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Natal, 11 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 13:38

Mentira - Parte II

Publicação: 25 de Outubro de 2009 às 00:00
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Hilton Marcos Villas Boas - Psiquiatra

Em muitos casos, entramos em contato com a mentira, pela primeira vez, ainda em uma tenra idade, e "aprendemos às vantagens da mentira". Quem já não ouviu história semelhante a essa, "... meu filho se alguém ligar, querendo saber se sua mãe esta em casa, diga que não ...", quando ela quer evitar atender ao telefone. Ou então, para citar um exemplo na área médica, e grave, aprendemos os benefícios de um atestado médico forjado, simplesmente pela comodidade de poder faltar às aulas de educação física, ou a uma prova ou em um dia de muito cansaço. Podemos ainda citar aquela mentira forçada, quando em um dado momento os tios de uma criança dizem: "...quais são os tios mas queridos do mundo..." No entanto os casos acima caem por terra, quando uma criança resolve acrescentar algo além do que estava no script, "...minha mãe pediu para se alguém ligar dizer que ela não esta..."

Até agora, estamos falando das mentiras "culturalmente e socialmente aceitas pela sociedade", porém o mentiroso convicto, passa por dificuldades, porque a mentira acaba virando um ciclo. Quanto mais o indivíduo mente, mais cai na tentação de mentir, bem como mais terá que mentir, pois vai ficado mais difícil de controlar o quantitativo de informações mentirosas que passou, o mesmo começa a ter dificuldade em manter a coerência das estórias, e aí vem a necessidade de novas mentiras, objetivando encobrir as antigas, crescendo a farsa de forma desproporcional e sem controle. Para o bem de nossa sociedade, a grande maioria dos indivíduos se encaixa nos "mentirosos fisiológicos". E por falar nisso, sabem qual é a "mentira fisiológica" mais comum? São os falsos elogios - (como você esta linda, você esta com um corpo tão elegante, parece que você não envelheceu nada).

Outro tipo muito comum de "mentira fisiológica" são as chamadas desculpas mais esdrúxula possível (desculpas, não pude comparecer a reunião porque tive que acompanhar meu pai em uma consulta médica). Em contrapartida, pode existir uma outra mentira, concomitante a essa, ou seja o interessante de quem recebe a justificativa de fingir acreditar.  A grande frequência de "mentiras fisiológicas", aceitas culturalmente, faz com que ocorra uma tendência natural na banalização da mentira, a ponto de "a mentira ser tida não como um ato negativo, mas sim como um ato positivo", porque a mesma não traz prejuízo e até pode ajudar o outro, (...conheci seu neto, que jovem promissor, nossa a senhora tem 75 anos!, juro que achava que estava no máximo com 50 anos), diferentemente da mentira negativa, que prejudica o outro. A "mentira fisiológica", chega ao ponto de ser um agente social tão importante, que até certo ponto os indivíduos com dificuldade para as "mentiras corriqueiras", do dia a dia, passam a ser considerados como: inocentes, sem jogo de cintura, sem esperteza.

As razões mais comuns, que levam uma pessoa a mentir são: a insegurança, o medo e a auto-estima baixa. Nesses caos, a mentira funciona como um "upgrade", o seu uso objetiva melhorar a auto-imagem do indivíduo para o outro, para muito além do que o indivíduo acredita. No entanto, também se mente por motivos de razões externas ao indivíduo, como por exemplo: pressão muito intensa para atingir o sucesso, pela sociedade que considera mais o ter do que o ser, por razões econômicas e políticas.

Bem, por último deixamos para comentar a pergunta, e as mentiras patológicas? As mentiras de cunho patológico podem estar presentes em situações de alterações psíquicas como: personalidade problemática, determinadas neuroses (quadros histriônicas, popularmente chamados de histeria). São indivíduos que mentem de forma veemente, com um funcionamento psíquico cheio de conflitos e complexo sem conflitos e complexos. Daí a necessidade dos mesmos mentir, pois na vida, na verdade fica o tempo todo representando aquilo que desejariam ser, como se fossem atores, representando um papel em uma peça teatral, cinema ou novela. Na linguagem psiquiátrica, podemos dizer que o indivíduo perde o controle do impulso de mentir, e o personagem idealizado pelo mesmo, supera o seu ego, ficando sua personalidade toda tomada por um falso ego.

Claro que não podemos generalizar, que todas as vezes que a realidade é distorcida, reconstituída ou falsa, tal fato receberá o nome de mentira. Exemplos de tais situações são: a demência, o delírio psicótico, o delírio de uma depressão com sintomas psicóticos ou de um transtorno bipolar com sintomas psicóticos. Situações essas, em que há um relato de modificações, as mais diferentes, da realidade, na qual se acredita irrefutavelmente, mas sem o intuito de enganar ninguém.

Podemos ainda encontrar a mentira muito presente, no dia a dia de indivíduos com transtornos do espectro do controle dos impulsos, onde a mentira tem como objetivo esconder um comportamento que diante mão sabe-se que socialmente será recriminado, tais como: jogo patológico, cleptomania, bulimia, dependência química.

No entanto, podemos afirmar que o quadro mais comprometedor, onde a mentira é um dos sintomas mais importantes, é o Transtorno Anti-social da Personalidade ou Personalidade Psicopata. O indivíduo psicopata faz da mentira a sua ferramenta diária de trabalho, o mesmo é como se fosse treinado para mentir, a ponto de ser difícil de identificar quando mente, como se diz popularmente, mente olhando nos olhos do outro, sem nenhum constrangimento. O psicopata por natureza é narcisística, deseja sempre ser admirado. Bom final de semana a todos!


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