Morre Wellington, o “Pantera”

Publicação: 2012-09-07 00:00:00 | Comentários: 4
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O radialista Wellington Pereira de Carvalho, uma das referências na história do radialismo potiguar, morreu na manhã de ontem aos 69 anos, vítima de uma série de complicações como enfisema pulmonar, pneumonia e insuficiência cardíaca. A filha, Karine Cleide Leal de Carvalho, informou que o pai estava internado no hospital Santa Catarina há 13 dias. “Ele não reclamava de dor no coração, mas falava o tempo todo de falta de ar, então resolvi levá-lo para fazer um diagnóstico mais detalhado. Foi quando o médico pediu a internação”, disse Karine. O corpo está no centro de velório da rua São José e o enterro marcado para às 9h de hoje, no cemitério Parque de Nova Descoberta.
Anderson LinoWellington de Carvalho, 69 anos, foi redator e líder da equipe que marcou época com o programa Patrulha da Cidade, na Cabugi AMWellington de Carvalho, 69 anos, foi redator e líder da equipe que marcou época com o programa Patrulha da Cidade, na Cabugi AM

O “Pantera”, como Wellington era conhecido pelos amigos - devido a altura, a magreza e uma vasta cabeleira - nasceu em Parelhas, em 1943. Veio para Natal trabalhar como faturista na empresa Nóbrega & Dantas, na subida da então rua Junqueira Aires, ao lado do jornal A República. Começou a trabalhar em comunicação por causa de uma paixão pelo rádio e conseguiu a vaga de plantão esportivo na antiga Rádio Rural (AM) por um lance do acaso.

Wellington sintonizava várias emissoras do pais, durante a noite. Na semana em que se anunciava a vinda do time do Santos de Pelé, Pepe e Coutinho, sensação na década de 1960, para jogar com o ABC em Natal, ele soube pelas rádios paulistas a informação de que o Santos não viria mais para a capital potiguar. Tentou, então, avisar vários locutores esportivos da cidade, mas só recebeu crédito do jornalista Paulo Tarcisio que lhe chamou para o estúdio da rádio Rural e deixou que ele lesse a notícia, ao vivo.

A partir desse “furo”, o próprio Paulo Tarcísio convidou Wellington para fazer parte da Rádio Rural com os plantões esportivos. O talento de Wellington logo foi  percebido, a ponto de ser chamado para também fazer as tradicionais jornadas esportivas na década de  1970 junto a equipe da Rádio Cabugi (AM), líder de audiência no estado na época.

Incorporado a equipe do “Escrete de Ouro”, Wellington se destacou na cobertura da Copa do Mundo de 1970, conquistada pelo Brasil, atuação que lhe rendeu o apelido de  “o ouvido de ouro”. Durante o período em que cobria esportes, Wellington começava sua jornada às 5h dando resultado do jogo do bicho, brigada de galo e de regatas no Rio Potengi.

Após um período de cinco anos (1972-1977), no qual trabalhou em Fortaleza (CE) para a Rádio Dragão do Mar, Wellington Carvalho voltou para Natal e para a Rádio Cabugi AM. Foi produtor, redator, locutor e comandante da equipe do programa “Patrulha da Cidade”, crônica informativa e bem humorada dos registros policiais cotidianos de Natal e cidades próximas. Faziam parte da equipe o radialista Tom Borges, Nice Maria, o “coronel Bolachinha” e Ubiratan Camilo, todos já falecidos.

Com a “Patrulha da Cidade”, Wellington consolidou de forma definitiva sua atuação e se tornou um dos nomes mais conhecidos do rádio potiguar. O sucesso de audiência levou a equipe do programa a fazer shows por cidades do interior do Estado. Mas, Wellington Carvalho também fazia jornalismo sério. Durante mais de 10 foi o redator chefe da equipe de jornalismo da Rádio Cabugi, atuando em coberturas eleitorais e de grande impacto, como a transmissão das enchentes em Santa Cruz e os terremotos em João Câmara.

Companheirismo fora e dentro das redações onde trabalhou

O jornalista Carlos Peixoto, diretor de Redação da Tribuna do Norte, trabalhou com Wellington Carvalho no início da década de 1980, como repórter da Rádio Cabugi, e destaca a “disponibilidade”do radialista, para ensinar aos mais novos,  como um dos traços marcantes. “Ele já era uma legenda do rádio, assim com a Patrulha da Cidade, mas nunca se deixou contaminar por isso. Ensinava a mim e a outros focas a fazermos entrevistas, a redigir o noticiário e a falar ao vivo com a atenção e interesse de um professor dedicado”, lembra Peixoto.

O companheirismo nas redações era estendido ao ambiente dos bares e até mesmo a vida privada dos colegas de trabalho. “Naqueles anos, saiamos das redações da Cabugi e da Tribuna para os bares da Ribeira e Wellington era um dos pólos que nos atraia, terminado o trabalho, para o ambiente de boemia e camaradagem na Peixada Potengi, nos barracos do cais da Tavares de Lira”, prossegue Peixoto. Em torno da mesa, quase sempre liderada por ele, juntavam-se os companheiros de trabalho e também pescadores, comerciantes, mecânicos e outros tipos com que o radialista mantinha amizades.

“Desprendido de vaidades, Wellington não tinha inimizades nem fez questões de acumular bens”, lembra Peixoto. Da casa no bairro de Santos Reis, onde morou no início da vida de casado, Wellington mudou-se para uma outra na Redinha Nova. Com varandas arejadas e salas amplas, a casa na praia se transformava em uma “república sempre aberta” para quem desejasse um fim de semana de muita conversa, cerveja e sardinhas na brasa. “Eu e Conceição íamos quase todos os fins de semana para lá e não me lembro de Wellington nem dona Dulce fechando a porta para ninguém”, acrescenta o jornalista.

Com o fim do Patrulha da Cidade, em 1985, a redução dos espaços noticiosos no rádio AM potiguar e o avanço das FMs, a saída de Wellington Carvalho da Rádio Cabugi começou a se desenhar como algo inevitável. Em 1986, Wellington foi trabalhar na assessoria de imprensa da Prefeitura de Natal, levado pelo então prefeito Garibaldi Filho. Ficou responsável pelos programas do rádio em que o prefeito eleito “conversava” com a população. O modelo se repetiu, com Wellington na mesma função, durante os oito anos de mandato de Garibaldi como governador.

Funcionário comissionado, sem vínculo permanente com a Prefeitura ou o Governo, Wellington Carvalho nunca se preocupou em planejar como encerraria a carreira profissional. Nos últimos anos, precisou trilhar a via-crúcis da burocracia para comprovar tempo de serviço e de contribuição, obtendo uma aposentadoria.



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Comentários

  • izancoelho

    Eu tive a felicidade de conhecer o Sr Wellington que morava vizinho ao meu irmao Luciano Marinho Coelho na praia da redinha as vezes tomavamos umas branquinhas com varios tira gostos.eu tenho certeza que o bom espririto do meu amigo sempre estara na redinha na casa dos seus amigos com bastante luz entre os mesmos.

  • waltermedeiros

    Wellington Carvalho Vivi um tempo em que o rádio era o meio de comunicação mais fascinante, pois a TV ainda não chegava a todos os lares. Apesar da censura e dos parcos recursos técnicos, havia equipes de profissionais que se desdobravam e faziam chegar a toda a população as informações e o entretenimento mais vibrante e encantador. Foi assim que no começo de 1973 cheguei à Rádio Cabugi. Entre tantos companheiros radialistas competentes e populares da época, encontrei anos depois Wellington Carvalho. Lembro que ele redigia, noticiários, redigia e apresentava boa parte da Patrulha da Cidade, participava da Resenha Esportiva, era o Plantão do Esporte e ainda tinha tempo para muitas outras coisas. Sempre magro, sempre sorridente, sempre brincalhão, sempre de bem com a vida, embora fosse capaz de falar grosso e até brigar, se necessário. Era assim que vivia nosso amigo, foi assim que convivi com ele. Wellington Carvalho era da Paz e transmitia uma sensação de tranquilidade imensa, ao mesmo tempo em que era dos mais vibradores com o noticiário. Como militante democrata socialista, eu precisava medir as palavras na presença de algumas pessoas, mas ele era daquelas pessoas que mereciam total confiança, tanto para as confidências como para aconselhamentos, em vista da experiência que já tinha acumulado. As notícias chegavam através de radioescuta, com gravação em gravadores Akai e recepção muitas vezes precária. Assim se deu na queda do avião da Varig no Aeroporto de Orly, quando morreram muitos brasileiros e até o natalense Juarez Baía. Lembro Wellington Carvalho avançando e voltando a fita para saber se eram mesmo Agostinho dos Santos e Felinto Müller dois dos passageiros citados no exato momento em que aparecia um ruído forte na gravação. Existem amizades daquelas que você convive, entendem-se, ajudam-se, torcem um pelo outro, e que tem certeza de que jamais haveria mágoa entre ambos. Assim sempre senti minha amizade com ele: um grande amigo, grande homem, grande pessoa. Um radialista e jornalista completo. Uma saudade para o resto da vida.

  • adao_galdino

    Adeus Wellington Carvalho, que seu exemplo como proficional, seja seguido pelos demais companheiro de Profissão.

  • mauri_amaral_59

    Wellington Carvalho, voltar nossos bons tempos na Redinha já é impossível mas faremos todo o esforço para nos conformar com as certezas da vida, não morreste apenas cumpriste teu tempo e agora viveras na gloria eterna ao lado do pai celestial , surgimos do pó e ao pó retornaremos. Saudades de teus filhos, netas, familiares e amigos, nos 90 anos da rádio teu corpo e tua voz descaça e se cala para sempre