Memórias de um velho imigrante

Publicação: 2012-06-30 00:00:00 | Comentários: 3
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Yuno Silva - repórter

A memória de Natal enquanto centro urbano ainda é um grande e incompleto quebra-cabeças, onde lacunas históricas são preenchidas aos poucos e a revelação de novos detalhes atiçam a curiosidade quanto à formação da própria identidade da capital potiguar. Dentro desse contexto, um novo capítulo sobre a cidade será conhecido a partir das lembranças do italiano Rocco Rosso (1899-1997). Como uma verdadeira colcha de retalhos, as lembranças de Rosso, que chegou no RN em 1926, foram costuradas pelo genro Carlos Roberto de Miranda Gomes e organizadas no livro “O velho imigrante”, a ser lançado na próxima quinta-feira (5), às 19h, na Academia Norte-Riograndense de Letras.
Rodrigo SenaEscritor Carlos Roberto de Miranda Gomes transforma em livro as memórias e as paixões do italiano Rocco Rosso.Escritor Carlos Roberto de Miranda Gomes transforma em livro as memórias e as paixões do italiano Rocco Rosso.

O título sai com a chancela da Sebo Vermelho Edições e da União Brasileira de Editores (UBE-RN), e pode ser encarado como uma biografia ampliada devido a presença de informações preciosas sobre a época em que Natal era uma importante base para a aviação mundial como documentos, relatos, fotografias e anotações colecionadas ao longo de quase sete décadas por Rocco. Entre as várias pérolas garimpadas por Carlos Roberto, 72, no acervo do sogro, uma deverá reacender a contestada passagem do aviador e escritor francês Saint-Exupéry pelo Estado.

“Apresento uma versão pessoal para o episódio, a partir de documentos, reportagens e fotografias reunidas por Rocco”, disse Miranda Gomes por telefone à reportagem do VIVER. O autor explica que teve o cuidado de incluir opiniões divergentes sobre o fato polêmico: “As fotos que estão no livro foram feitas por Rocco, que trabalhava na base aérea e tinha o hábito de fotografar as pessoas que passavam por lá. Ele identificou a pessoa nas duas imagens publicadas no livro como sendo Exupéry, e não vejo motivo para inventar uma história dessas”, acredita. Rosso mantinha cadernos com recortes de jornais, chegou a ter três mil, “mas quase todo esse acervo foi comido por cupins. Sobrou muito pouco”, lamentou o escritor.   

Também advogado e pesquisador, Gomes lembra que as possíveis imagens do francês durante sua passagem por Natal começaram a ser contestadas algum tempo depois, quando disseram que era “apenas” uma pessoa parecida.

Segundo Carlos Roberto, que dedicou boa parte de um capítulo para esmiuçar o assunto, há depoimentos, reportagens, registros históricos e estudos sobre os relatos do aviador afirmando ser muito difícil para Exupéry descrever a geografia da região se não tivesse passado por aqui. “Há argumentos dos dois lados, mas os mais fortes dão conta dessa passagem”, informou, lembrando que o fotógrafo João Alves de Melo (1896-1980) fez fotos do período e que um livro está para ser editado pela família com a comprovação (ou não) da presença ilustre em solo potiguar. “Eu vi a foto, mas a família não permitiu fazer uma cópia”, garantiu.

Contemporâneo dos fotógrafos Jaecy Emerenciano e Valdemir Germano, ambos vivos, Rocco Rosso nunca solicitou naturalização e considerava-se cidadão brasileiro.

RÁDIO E TELEVISÃO

Ferido durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), Rocco Rosso voltou ao front como operador de rádios e técnico em eletrotécnica. Com o fim do conflito e o mundo em plena recessão, o italiano, que já tinha parentes no Rio de Janeiro, resolveu atravessar o Atlântico em busca de novas oportunidades. “O Brasil era tido como o ‘Eldorado’ na época, e como ele tinha brevê de piloto e entendia de mecânica de aviões logo conseguiu um emprego na empresa que viria a ser a Air France”, contou Carlos Roberto.

De acordo com o autor, Rosso ajudou a instalar várias bases de rádio pelo país e quando estava trabalhando no Recife, em 1936, resolveu trazer a família para morar em Natal. Foi responsável pela instalação da central de rádio na base aérea de Parnamirim “e durante esse período viu muitos pilotos aterrissarem e decolarem”.

O imigrante italiano atuou na aviação até o momento do Brasil tomar partido. “Quando o país passa a integrar o time dos Aliados, preferiu sair da base com medo de ser acusado de alguma possível sabotagem que viesse a acontecer”, informou. Ainda há outra versão para a saída de Rosso da base: a representação da empresa onde trabalhava foi desativada aqui em Natal. “Depois disso, abriu uma oficina na Ribeira e passou a consertar aparelhos eletrônicos”.

Rocco Rosso manteve o ponto no número 45 da Travessa Argentina até 1962, entre 1963 e 64 foi morar em Belém (PA), mas acabou retornando à Natal quando a filha casou-se com Carlos Roberto de Miranda Gomes.

Irmão do arquiteto Moacir Gomes, projetista do estádio Machadão, o autor de “O velho imigrante” lembra que Moacir trouxe uma televisão do Rio de Janeiro quando Natal ainda nem tinha emissoras. “Rocco acabou inventando uma antena e conseguíamos assistir, muito precariamente, alguns programas exibidos em canais de Pernambuco”. O fato despertou interesse de amigos, que resolveram investir no novo negócio: fincaram uma antena em um ponto alto da cidade “e foi a partir disso que as lojas da cidade começaram a vender aparelhos de televisão por aqui”; e assim Rosso passa a consertar rádios e televisores, indo trabalhar nas Casas Régio até se aposentar nos anos setenta.



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Comentários

  • sergiocosta

    Parabéns ao Profº Carlos Roberto, de quem tive o prazer de ser aluno no curso de Direito da FARN (grande instituição), pela grande colaboração com a história e memória deste estado. É de pessoas assim que o nosso Rio Grande do Norte deve se orgulhar.

  • marinho_neto

    Trabalho como este merece pleno e total apoio e elogio, parabéns ao autor. Ainda bem que existem pessoas com este perfil de registrar parte da bela e importante historia Potiguar. Detalhe; descobri que existe no RN, entidade que realiza também um trabalho sério em prol da HISTORIA, Fund Rampa, este são louváveis de elogios.

  • brytonat

    Tive o prazer de conhecer e conversar bastante com Seu Rocco, vizinho que fomos no Barro Vermelho durante uma grande parte da minha infancia e adolescencia. Ele possuía um acervo fantastico, dentre eles a foto de um dirigivel (Zeppelin?) quando do seu voo por terras potiguares. Essa foto eu nunca esquecí. Ví também inumeras colagens de reportagens de jornais muito antigas que segundo o seu genro foram perdidas, infelizmente. Seu Rocco era uma figuraça na acepção da palavra, gostava de uma boa prosa e mesmo em idade avançada não perdeu a jovialidade , espontaneidade e alegria.