Medo: crack afasta jovens da escola
Publicação: 19 de Setembro de 2010 às 00:00
Ciro Marques - repórter
Problemas já "comuns" do ensino público em Natal, como a falta (e greve) de professores e de estrutura das escolas, não são os únicos enfrentados pelos estudantes que moram nos conjuntos Vale Dourado, José Sarney e Jardim Progresso, todos localizados no bairro de Nossa Senhora da Apresentação, na zona Norte de Natal. Para vencer nos estudos, muitos jovens humildes precisam, antes, derrotar o receio da insegurança local, que termina por prejudicar a frequência de muitos à sala de aula. Um batalha nunca fácil e que, muitas vezes, termina com a vitória do medo.
Um exemplo de adolescente "vencido" pela violência local é o filho da dona de casa Maria Nazaré, moradora do bairro de Jardim Progresso. O jovem de apenas 16 anos teve que suspender os estudos, pelo menos, deste ano, porque na escola que conseguiu se matricular só haviam vagas à noite, justamente momento em que a insegurança é maior no local. "Ele não tinha como ficar indo e voltando todo dia tarde da noite. É muito perigoso por aqui. Ele teve três bicicletas e um celular roubados em menos de seis meses. Daí, decidiu desistir de ir para a aula", conta Maria Nazaré.
Essa decisão, que deixaria muitas mães preocupadas com o futuro do filho, na verdade, deixou Maria Nazará mais tranquila. "Sei que ele é um bom menino e que só não está estudando agora, porque não pode mesmo. No ano que vem, quando ele tenta se matricular em outro horário e estudar de dia. Prefiro que ele fique em casa vivo, a sair correndo risco de morte", declara ela.
Maria Nazaré, inclusive, não aponta apenas os assaltos como principais riscos para a integridade dos jovens do bairro. Para ela, o pior mesmo é a evolução da criminalidade e da banalização dos homicídios, resultados do crescimento do tráfico de drogas. "Aqui é morte todos os dias e as pessoas continuam usando drogas. Nessas últimas semanas, foram quatro já. Tudo por tráfico de drogas. Nossos filhos não são envolvidos, mas o medo que faz é uma bala perdida ou eles serem confundidos com alguns desses bandidos", explica Nazaré.
Saída é chegar atrasada na UFRN
N ão são somente os alunos do curso noturno que sofrem com a questão da insegurança no bairro de Nossa Senhora da Apresentação. No conjunto José Sarney, uma estudante da UFRN - nome não revelado - encontrou como única saída para fugir dos constantes assaltos, chegar diariamente atrasada à universidade. "Todos os dias logo cedo, é todo mundo com as portas fechadas e só os marginais andando pelas ruas. Minha filha era vítima fácil de assaltos praticados por esses viciados. Por isso, proibi que ela fosse muito cedo para o ponto de ônibus. Prefiro que ela chegue atrasada, mas que saia somente quando estão todos nas ruas", justifica a mãe da estudante, a dona de casa Rizia Alves.
Para fugir dos assaltos, a estudante sai de casa cerca de uma hora mais tarde - antes ela saia às 5h da manhã - e vai para um ponto de ônibus que é mais movimentado e, consequentemente, mais seguro, apesar dos coletivos demorarem quase o dobro de tempo para passar. "Ela chega todos os dias atrasada, mal consegue pagar matérias nos primeiros horários, mas pelo menos 'chega', e é isso o importante", afirma a Rizia Alves.
No Jardim Progresso, a dona de casa Francisca Joelma Pereira vive um problema parecido com os filhos pequenos. Por medo da violência e dos assaltos, ela não permite que as crianças vão para a escola de uma forma diferente que não seja no transporte escolar disponibilizado pela Prefeitura. "Mesmo de manhã, só deixo meus filhos irem para aula se o transporte passar. Não temos como deixá-lo ir andando até a escola, porque é muito distante e o caminho até lá é muito perigoso. Eles teriam que passar por locais onde se concentram muitos marginais e usuários de drogas", comenta a moradora do conjunto Jardim Progresso.
Para Francisca Joelma, inclusive, nos dias em que o transporte escolar não passa, também não há aula para os filhos. "Ainda bem que é raro ele não passar. Não me sinto segura deixando eles irem com colegas ou vizinhos. Nós não podemos confiar em ninguém aqui. O conjunto é cheio de jovens perdidos e muitas adolescentes, ainda novos, que já são envolvidos com o tráfico de drogas", afirma a dona de casa.
É também por receio dos vizinhos e do envolvimento com "más" amizades, que a dona de casa Marluce Avelino da Silva prefere acompanhar o filho de 13 anos até o colégio e impedir que ele saia de casa para algum local que não seja a escola. "Ele fica o tempo todo comigo e, quando não está aqui, está na escola. Sei que um jovem tem que ter amizades, mas assim é muito complicado e temos que está sempre conversando sobre o risco que é o mundo das drogas. Todos os dias aparece um caso novo de jovens envolvidos com o tráfico, não quero que meu filho se torne mais um", afirma a mãe.
À noite, o pior horário para frequentar a escola
Visitada pela equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a escola municipal Dalva de Oliveira, uma das maiores do bairro de Nossa Senhora da Apresentação, localizada no conjunto Vale Dourado, aponta que a violência é sentinda de forma mais forte no horário noturno, quando funciona turmas de educação de jovens e adultos. O colégio, inclusive, foi um dos poucos do bairro onde a a TN pode colher informações, devido à greve dos educadores municipais.
"Já houve vários casos de alunos que estudavam aqui serem presos por homicídio, ou pegos com drogas. Também já tivemos que chamar a Polícia Militar e a Guarda Municipal várias vezes para levar alunos para casa, porque eles estavam sendo ameaçado por colegas devido a brigas de gangues de torcidas organizadas", afirma a coordenadora do matutino da escola, Magnólia Michele da Cruz. Apesar de no horário em que ela trabalha existir mais alunos do ensino fundamental - a grande maioria crianças e pré-adolescentes - a violência está presente, resultado do mundo inseguro em que vivem.
"Nós temos muitos alunos desses conjuntos, que são áreas mais carentes. No perfil psicológico deles, podemos perceber facilmente a influencia do meio violento, em brincadeiras, na forma de falar e na maneira agressiva como muitos agem", afirma o coordenadora. No matutino, os índices de evasão escolar não chegam a ser tão altos quando à noite, mas ainda sim é percebido. "Existe sim. Por isso estamos sempre tentando conversar com os responsáveis dos alunos, pois é ainda pior que eles fiquem sem frequentar a escola", comenta ela.
Além disso, apesar de serem basicamente crianças e pré-adolescentes, ainda há registros de ameaças e agressões por parte dos alunos a educadores. "São raros, algo em torno de três ou quatro por ano, mas existe sim. Sobretudo, xingamentos e ameaças dos alunos aos professores. Quando isso ocorre, os pais são chamados para conversar e, depois disso, o caso é resolvido, porque são poucos os responsáveis que concordam com essas posturas agressivas dos filhos. A maioria, nem sabem que eles agem assim", afirma a coordenadora.
Bandido na rua leva mais pessoas para o lado dele
Além da necessidade de se trabalhar políticas públicas que previnam a entrada dos jovens no mundo das drogas, o promotor criminal Wendell Beethoven acredita que é fundamental que os responsáveis pelo tráfico de drogas sejam levados para a cadeia. "Falta mesmo é prender os criminosos. Ninguém pense que um bandido vai amanhecer um belo dia e decidir virar trabalhador. Ele não vai, nem quer, sair do mundo do crime sozinho, sem o reforço de uma prisão. E enquanto ele estiver na rua, vai continuar comandando o crime e levando mais pessoas para o lado dele", afirma Wendell Beethoven.
Outro dado preocupante apresentado pelo promotor é a quantidade de homicídios que nem mesmo chegam a se transformar em inquéritos. "Entre 25 e 30% das mortes violentas não são nem transformadas em inquérito. É incrível como as pessoas conseguem descobrir que o homicídio foi motivado por tráfico de drogas, mas não se consegue descobrir quem foi o autor do crime", revela.
Isso, seria consequência da falta de organização da Segurança Pública e, neste ponto, não apenas da Polícia Civil. "Temos um Instituto Técnico Científico de Polícia (Itep) muito deficiente, que deixa a investigação baseada em quase que totalmente a prova testemunha, sem a prova física. E não são todas as pessoas que estão dispostas a testemunhar", completa.
Sem provas físicas e com a dificuldade em se conseguir testemunhas, são poucos os inquéritos que "andam" nas delegacias. "O pior é que quanto mais o tempo passa, mas difícil fica a apuração de um crime", garante o promotor.
Preço baixo do crack estimula o consumo
Além da impunidade apontada pelo promotor criminal Wendell Beethoven, outros fatores também influenciam para o aumento do consumo. O preço baixo (que varia entre R$ 3 e R$ 7, a pedra) é outro ponto bastante importante para a difusão da droga, sobretudo, entre as classes mais baixas da população.
O crack surgiu no início da década de 80, resultado da mistura de cocaína, bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada, originando grãos que são fumados em cachimbos. No entanto, foi nesta década que se tornou a droga mais consumida no Brasil - no mundo, ainda é a maconha.
Segundo números da Polícia Federal (PF/RN), só neste ano, mas de 27 pessoas já foram presas em flagrante por tráfico de drogas no Estado. Além disso, mais de 206 quilos de entorpecentes, sendo mais da metade crack, já foram apreendidos.
Homícidios
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na última semana os dados da pesquisa Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS): Brasil 2010, em que a média de homicídios no Estado ficou menor que da região Nordeste do país. Enquanto no RN o índice é de 19,1 para cada cem mil habitantes, no Nordeste a média sobe para 29,6 e no Brasil fica em 25,4.
Segundo o Instituto Técnico e Científico de Polícia (Itep) e a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed), o número de homicídios no Estado já havia apresentado diminuição em comparação ao mesmo período do ano passado. A redução foi de aproximadamente 34% em relação a 2009.
Tráfico está forte em Ponta Negra e no Planalto
No início do mês de julho, o delegado titular da Delegacia de Narcóticos (Denarc), Odilon Teodósio, afirmou durante o lançamento do programa Ronda Escolar, da Polícia Militar, que em Natal, entre traficantes e "varejistas" haviam mais de 5 mil pessoas envolvidas com a comercialização de drogas. Esse número, no entanto, segundo o delegado, diminuiu, resultado de um trabalho mais efetivo de repressão.
"Hoje o número está menor, em boa parte porque a própria Polícia Militar está mais organizada e atuante", afirma o delegado de Polícia Civil, que afirmou no momento não ter uma estimativa precisa para o número de pessoas que ainda negóciam com entorpecentes. Na visão do delegado, além do bairro de Nossa Senhora da Apresentação, citado pelo promotor Wendell Beethoven, Ponta Negra, na zona Sul, e Planalto, na zona Oeste da capital, também são regiões onde o tráfico está bastante forte. "Só em Ponta Negra, estimamos que estejam agindo cerca de 200 pessoas", afirma.
Perguntado sobre a situação de Mãe Luiza, na zona Leste, onde do dia 17 de agosto para cá já foram registrados três homicídios de pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, o delegado afirma: "lá há muitos usuários, mas não um tráfico de drogas bem organizado como nos outros bairros". E o combate a viciados não é necessariamente um trabalho da Polícia. "Se fossemos levar todos os viciados para a delegacia, lotaríamos um ônibus diariamente. Mas não vale a pena prender viciados, mesmo sabendo que possivelmente eles vão cometer crimes para sustentar o vício. A Lesgilação Brasileira é permissiva para viciados", explica Odilon.
Psicólogo diz que usuário perde controle
Outro fator importante para a disseminação do crack, apontado pelo especialisata no tratamento de dependentes químicos, Rui Veiga, da ADere Clínica de Psicologia, é a rápida dependência que essa droga causa. "O crack é a base livre da cocaína. Na refinação da droga, vários produtos altamente nocivos são utilizados, tais como: gasolina, soda cáustica, cimento, amônia, cal, ácido sulfúrico, isso causa um impacto bastante nocivo ao corpo humano e serve para potencializar o efeito da droga", explica o especialista.
O efeito da "pedra" inalada pelo usuário leva de três a 12 segundos, no máximo, para causar efeito no cérebro do usuário. O prazer é muito intenso e dura de dez a quinze minutos, segundo Ruy Veiga. Sob o efeito da droga, o usuário deixa de ter o controle sobre o planejamento das ações e passa a agir impulsivamente" e, justamente por isso, que se percebe tantos crimes motivados pelo uso da droga.
Para Ruy Veiga, antes de qualquer intervenção, é o dependente que deve querer deixar de se drogar. O tratamento psicológico é realizado com sessões semanais com duração de 50 minutos. "Não se trata de uma internação, e sim um acompanhamento no processo de recuperação. O processo de recuperação é longo e as recaídas são bastante comuns".
Rui explica que para o tratamento ter êxito é essencial que o profissional estreite sua ligação com o dependente. O psicólogo deve questioná-lo sobre suas escolhas e atitudes para fazer com que ele repense sobre os caminhos que está levando e tentar formar um novo comportamento.