Yuno Silva - repórter
A direção da Maternidade Escola Januário Cicco confirmou, durante coletiva realizada na manhã de ontem, a infecção de cinco bebês recém-nascidos por bactérias do tipo “pseudomonas”, organismos comumente encontrados em ambientes críticos de unidades hospitalares. Os casos foram identificados na UTI neonatal, e desde o dia 31 de agosto a maternidade não admite novos pacientes na unidade de terapia intensiva. Dentre os bebês infectados, um morreu e quatro permanecem em tratamento.
Vale ressaltar que a situação está sob controle e que um dos bebês já responde positivamente à medicação aplicada. Dos 18 leitos da maternidade, dez estão ocupados, e, segundo Kleber Morais, diretor da Januário Cicco, não há risco da UTI ser interditada, “até por que temos bebês lá dentro”. Morais explicou que “os esforços estão voltados para melhorar as condições” da unidade com o reforço na higienização e isolamento, dentro da própria UTI, dos bebês acometidos pela bactéria.
Para atender a demanda, a direção da maternidade escola instalou temporariamente cinco leitos de terapia intensiva no Centro de Recuperação Pós-Operatório (CRO).
Kleber Morais atribuiu a situação à superlotação da Januário Cicco, ocasionada por deficiências no atendimento do sistema público de saúde “como um todo”. “A maternidade faz parte da rede de hospitais ‘porta aberta’, ou seja, temos que atender todo mundo que chega; e como há um caos instalado na saúde do RN, os setores de obstetrícia e ginecologia também estão inseridos nesse contexto. É como um efeito cascata”.
Os números da Januário Cicco comprovam a sobrecarga no atendimento: entre janeiro e julho de 2011 foram realizados 2.205 partos (normais e cesarianas); enquanto que, no mesmo período deste ano, o número de nascimentos saltou para 3.353. Além dos 18 leitos na UTI da MEJC, sendo dez de alta e cinco de média complexidade, a Região Metropolitana ainda dispõe de 10 leitos na Maternidade Divino Amor em Parnamirim; seis no Hospital da PM; e 25 leitos no Hospital Santa Catarina, na zona Norte de Natal.
Bate-papo
Kleber Morais, diretor da Maternidade Escola Januário Cicco
Lúcia Calich, médica infectologista e coordenadora da Comissão de Infecção Hospitalar da MEJC
“Estamos trabalhando com capacidade máxima”
Quais as providências iniciais adotadas pela direção da Maternidade?
Kleber Morais - Primeiro evitamos que entrassem novos bebês na UTI, então, consequentemente, tivemos que improvisar um setor para prosseguir com o atendimento no Centro de Recuperação Pós-Operatório, onde hoje se encontram cinco bebês. Mesmo com todos os problemas, continuamos atendendo. A Januário Cicco é tida como referência para a população que busca um atendimento adequado em casos de gravidez de alto risco.
A superlotação é o principal motivo da infecção?
KM - Existe uma deficiência de leito de UTI neonatal no Estado, e estamos sempre trabalhando com capacidade máxima. Há tempos alertamos às secretarias Municipal e Estadual para a necessidade de prestação de um atendimento básico adequado às mulheres, mas nenhuma providência foi tomada. A sobrecarga de trabalho acarreta uma tensão na equipe, desde a técnica de enfermagem até o médico mais especializado, que desemboca em consequências como essa. Os gestores precisam se sensibilizar para essa questão. Estamos angustiados e indignados com a situação da saúde no RN, que está uma verdadeira catástrofe. É um momento dramático e faço um apelo à governadora Rosalba Ciarlini, que é médica pediatra, e aos gestores do Estado e Município, para intensificar os esforços no sentido de oferecer condições ideais para atender as mulheres. Esperamos que todas esferas façam também sua parte e tenham responsabilidade pelos atos. É necessário que as maternidades dirigidas pela Prefeitura de Natal funcionem a contento, e que o Estado cumpra seu papel dando mais atenção à maternidades do interior. Seria muito interessante se tivéssemos leitos, orçamento, estrutura e equipe seríamos responsáveis pela saúde materna e infantil de todo o Estado. Mas não temos. Temos limitações.
A UTI neonatal pode ser interditada?
KM - Não, até por que tem bebês lá dentro. Deixamos de receber novos pacientes desde o dia 31 de agosto, assim que identificamos a possibilidade de existência de um foco de infecção.
As bactérias do tipo “pseudomonas” atacam algum órgão ou sistema específico?
KM - Por serem bactérias sistêmicas, não há um foco para a infecção. Elas agem de forma geral e se instalam de acordo com a fragilidade de cada paciente. O falecimento do bebê, no dia 26 de agosto, por exemplo, poderia ter ocorrido independente das “pseudomonas”, comumente identificadas em ambientes hospitalares críticos como as UTIs onde há procedimentos invasivos. O bebê estava fragilizado por ser prematuro e infelizmente não resistiu.
Há algum projeto de ampliação da Januário Cicco?
KM - Como hospital federal, vinculado à UFRN, temos vários projetos de melhorias, entre eles a ampliação e renovação da UTI neonatal. O processo licitatório deverá ser concluído em dois meses. O número de leitos deverá ampliar para 22, mas ainda será insuficiente para atender toda a demanda.
Existe uma quantidade ideal de leitos neonatal para o sistema funcionar com tranquilidade?
KM - Não há como quantificar, pois há uma deficiência geral na rede de saúde. Se tivéssemos 20, 30 leitos, todos estariam ocupados. O número necessário de leitos precisa ser definido em conjunto, a partir dos números de nascimento.
Doutora, então a presença desse tipo de bactéria é aceitável em UTIs?
Lúcia Calich - Exato. O que gerou nossa preocupação não foi a presença da bactéria, e sim o aumento do números de casos de infecção em um curto espaço de tempo.
Os casos podem ser considerados um surto?
LC – Caracterizar um surto depende de uma série de variáveis que precisam ser consideradas, e é difícil afirmar qualquer coisa neste momento. Para se chegar a esse diagnóstico é necessário fazer uma conta complexa: precisamos fazer um levantamento do histórico dos atendimentos, saber quantos casos são suspeitos e o total de crianças atendidas em determinado período. Os estudos e análises estão em andamento.
A direção da Maternidade Escola Januário Cicco confirmou, durante coletiva realizada na manhã de ontem, a infecção de cinco bebês recém-nascidos por bactérias do tipo “pseudomonas”, organismos comumente encontrados em ambientes críticos de unidades hospitalares. Os casos foram identificados na UTI neonatal, e desde o dia 31 de agosto a maternidade não admite novos pacientes na unidade de terapia intensiva. Dentre os bebês infectados, um morreu e quatro permanecem em tratamento.
Alberto Leandro
Número de partos na maternidade-escola cresceu 52% nos primeiros sete meses deste ano
Número de partos na maternidade-escola cresceu 52% nos primeiros sete meses deste anoVale ressaltar que a situação está sob controle e que um dos bebês já responde positivamente à medicação aplicada. Dos 18 leitos da maternidade, dez estão ocupados, e, segundo Kleber Morais, diretor da Januário Cicco, não há risco da UTI ser interditada, “até por que temos bebês lá dentro”. Morais explicou que “os esforços estão voltados para melhorar as condições” da unidade com o reforço na higienização e isolamento, dentro da própria UTI, dos bebês acometidos pela bactéria.
Para atender a demanda, a direção da maternidade escola instalou temporariamente cinco leitos de terapia intensiva no Centro de Recuperação Pós-Operatório (CRO).
Kleber Morais atribuiu a situação à superlotação da Januário Cicco, ocasionada por deficiências no atendimento do sistema público de saúde “como um todo”. “A maternidade faz parte da rede de hospitais ‘porta aberta’, ou seja, temos que atender todo mundo que chega; e como há um caos instalado na saúde do RN, os setores de obstetrícia e ginecologia também estão inseridos nesse contexto. É como um efeito cascata”.
Os números da Januário Cicco comprovam a sobrecarga no atendimento: entre janeiro e julho de 2011 foram realizados 2.205 partos (normais e cesarianas); enquanto que, no mesmo período deste ano, o número de nascimentos saltou para 3.353. Além dos 18 leitos na UTI da MEJC, sendo dez de alta e cinco de média complexidade, a Região Metropolitana ainda dispõe de 10 leitos na Maternidade Divino Amor em Parnamirim; seis no Hospital da PM; e 25 leitos no Hospital Santa Catarina, na zona Norte de Natal.
Bate-papo
Kleber Morais, diretor da Maternidade Escola Januário Cicco
Lúcia Calich, médica infectologista e coordenadora da Comissão de Infecção Hospitalar da MEJC
“Estamos trabalhando com capacidade máxima”
Quais as providências iniciais adotadas pela direção da Maternidade?
Kleber Morais - Primeiro evitamos que entrassem novos bebês na UTI, então, consequentemente, tivemos que improvisar um setor para prosseguir com o atendimento no Centro de Recuperação Pós-Operatório, onde hoje se encontram cinco bebês. Mesmo com todos os problemas, continuamos atendendo. A Januário Cicco é tida como referência para a população que busca um atendimento adequado em casos de gravidez de alto risco.
A superlotação é o principal motivo da infecção?
KM - Existe uma deficiência de leito de UTI neonatal no Estado, e estamos sempre trabalhando com capacidade máxima. Há tempos alertamos às secretarias Municipal e Estadual para a necessidade de prestação de um atendimento básico adequado às mulheres, mas nenhuma providência foi tomada. A sobrecarga de trabalho acarreta uma tensão na equipe, desde a técnica de enfermagem até o médico mais especializado, que desemboca em consequências como essa. Os gestores precisam se sensibilizar para essa questão. Estamos angustiados e indignados com a situação da saúde no RN, que está uma verdadeira catástrofe. É um momento dramático e faço um apelo à governadora Rosalba Ciarlini, que é médica pediatra, e aos gestores do Estado e Município, para intensificar os esforços no sentido de oferecer condições ideais para atender as mulheres. Esperamos que todas esferas façam também sua parte e tenham responsabilidade pelos atos. É necessário que as maternidades dirigidas pela Prefeitura de Natal funcionem a contento, e que o Estado cumpra seu papel dando mais atenção à maternidades do interior. Seria muito interessante se tivéssemos leitos, orçamento, estrutura e equipe seríamos responsáveis pela saúde materna e infantil de todo o Estado. Mas não temos. Temos limitações.
A UTI neonatal pode ser interditada?
KM - Não, até por que tem bebês lá dentro. Deixamos de receber novos pacientes desde o dia 31 de agosto, assim que identificamos a possibilidade de existência de um foco de infecção.
As bactérias do tipo “pseudomonas” atacam algum órgão ou sistema específico?
KM - Por serem bactérias sistêmicas, não há um foco para a infecção. Elas agem de forma geral e se instalam de acordo com a fragilidade de cada paciente. O falecimento do bebê, no dia 26 de agosto, por exemplo, poderia ter ocorrido independente das “pseudomonas”, comumente identificadas em ambientes hospitalares críticos como as UTIs onde há procedimentos invasivos. O bebê estava fragilizado por ser prematuro e infelizmente não resistiu.
Há algum projeto de ampliação da Januário Cicco?
KM - Como hospital federal, vinculado à UFRN, temos vários projetos de melhorias, entre eles a ampliação e renovação da UTI neonatal. O processo licitatório deverá ser concluído em dois meses. O número de leitos deverá ampliar para 22, mas ainda será insuficiente para atender toda a demanda.
Existe uma quantidade ideal de leitos neonatal para o sistema funcionar com tranquilidade?
KM - Não há como quantificar, pois há uma deficiência geral na rede de saúde. Se tivéssemos 20, 30 leitos, todos estariam ocupados. O número necessário de leitos precisa ser definido em conjunto, a partir dos números de nascimento.
Doutora, então a presença desse tipo de bactéria é aceitável em UTIs?
Lúcia Calich - Exato. O que gerou nossa preocupação não foi a presença da bactéria, e sim o aumento do números de casos de infecção em um curto espaço de tempo.
Os casos podem ser considerados um surto?
LC – Caracterizar um surto depende de uma série de variáveis que precisam ser consideradas, e é difícil afirmar qualquer coisa neste momento. Para se chegar a esse diagnóstico é necessário fazer uma conta complexa: precisamos fazer um levantamento do histórico dos atendimentos, saber quantos casos são suspeitos e o total de crianças atendidas em determinado período. Os estudos e análises estão em andamento.