Maria Betânia Monteiro - repórter
O homem que não deixou a Fortaleza dos Reis Magos diluir nas águas salgadas; que fez renascer dos destroços a antiga penitenciária, onde hoje funciona o Centro de Turismo de Natal; que fundou o curso de Arquitetura na UFRN; ficou 10 anos à deriva, mergulhado no horizonte prometido, até que a paciência pediu licença e partiu. João Maurício, professor, inventor, marceneiro, construtor, visionário e arquiteto aposentado - verdadeiro patrimônio vivo desta cidade - superou a falta de incentivo público e levantou, com suas próprias mãos e o seu próprio dinheiro, o Museu das Naus, único no país com replicas exclusivas (feitas pelas mãos de João Maurício), de todas as caravelas portuguesas, que navegaram pelos oceanos "descobrindo" continentes.
Alex Régis
Depois de custear o Museu das Naus, João Maurício espera não cair no esquecimento. O turista e o natalense precisam conhecê-lo
O acervo em exposição no Museu das Naus compunha um conjunto de obras de arte muito maior, que esteve instalado na Capitania das Artes em 1999, data em que se comemoraram os 400 anos de fundação da cidade de Natal. O intenso e minucioso trabalho de João Maurício e de seu amigo, Hiran César, também arquiteto aposentado, fizeram daquela, uma das maiores exposições já vistas sobre a cidade de Natal, fato registrado por João Maurício em uma brochura, contendo fotos, artigos e matérias publicadas em jornal e revistas. "A prefeita da cidade naquele ano prometeu construir um museu para abrigar o material em exposição. Mas isso nunca aconteceu. Estava tudo combinado e nada resolvido", disse João Maurício, com a raiva adormecida e a emoção brotando de seu par de oceanos azuis.
Museu das NausCansado de esperar pelas promessas do poder público, e incentivado por sua filha, Ana Maria Miranda, museóloga, que hoje trabalha no Instituto de Cultura do Exército, no Rio de Janeiro, João Maurício investiu R$ 40 mil reais na criação do Museu das Naus. O VIVER conheceu na manhã de ontem o museu, inaugurado dia 23 de fevereiro. Ele tem um acervo impressionante. No salão de 85m², com cerâmicas recém colocadas e telhas aparentes; além das 8 réplicas das caravelas usadas pelos portugueses em suas conquistas marítimas; um painel, composto de fotos, bandeiras plotters informativos e brasões esculpidos em madeira pelo artista João Luiz, filho do arquiteto João Maurício. Mas as informações detalhadas sobre a fundação da cidade de Natal não estão estáticas nas paredes, circulam livremente na fala do idealizador do Museu e de seu fiel amigo, Hiran César. Ambos, diariamente, acompanham os visitantes em suas jornadas aos mares bravios, contando-lhes em confidência, como tudo começou.
Na ocasião da visita ao museu, esta repórter dividia a atenção dos guias com um turista mineiro. A imagem capturada do turista, apreciando uma das obras em exposição, não pode ser descrita, senão de forma literal: ele estava de boca aberta, e tinha motivos. Cada uma das caravelas foi construída a partir de plantas originais, compradas por João Maurício, no Museu da Marinha em Lisboa, Portugal. A madeira utilizada é a mesma das caravelas originais: o Louro Vermelho, que pertence às floras brasileiras e africanas; e o Pinho de Rigo, nativo de regiões frias, de mares gelados, como os que banham a Ucrânia. De acordo com João Maurício, cada uma das caravelas levou cerca de dois anos, não menos que isso, para serem construídas.
Sobre o Museu da Naus, o visitante mineiro, Richard Mendes, servidor público federal, fala que em suas viagens pelo Brasil, não encontrou nada semelhante. Curioso sobre o tema das embarcações, Richard disse ter visto algo semelhante só em Portugal e lamenta a pouca divulgação do Museu das Naus. "Vim para Natal num pacote turístico. Achei os museus pouco divulgados. Percebi que há um apelo muito maior às praias da cidade, o que é uma pena, pois o que está exposto aqui é um trabalho brilhante", disse Richard.
Prédio que abrigaria museu está em ruínas No livro feito por João Maurício sobre a exposição do 4º centenário, além das fotos e outros registros sobre a exposição, também estava presente o projeto do museu, que seria instalado num prédio antigo da Ribeira, localizado na av. Duque de Caxias, esquina com a rua Olavo Bilac. "O prédio de mil e quatrocentos metros quadrados está hoje em ruínas. As estruturas de ferro estão sendo retiradas pela população. O prédio vai ser destruído em pouco tempo", disse João Maurício, que também quantificou o valor da obra. Para restaurar mais um dos prédios históricos de Natal, João Maurício calculou que seriam gastos cerca de R$ 250 mil reais. "O poder público não tem cultura. Os políticos não têm cultura. Você pode dizer aí, que essas foram as minhas palavras. Você sabe qual é a cultura dos políticos, não é?", disse João, com a voz serena, mas em desabafo. Por mais que as paredes erguidas pelo poder público fossem altas, não chegaram a represar o sonho do arquiteto visionário que, incentivado pela filha, acabou abrindo o Museu das Naus, que está em funcionamento há duas semanas.
Museu das Naus ainda não tem catálogo próprioO Museu das Naus que ainda não tem catálogo - pois, como afirma João Maurício, falta verba para elaboração - está aberto à visitação de terça ao sábado, das 10h às 16h. O valor de R$ 5,00 inteira e R$ 2,50 meia, cobrado na entrada do museu é usado para manter dois funcionários, que trabalham na segurança e auxiliando os visitantes. "A visitação ainda é pequena. Às vezes a gente fica paralisado, um olhando para cara do outro. É preciso que mais pessoas venham, para que o museu seja mantido por muito tempo", explicou João Maurício. O Museu das Naus fica na rua Princesa Isabel, número 438.
Legado registrado Arquiteto de formação e visionário de nascença, João Maurício deixou guardado em textos e fotos, dados que marcaram sua vida ao longo dos anos, como no caso de um desenho de Caravela portuguesa, feito quando ainda possuía 10 anos de idade. Estes Registros revelam o talento nato e a contribuição significativa que João Maurício representa para a cidade de Natal. Todo este material será divulgado no livro "Antes que a Memória se Apague", escrito pelo próprio João Maurício. O livro está em fase de revisão na EDUFRN e tem previsão para ser lançado em junho, durante a SBPC, que este ano será em Natal.
ServiçoMuseu das Naus. Dias de Visitação: de terça a sábado. Horário de visitação: 10h às 16h. Local: rua Princesa Isabel, número 438. Valor da entrada: R$ 5,00 inteira, e R$ 2,50 meia.