma interminável no barco que nunca vai para a água. Bem, mas o Cruzeiro Costa Nordeste está ai navegando em águas tranquilas e ventos de um verão acalorado e colorido, como são todos os verões. Despertando invejáveis sonhos em alguns e realizando o sonho de outros que não querem deixar que a vida passe em brancas nuvens.

O Avoante, inscrito para a largada, ainda está no porto por motivo de um cabo de aço que atravessou na passagem da comandante Lucia, que, como disse o médico, arrancou o chamboque do dedão do pé. Mas tudo já está sob controle e espero que quando você estiver lendo esse Diário já estejamos navegando junto com a flotilha. Você pode até achar que foi também uma boa desculpa, mas não pense mais do que isso, pois buscamos o sonho e fazemos questão de vivê-lo intensamente e sem nunca olhar para trás.



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