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Natal, 11 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 14:45

Museu das Naus, avante!

Publicação: 10 de Maro de 2010 às 00:00
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Maria Betânia Monteiro - repórter

O homem que não deixou a Fortaleza dos Reis Magos diluir nas águas salgadas; que fez renascer dos destroços a antiga penitenciária, onde hoje funciona o Centro de Turismo de Natal; que fundou o curso de Arquitetura na UFRN; ficou 10 anos à deriva, mergulhado no horizonte prometido, até que a paciência pediu licença e partiu. João Maurício, professor, inventor, marceneiro, construtor, visionário e arquiteto aposentado - verdadeiro patrimônio vivo desta cidade - superou a falta de incentivo público e levantou, com suas próprias mãos e o seu próprio dinheiro, o Museu das Naus, único no país com replicas exclusivas (feitas pelas mãos de João Maurício), de todas as caravelas portuguesas, que navegaram pelos oceanos "descobrindo" continentes.

Alex RégisDepois de custear o Museu das Naus, João  Maurício  espera não cair no esquecimento.  O turista e o natalense precisam conhecê-loDepois de custear o Museu das Naus, João Maurício espera não cair no esquecimento. O turista e o natalense precisam conhecê-lo
O acervo em exposição no Museu das Naus compunha um conjunto de obras de arte muito maior, que esteve instalado na Capitania das Artes em 1999, data em que se comemoraram os 400 anos de fundação da cidade de Natal. O intenso e minucioso trabalho de João Maurício e de seu amigo, Hiran César, também arquiteto aposentado, fizeram daquela, uma das maiores exposições já vistas sobre a cidade de Natal, fato registrado por João Maurício em uma brochura, contendo fotos, artigos e matérias publicadas em jornal e revistas. "A prefeita da cidade naquele ano prometeu construir um museu para abrigar o material em exposição. Mas isso nunca aconteceu. Estava tudo combinado e nada resolvido", disse João Maurício, com a raiva adormecida e a emoção brotando de seu par de oceanos azuis.

Museu das Naus

Cansado de esperar pelas promessas do poder público, e incentivado por sua filha, Ana Maria Miranda, museóloga, que hoje trabalha no Instituto de Cultura do Exército, no Rio de Janeiro, João Maurício investiu R$ 40 mil reais na criação do Museu das Naus. O VIVER conheceu na manhã de ontem o museu, inaugurado dia 23 de fevereiro. Ele tem um acervo impressionante. No salão de 85m², com cerâmicas recém colocadas e telhas aparentes; além das 8 réplicas das caravelas usadas pelos portugueses em suas conquistas marítimas; um painel, composto de fotos, bandeiras  plotters informativos e brasões esculpidos em madeira pelo artista João Luiz, filho do arquiteto João Maurício. Mas as informações detalhadas sobre a fundação da cidade de Natal não estão estáticas nas paredes, circulam livremente na fala do idealizador do Museu e de seu fiel amigo, Hiran César. Ambos, diariamente, acompanham os visitantes em suas jornadas aos mares bravios, contando-lhes em confidência, como tudo começou.

Na ocasião da visita ao museu, esta repórter dividia a atenção dos guias com um turista mineiro. A imagem capturada do turista, apreciando uma das obras em exposição, não pode ser descrita, senão de forma literal: ele estava de boca aberta, e tinha motivos. Cada uma das caravelas foi construída a partir de plantas originais, compradas por João Maurício, no Museu da Marinha em Lisboa, Portugal. A madeira utilizada é a mesma das caravelas originais: o Louro Vermelho, que pertence às floras brasileiras e africanas; e o Pinho de Rigo, nativo de regiões frias, de mares gelados, como os que banham a Ucrânia. De acordo com João Maurício, cada uma das caravelas levou cerca de dois anos, não menos que isso, para serem construídas.

Sobre o Museu da Naus, o visitante mineiro, Richard Mendes, servidor público federal, fala que em suas viagens pelo Brasil, não encontrou nada semelhante. Curioso sobre o tema das embarcações, Richard disse ter visto algo semelhante só em Portugal e lamenta a pouca divulgação do Museu das Naus. "Vim para Natal num pacote turístico. Achei os museus pouco divulgados. Percebi que há um apelo muito maior às praias da cidade, o que é uma pena, pois o que está exposto aqui é um trabalho brilhante", disse Richard.

Prédio que abrigaria museu está em ruínas

No livro feito por João Maurício sobre a exposição do 4º centenário, além das fotos e outros registros sobre a exposição, também estava presente o projeto do museu, que seria instalado num prédio antigo da Ribeira, localizado na av. Duque de Caxias, esquina com a rua Olavo Bilac. "O prédio de mil e quatrocentos metros quadrados está hoje em ruínas. As estruturas de ferro estão sendo retiradas pela população. O prédio vai ser destruído em pouco tempo", disse João Maurício, que também quantificou o valor da obra. Para restaurar mais um dos prédios históricos de Natal, João Maurício calculou que seriam gastos cerca de R$ 250 mil reais. "O poder público não tem cultura. Os políticos não têm cultura. Você pode dizer aí, que essas foram as minhas palavras. Você sabe qual é a cultura dos políticos, não é?", disse João, com a voz serena, mas em desabafo.  Por mais que as paredes erguidas pelo poder público fossem altas, não chegaram a represar o sonho do arquiteto visionário que, incentivado pela filha, acabou abrindo o Museu das Naus, que está em funcionamento há duas semanas.

Museu das Naus ainda não tem catálogo próprio


O Museu das Naus que ainda não tem catálogo - pois, como afirma João Maurício, falta verba para elaboração - está aberto à visitação de terça ao sábado, das 10h às 16h. O valor de R$ 5,00 inteira e R$ 2,50 meia, cobrado na entrada do museu é usado para manter dois funcionários, que trabalham na segurança e auxiliando os visitantes. "A visitação ainda é pequena. Às vezes a gente fica paralisado, um olhando para cara do outro. É preciso que mais pessoas venham, para que o museu seja mantido por muito tempo", explicou João Maurício. O Museu das Naus fica na rua Princesa Isabel, número 438.

Legado registrado

Arquiteto de formação e visionário de nascença, João Maurício deixou guardado em textos e fotos, dados que marcaram sua vida ao longo dos anos, como no caso de um desenho de Caravela portuguesa, feito quando ainda possuía 10 anos de idade. Estes Registros revelam o talento nato e a contribuição significativa que João Maurício representa para a cidade de Natal. Todo este material será divulgado no livro "Antes que a Memória se Apague", escrito pelo próprio João Maurício. O livro está em fase de revisão na EDUFRN e tem previsão para ser lançado em junho, durante a SBPC, que este ano será em Natal.

Serviço

Museu das Naus. Dias de Visitação: de terça a sábado. Horário de visitação: 10h às 16h. Local: rua Princesa Isabel, número 438. Valor da entrada: R$ 5,00 inteira, e R$ 2,50 meia.

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comentários

josevanilsonj@...10/03/2010 @ 06h02
Só posso dizer duas coisas: parabéns pela reportagem; parabéns J. Maurício. PS. Vou fazer uma visita ao museu dia desses
waltherfreitas@...10/03/2010 @ 09h45
Parabéns ao Sr.João Mauricio pela dedicação, empenho e persistência! Não tinha conhecimento da existência do Museu mas certamente, com a divulgação feita pela reportagem; as visitas se multiplicarão. Num País onde o investimento oficial em cultura só é feito se houver uma contrapartida eleitoral; pessoas como o Arquiteto João Mauricio merecem toda a nossa homenagem e respeito.Serei junto com a minha familia um dos regulares visitantes deste Museu. Tivemos o "Museu da Rampa" ( localizado perto do "Canto do Mangue") até alguns anos num local importante não só pela sua singularidade histórica ( local onde os presidentes Roosvelt e Getúlio Vargas assinaram o acordo para a entrada do Brasil ao lado dos aliados) mas pela riqueza de detalhes e objetos históricos ( tinha até réplica de aviões usados na época). Infelizmente o descaso, a falta de divulgação e de apoio das autoridades oficiais em todos os níveis, fizeram com que o lugar ficasse relegado 'às moscas". Recentemente, fui levar meu filho e tive a triste constatação de que sequer os guardas que estavam no local sabiam que algum dia havia existido algum Museu ali". Esperemos que não aconteça isso com o Museu das Naus.
edusantos5422@...10/03/2010 @ 13h49
A persistência do arquiteto, marceneiro, artista e professor JOÃO MAURÍCIO, que fun- dou o curso de arquitetura da UFRN e, também, com seus próprios recursos, implantou o MUSEU DAS NAUS, em Natal, Rio Grande do Norte. Esse museu é o único do Brasil com réplicas exclusivas de todas as caravelas portuguesas, feitas pelas próprias mãos do Profº João Maurício, a partir de plantas originais, compradas em Lisboa, no MUSEU DA MARINHA.
zuleide@...11/03/2010 @ 00h13
João Maurício, Vizinho na Princesa Isabel, por 17 anos é um grande profissional e amigo de valor. Parabéns pela conclusão das suas naus e abertura do museu. Visitaremos em breve. Nosso abraço e sucesso! Zuleide, Francisco, Julie, Felipe e Gustavo.
sergiobezerra@...10/03/2010 @ 19h04
Esse cara é um gênio eu pessoalmente acompanhei a mais ou menos 15 anos atrás algumas das suas construções dessas replicas incríveis onde João Mauricio fazia com muito amor e dedicação. Parabéns João. Vale a pena essa visita ao museu.
lobovermelhorn@...16/03/2010 @ 14h35
GRANDE INTELIGENCIA CRIATIVA DA CIDADE DO RN. MERECE TODO O NOSSO RECONHECIMENTO E RESPEITO. QUANTO AOS POLITICOS, JOÃO MAURÍCIO, MELHOR NEM ACREDITAR, NEM ESPERAR NADA DELES.
eugeniafarias@...20/03/2010 @ 13h01
Não nega ser um MIRANDA HENRIQUES !!! Parabéns, tio. Fico muito orgulhosa de vc. Saudades....da casa da Deodoro, da Fabrício Pedroza, do seu escritório, de vc adivinhando a hora na mesa do almoço ....
EDSONODILON@...23/03/2010 @ 07h33
ENQUANTO TIVERMOS FÉ, AINDA TEMOS ESPERANÇA! O MUNDO AINDA TEM JEITO. VAMOS VALORIZAR OS NOSSOS.
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