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Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 23:17

Mulher luta para evitar morte de cão infectado

Publicação: 05 de Fevereiro de 2012 às 00:00
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Nara Andrade
Jornal de Fato

Mossoró - "Como se fosse um filho". É assim que a dona de casa, Ana Valda do Monte, de 48 anos, define o seu cachorro chamado de Branquinho. Ela conta que há cinco anos, ganhou o cachorro de seu esposo, o técnico em eletrônica, Amadeu Augusto dos Santos, de 48 anos, com quem convive há 19 anos. "Ele chegou tão sujo, cheio de carrapatos. Desde então nós cuidamos dele como se fosse uma criança", explica.
Carlos CostaAlém de Branquinho, que está no corredor da morte, Ana Valda do Monte cria a cadela BelinhaAlém de Branquinho, que está no corredor da morte, Ana Valda do Monte cria a cadela Belinha

No entanto, a dona de casa há um ano e cinco meses, enfrenta uma batalha judicial para evitar o sacrifício de Branquinho, que foi diagnosticado com Leishmaniose visceral, popularmente conhecida como calazar, em setembro de 2010.

A dona de casa tem apenas uma filha, que já é casada, e além de Branquinho, possui uma cadela chamada Belinha. Ana Valda frisa que apesar de morar com o esposo e os dois cachorros em uma casa humilde, os animais sempre foram bem tratados. Uma vizinha do casal, que pediu para ter sua identidade preservada, diz que todo mundo sabe do amor que eles têm pelos dois cachorros.

"Ela diz a todo mundo que tem certeza que o Branquinho vai voltar. Que vai provar para todo mundo que ele não está doente. Mas, eu fico preocupada dele voltar, porque se estiver mesmo doente pode prejudicar todo mundo", comenta.

Quando recebeu o primeiro resultado do exame que atesta a positividade do calazar, Ana Valda do Monte se negou a entregar o animal e realizar a contraprova, que é um direito dos proprietários em casos dessa natureza.

A veterinária Edinaidy Menezes, do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), explica que como ela se recusou a entregar o animal, o caso foi encaminhado para o Ministério Público, que iniciou uma Ação Civil Pública, e o Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, expediu uma liminar no dia 18 de abril de 2011, autorizando a equipe do CCZ a recolher o animal mesmo sem o consentimento dos proprietários. Desde então, Branquinho está sob guarda do Centro de Zoonoses.

A justiça também expediu uma ordem judicial para realização de mais dois exames, que foram feitos nos meses de junho e outubro do ano passado, em um laboratório de Minas Gerais, referência no país.  Amadeu Augusto, diz que não acredita nos resultados dos exames realizados até o momento. Para ele, isso tudo começou de um problema com uma de suas vizinhas, que estava incomodada com o animal, e teria feito uma denuncia ao CCZ.

"Essa vizinha quis me prejudicar, e o único jeito que arrumou foi falsificar o resultado do exame com a ajuda de conhecidos que trabalham na prefeitura", acusa.

A dona de casa diz que só entregou o animal porque os técnicos do CCZ foram até a sua residência, que fica na Rua Major Altemberg de Melo, no bairro Santo Antônio, junto com vários policiais, que ameaçaram algemá-la.

"Vou lutar até conseguir trazê-lo de volta para casa. Ele é um cachorro bem cuidado, aqui ele comia tudo do melhor. E desde que ele está lá no Centro de Zoonoses, eu vou duas vezes por semana, dou banho e fico lá com ele. No início levava a comida dele, mas disseram que tem ração para os animais que ficam lá", comenta.

Irmã Ellen defende casal e diz que cão está sendo perseguido

O casal, que tenta salvar o seu cachorro, conta com o apoio da freira franciscana, Liselotte Elfriede Scherzinger, a Irmã Ellen, fundadora e diretora do Lar da Criança Pobre. Irmã Ellen, afirma que Ana Valda a procurou chorando, muito nervosa, e contou o que estava acontecendo. "Ela é uma pessoa pobre, desamparada e está sofrendo muito com essa situação. Além do problema do cachorro, tenho me preocupado com a saúde de Ana Valda e do seu esposo, que estão adoecendo em decorrência do problema", explica.

A freira comenta que todo o processo envolve muitas contradições e não é confiável. Segundo relata a Irmã Ellen, além de ter havido uma confusão de endereços, na hora de recolher o cachorro de uma vizinha da família, ainda teve uma troca de datas, já que no processo tem uma data e o exame foi realizado em uma data diferente, e não consta o nome do agente responsável pelo procedimento.

"Esse exame deu positivo, mas não é confiável, porque pode ter sido feito em qualquer outro cachorro. O branquinho não apresenta nenhum sintoma de cachorro doente e está sendo perseguido como se fosse um criminoso", frisa.

Para a irmã Ellen, o exame realizado pelo Centro de Zoonoses tem 40% de chance de erro. Ela também explica que em muitos países os animais com calazar não são sacrificados, passam por tratamento. 

Juiz afirma que decisão foi pautada em direito coletivo

O juiz, José Herval Sampaio Júnior, do Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, diz que com base dos direitos assegurados pela Constituição Federal, as pessoas podem contestar quando acham que tiveram seus direitos violados. Esse é o caso da dona de casa Ana Valda do Monte, que se sentiu violada pelo Ministério Público, que moveu uma ação pedindo o sacrifício do animal diagnosticado com calazar.

Segundo o juiz, a decisão foi tomada, com base no direito coletivo, em nome da saúde pública, já que Mossoró é uma cidade com um número alto de casos de calazar, inclusive em humanos, registrando cerca de 50% dos casos do estado em 2011.

"Entendo que é muito difícil sacrificar um animal, principalmente, nesse caso que o cachorro não apresenta nenhum sintoma da doença. Mas infelizmente isso é preciso. A sentença já foi feita e o Centro de Zoonoses já pode realizar o procedimento de eutanásia do cachorro, que representa um risco iminente para os funcionários do local", enfatiza.

Segundo o juiz, a dona de casa apresentou o resultado de um exame que nega a presença do protozoário causador do calazar no animal, mas que esse exame foi feito em um laboratório que não é credenciado no Ministério da Saúde e, por isso, não é reconhecido.

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comentários

deborasantos@...05/02/2012 @ 15h56
Engraçado, algemar a mulher como se ela fosse uma bandida, isso tudo por causa de um cachorro, mas os verdadeiros bandidos não são algemados, né. País atrasado, com gente atrasada, polícia atrasada e juízes atrasados. Por isso que o brasil (com b minúsculo mesmo) sempre será um país pobre, ignorante e considerado como do terceiro mundo. Também, com monte de gente ignorante desse jeito, nunca vai passar de uma grande favela. Vê se na Noruega isso aconteceria. Outra coisa, quem é perigoso é o mosquito transmissor e não o cão.
almeidarfa@...05/02/2012 @ 16h16
ISSO É UM CASO DE SAÚDE PÚBLICA. Não podemos brincar com a saúde. Se o exame deu positivo, cabe imediatamente um segundo exame. Não pode é ficar o animal esperando uma decisão a mais de uma ano e meio. Será necessário alguém morrer para tomares atitudes.
romeicagondim@...05/02/2012 @ 12h48
Mas está errado! Se alguém questiona o resultado e a veracidade do exame, é preciso investigar direitinho antes de sacrificar o animal. O juíz teria que ter mais prudência antes de anunciar a sentença que pode ser injusta....será que utilizaria da mesma imparcialidade se o cão fosse de uma pessoa que tivesse posses? Desconfio que não, pois isso poderia trazer sérios problemas para ele, visto que a pessoa envolvida teria grana para processá-lo, somente conseguindo provar que ele poderia ter errado. Muito complicado isso! Concordo que se o animal tiver realmente infectado, para o bem de outras pessoas, teria que ser sacrificado, infelizmente, mas se há erros de datas, e possibilidade do animal está sadio, como mostra o outro laboratório,foi uma brutalidade, tanto para o animal, quanto para seus donos que agora sofrem a perda de um "filho". O fato do laboratório não ser cadastrado no MS não significa dizer que o exame que comprova que o cão não está doente é errado....então tem muita coisa que deveria ser investigada com mais carinho.........mas, já que o problema tinha que ser resolvido, foi fácil encerrar o caso assim, já que para o juíz e as demais pessoas envolvidas a morte deste cachorro não representa nada. Mas temos que ter cuidado com isso, pois emocionalmente vocês podem causar danos horríveis nos donos desses cachorros...e se fosse um cachorro de vocês, seria fácil assim,entregar ao centro de zoonoses para o sacrifício, sem antes terem a certeza que o cão deveria morrer? Muita crueldade! Temos que rever essa questão do sacrifício dos animais,pois sabemos que tem profissionais incompetentes e corruptos em todo lugar, e que havia sim, a possibilidade deste cão não estar doente, então o mínimo que poderiam fazer é investigar e tirar a prova,independente do cão ser de quem for.
mi.margareth@...06/02/2012 @ 10h23
É um absurdo o que está acontecendo, se há tantas contradições não podemos permitr que branquinho seja sacrificado. Precisamos sim é cobrar que o governo tenha mais responsabilidade com os animais e invista nos CCZ para que tenha mais pessoas sensíveis para cuidar dos animais e que tenha uma política de controle de doenças ao invés de pensar apenas em matar os seres indefesos. Margareth Vieira - Estudante de Gestão Ambiental
katia@...06/02/2012 @ 10h06
Enquanto encararmos a leishmaniose de forma ignorante e os CÃES como AMEAÇA PUBLICA, levantaremos polemicas como essa, a discussão toma formas pessoais quando na verdade, como o Juiz colocou é da coletividade (inclua os cães). Já foi comprovado cientificamente que não só os caninos são portadores e hospedeiros deste protozoário. Então, sairemos sacrificando todos os mamíferos possíveis portadores? caninos, felinos, equídeos, ... até os ratos domésticos já foram diagnosticados como portadores e possíveis hospedeiros, o transmissor é o mosquito e não o cachorro, mas a guerra estabelecida é contra o cão, tão vitima quanto nos, por que não estabelecer uma guerra contra os mosquitos??? O caso é que SACRIFICAR CÃES é uma maneira ?FÁCIL? de mostrar para a população que se esta FAZENDO ALGUMA COISA, mas fácil do que instalar campanhas educativas, estabelecer programas de saúde eficientes, .... LEISHMANIOSE TEM CURA!!! em qualquer animal, inclusive em humanos, isto não sou eu que estou afirmando e sim a própria secretaria de saúde em congresso estadual realizado em Mossoró. Mas uma vez a falta de informação e a solução mais PRATICA é a adotada e mantida!!! sou veterinaria e faço parte da ong Defesa da Natureza e dos animais - DNA
accostaclaudia@...06/02/2012 @ 22h43
Pelo que li na matéria não tem nenhuma contra prova que o cachorro está mesmo com calazar,então como o juiz pode ter dado a sentença de morte ao pobre animal ?isso tem que ser investigado com mais cautela,pois trata-se de um ser vivo e de sentimentos de pessoas que estão visivelmente abaladas com o caso,esse assunto deveria ser tratado com mais respeito e consideração...
joaoalberico1946@...09/02/2012 @ 17h50
Este é um grande exemplo de como a saúde pública deve ser tratada. Calazar é uma doença grave que tem dizimado milhares de pessoas. Infelizmente esta senhora deve ser conscientizada do mal que ela oferecerá aos moradores da região com a volta desse animal infectado. Justiça feita, justiça correta. Parabens.
Tribuna do Norte