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Natal, 12 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 00:51

MPF investigará permuta de terreno

Publicação: 12 de Fevereiro de 2010 às 00:00
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Isaac Lira Repórter

O Ministério Público Federal irá investigar a permuta de um terreno do Exército localizado na cabeceira da Ponte Newton Navarro, bairro de Santos Reis. A área está sendo terraplanada pelo próprio  Exército, mas ainda não foi entregue ao empresário que a arrematou em licitação pública como permuta de obras no Hospital Central da  força federal, no Recife (PE).

Alex RégisTerraplanagem na área permutada começou há cerca de quatro meses e teve processo polêmicoTerraplanagem na área permutada começou há cerca de quatro meses e teve processo polêmico
A abertura do inquérito  sobre a transação e também sobre a destruição das dunas que existiam na área foi anunciada pelo procurador Fábio Venzon, que afirmou não poder confirmar se já existe um inquérito em curso por problemas no sistema administrativo do MPF. "De qualquer forma, iremos investigar", afirma. O ponto de partida para a investigação será a reportagem publicada ontem pela TRIBUNA DO NORTE.

Como o jornal informou, cinco hectares do terreno - que está numa área de proteção ambiental - foi permutada com o empresário Wilson Calado por um valor de R$ 1,29 milhão. Wilson, que é diretor da imobiliária Natal Sotheby´s, irá investir essa quantia na construção de um edifício garagem no Hospital  do Exército, em Recife (PE). Segundo o procurador Fábio Venzon, o procedimento no Ministério Público será o de praxe. "As partes serão intimadas a prestar informações de como se deu o processo, inclusive a parte de licenciamento", diz o procurador.

A terraplanagem na área permutada começou há cerca de quatro meses e teve um processo de licenciamento polêmico. Primeiramente, o pedido do Exército foi indeferido pela análise técnica da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) porque o terreno estaria numa "área de preservação permanente" (APP) e, com isso, sujeita a restrição. Nessa linha de raciocínio, as alterações no terreno - caracterizado como "área dunar e de vegetação fixadora de duna" - só poderiam ser justificadas por uma obra de interesse público.

Contudo, a posterior análise do Conselho Municipal de Planejamento Urbano e Meio Ambiente (Conplam), para onde o processo foi remetido por se tratar de um conselho superior à Semurb, atestou que a área não seria de proteção permanente, sendo caracterizada "apenas" como Zona de Proteção Ambiental (ZPA). Entenda: as ZPA´s são definidas no Plano Diretor de Natal e podem abrigar empreendimentos com restrições. Já no caso das Áreas de Proteção Permanente as alterações no ambiente são vedadas, a não ser em casos de flagrante interesse público. O caso da Ponte de Todos é um exemplo. Houve alteração numa APP, mas a obra era considerada de "suma importância".

 O relator do processo no Complan foi Wilson Luiz Cardoso, representante do Clube de Engenharia do RN. Ele afirma que, como a área já tem ocupação e intervenção humana de longa data, a função natural daquele ecossistema estava desvirtuada. "Se um determinado ecossistema não apresentar mais a sua função ambiental, não há motivo para ser considerado de preservação permanente", diz o relatório do Conplam.

Como o parecer do Conselho não identificou a área como de proteção permanente, o Exército foi autorizado a fazer a terraplanagem. Naquela época, procurado pela TRIBUNA DO NORTE, o Exército explicou que o trabalho realizado no terreno atendia uma questão de segurança. "A área está constantemente servindo de depósito de lixo e ocupada por marginais  e viciados em drogas", relata Wilson Dantas.

O descompasso entre a avaliação técnica da Semurb e o parecer do Conplam encontraria eco em uma divergência dentro do próprio Conselho. O conselheiro Dayvson Marques de Moura, representante dos Conselhos Comunitários e Entidades Beneficentes do RN (Feceb/RN), fez inúmeros questionamentos acerca do projeto no Conplam. Mesmo tendo sido derrotado por 11 votos a um, muitos dos questionamentos  do conselheiro não foram respondidos. A terraplanagem , autorizada pelo conselho, será, agora, investigada pelo MPF.

Justificativa para terraplanagem do terreno não é válida

A tentativa de evitar o acúmulo de lixo e a existência de esconderijo para possíveis viciados em drogas - argumento apresentado pelo Exército - não seria um argumento válido para a terraplanagem do terreno. A necessidade da obra ser de "utilidade pública" foi lembrada por Dayvson Marques em uma nova apreciação do processo, poucas semanas depois da aprovação do primeiro relatório, de Wilson Cardoso. 

Coincidentemente, no mesmo dia que Dayvson pediu vistas do processo, o Exército enviou novo ofício para o Conplam. E dessa vez o argumento utilizado para pleitear a terraplanagem, com consequente desmatamento da vegetação natural e descaracterização da área, foi de segurança. "Eles afirmaram que precisavam terraplanar para garantir a segurança do armamento presente no Grupamento de Artilharia de Campanha", diz Dayvson.

Além da mudança de motivo durante o processo, o conselheiro identificou uma série de documentos anexados ao julgamento sem o prévio conhecimento da Semurb. "Por razões de Segurança Jurídica, apenas o Órgão de origem (no caso a Semurb) é quem pode anexar ou retirar documentos do processo", diz o parecer do Conselheiro Dayvson Marques.

 Voltando à caracterização do terreno, o conselheiro reafirma o parecer da Semurb: o terreno está inserido numa área de preservação permanente, por funcionar como filtro e recarga para o aqüífero do rio Potengi. "O fato desse tipo de ecossistema estar dentro da área urbana não descaracteriza a existência de uma APP. Essa questão de função natural descaracterizada não encontra espaço na legislação", conta Dayvson Marques. O conselheiro utiliza o embasamento da Lei Federal 4.771/65.

Um outro ponto é que  qualquer alteração ou novo documento teria de ter passado, segundo essa linha de raciocínio, pelo órgão ambiental estadual, no caso o Idema, de acordo com o artigo segundo do Código Florestal. O setor de licenciamento do Idema informou à reportagem da TRIBUNA DO NORTE  que não havia registro de qualquer pedido de análise sobre o caso. Em outras palavras, o Idema não foi consultado.

De acordo com o procurador Fábio Venzon, apenas uma perícia técnica poderia decidir se a área em questão é ou não de proteção permanente. "As características das áreas de proteção permanente - rios, matas ciliares, mangues, dunas, etc - são definidas no Código Florestal, resoluções do Conama e etc. Nesse caso, somente um parecer técnico de um especialista poderia afirmar se é ou não uma APP, se ela atende ou não às características listadas na legislação", afirma.

Impossibilidade de construção

A definição se o terreno em   questão faz parte ou não de uma Área de Proteção Permanente não altera uma consequência imediata da aquisição dos cinco hectares por Wilson Calado (que declarou à TRIBUNA DO NORTE não saber ainda o que fazer com a área adquirida por mais de um milhão de reais), transformado agora em propriedade privada: mesmo se trate de uma ZPA, ou seja com a possibilidade de receber empreendimentos de tamanho limitado, qualquer edificação só poderá ser erguida no local após a regulamentação da Zona de Proteção Ambiental 7, onde o terreno está inserido. O Plano Diretor de Natal veda qualquer tipo de obra em ZPA´s não regulamentadas.

Atualmente, o projeto de regulamentação da ZPA7, aprovado pelo Conplam em 2008, está na Câmara dos Vereadores. A Câmara, às vésperas do recesso de carnaval, não pode informar em que pé está o processo. A secretaria disse que o projeto de lei estava em uma das comissões da Câmara. A minuta do Projeto de Lei coloca que edificações turísticas, de habitação e para fins militares são permitidas no local permutado pelo Exército.

Natal tem 10 Zonas de Proteção Ambiental definidas pelo Plano Diretor votado em 2007, que tem revisão marcada para o próximo ano. Dessas ZPA´s, cinco estão regulamentadas. Ou seja, às portas do momento de rever o ordenamento urbano de Natal, o poder público sequer conseguiu dar cumprimento ao Plano original.

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comentários

lotomina@...12/02/2010 @ 06h33
Ai fica facil de enricar, o metro quadrado "doado" a 25 reais é uma verdadeira vergonha!!! Alias é um roubo descarado. Se o poder publico quiser eu compro a area por 1.5 milhao, nao tenho nem medo de ter prejuizo. Fazem essas coisas sem dar a devida publicidade justamente para beneficiar um ou outro.
ed340ms@...12/02/2010 @ 00h02
Esse empreendimento está sujeito a um processo de licenciamento em obediência ao preceito constitucional da elaboração do Estudo de Impacto Ambiental ? EIA. Daí, somente a equipe técnica interdisciplinar elaboradora do EIA responderá (pessoa física e jurídica) pelas afirmações técnicas e cientificas do projeto e sua área de influência. Debater essa questão preso a legislação municipal é um erro inaceitável. Entretanto, citemos: ?As áreas de preservação permanente são destinadas a: Parágrafo único - São proibidas quaisquer outras atividades nas áreas de preservação permanente, e em especial as abaixo indicadas: VI - urbanização ou edificações de qualquer natureza, mesmo desmontáveis; (...) XI - aterros e assoreamentos. ?Art. 56, do Código do meio ambiente do Município do Natal. A gênese desse problema está no processo de licenciamento da ponte. O cidadão necessita saber da audiência pública do EIA/RIMA, da ata da audiência púbica e da expedição de sua licença.
ferreiraseis@...12/02/2010 @ 07h33
Incrível! O que se vê de manchetes nos jornais do Brasil: "O MP vai investigar, não sei quem vai investigar...!". Se tudo fosse investigado e punidos os responsáveis de tanta coisa errada nesse pais, seria ótimo!! Por enquanto, fica só "na investigação"!!!
manesmann@...12/02/2010 @ 08h28
25 reais o m2 e de frente para o mar? Só pode ser brincadeira uma coisa dessas, embora haja uma permuta! Só que o "sortudo" terá que construir, como permuta, em Recife! DEVERIA ser nas instalações do EXÉRCITO daqui! Se é para construir em Recife, que usem terrenos de lá para esse tipo de permuta!
jorgemachadors@...12/02/2010 @ 08h20
Parabens pela materia ,acompanho as materia polemicas sobre preservaçao ambiental e já havia notado ao passar pela ponte ,que ninguem havia se manifestado a respeito,é vergonhoso neste estado ,nao ter um HOMEM de respeito para acabar com estas barbaries ,digo uma falta de respeito ,ora dao as licenças ,ora as retiram....tem uma mocinha (acho que é promotora)e um juiz que adora aparecer na midia,aonde andam estas celebridades que nao apareceram para defenderem esta aberraçao da retirada vergonhosa de 5 hectares ( nao sao 5 metros) se fosse em buzios já estaria ,ao ligarem as retroescavadeiras ,o juiz de nizia e a mocinha.Tenho vergonha de morar neste estado.
evan.barros@...13/02/2010 @ 16h11
Brincadeira, é mesmo caso para investigação e verificar as contas desse pessoal envolvido, ou seja, porque o idema não tomou conhecimento do caso se fica a vista. Os senhores Vereadores tomem as devidas providencias. Senhora Prefeita (PV) o caso é ecológico não deixe que destrua a area do Forte dos Reis Magos...
jmbulhoes@...13/02/2010 @ 16h40
É muito interesante a questão desse terreno, pos houvir fala que a terraplenagem do mesmo era pra dá mais segurança ao batalhão, convêm lembra que nas praias redinha nova e santa rita, o idema junto com a promotoria do meio ambiente proibiu a toda e qualquer construção,pois bem alegando ser uma APA, porquer não foi suspença durante a licitação da venda dos terrenos. será porquer tinha gente grande no esquema,só agora depois que gente pobre comprou os terrenos é que o MP foi perceber que era uma área de proteção ambiental e é crime a degradação do meio ambiente.mas como o esquema desse terreno envolve gente grande portanto não é crime ambiental destruir uma área de dunas, infelismente quem manda no mundo é o dinheiro,no brasil não é diferente espero que o poder publico se coloque em seu papel de estado, que é fazer proteger a sociedade das garras do capitalismo selvagem, favorecendo sempre quem tem dinheiro.
hamour@...12/02/2010 @ 15h03
Isto é brincadeira!!! As autoridades deste Estado de miséria moral, que permitem estas falcatruas deveriam fazer companhia ao Arruda, mas aqui são todos apadrinhados uns dos outros. Para ser inspetor, fiscal, ou seja, lá o título que tenha do Idema, Semurb ou Complam não precisa nada além de ser apadrinhado pelas autoridades, logo quando a questão tem interesse destas autoridades os fiscais nada fazem, pois estão no exercício da função por beneplácito do companheirismo e se forem decidir qualquer questão ambiental no sentido de ir contra os interesses das autoridades eles, os analistas, para não perderem o emprego diferem qualquer moção de interesse do grupo reinante neste RN. Os fiscais não se posicionam de forma integra pelo fato de não serem concursados e portanto sem garantia do emprego,vivem de favores políticos e em virtude de disto aprovam todos os projetos propostos, digo mais uma vez, para se manterem nos cargos. Eu fiz um curso de graduação em Gestão Ambiental numa Universidade de renome aqui no Nordeste, e o que mais me angustiou durante o curso foi a falta de consciência de alguns professores na proposição de conceitos e da forma equivocada que mostravam as questões e peculiaridades do Meio Ambiente do RN. A maioria deles claro apaniguados pelo emprego público sem concurso, estavam lá dando aula por um salário irrisório e sem nenhuma base para discutir os assuntos inerentes a um assunto tão polemico e importante para a educação ambiental incipiente neste povo potiguar. Então se os centros formadores são relapsos e não formam cidadãos conscientes da sua responsabilidade o que esperar destes políticos e destes ?profissionais? que são os responsáveis pela fiscalização? É o que vemos aí, a degradação ambiental em todos os níveis.
rkbrasil20@...12/02/2010 @ 19h38
Liberou geral. Agora só falta a terraplanagem do parque das dunas, do morro do careca e das dunas de genipabu. E com isso as belezas naturais do nosso espaço está indo para as cucuias, lamentável.
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