Náufragos são trazidos para Natal
Publicação: 19 de Maro de 2010 às 00:00
A viagem de volta no oceano Atlântico, saindo de Rochelle, na França, e chegando a Manaus, no Amazonas, parando nas principais ilhas da rota a bordo de um veleiro foi abortada e, se continuar, será com menos dois tripulantes. Isso porque na madrugada de quarta-feira, o barco onde estavam três franceses viajantes ficou encalhado no arrecifes de corais do Atol das Rocas, a 270 km de Natal, e teve que ser retirado com a ajuda da Marinha do Brasil. Com ferimentos leves, os tripulantes do veleiro estão bem e aportaram na Capital Potiguar ontem pela manhã.
O veleiro "Maia-Stella", tripulado por Michel Bachellerre, de 55 anos, o filho dele, Loic Bachellerre, 15, e mais a mulher Bernardette Bottacin, 54, bateu na rochas do arrecife por volta das 2h da madrugada da quarta-feira, provavelmente, devido a um problema no leme de vento, uma espécie de piloto automático da embarcação - a Capitânia dos Portos ainda vai investigar as causas do acidente. Em cerca de 15 minutos, devido à força das ondas e o choque com as pedras, o barco de aproximadamente 10 metros de comprimento já estava completamente destruído, o que obrigou os franceses a deixar o veleiro e se refugiar em cima do arrecife, em alto-mar, enquanto o socorro não chegava.
Antes de ver que realmente teriam que ficar em cima das pedras, os tripulantes ainda tentaram utilizar um bote-inflável para chegar em terra firme, contudo, ele teve o mesmo destino do veleiro, porém, mais rápido: bateu nas rochas e furou em aproximadamente cinco minutos. "Peguei apenas nossos passaportes, água, queijo e chouriço. Não sabíamos por quanto tempo iríamos ficar ali, em cima das pedras", contou, em francês, Michel.
Na verdade, a estadia nos arrecifes durou "apenas" algumas horas. No início da manhã da quarta-feira, uma equipe de pesquisadores do Atol das Rocas avistou os náufragos e os socorreu, antes mesmo da Marinha do Brasil chegar. "Nossa embarcação estava em Fernando de Noronha quando recebeu o pedido de socorro, emitido por um equipamento conhecido como IPIRB. Saímos em direção a eles, mas quando chegamos ao local, recebemos a informação que a tripulação já havia sido salva", afirmou o comandante da Corveta Caboclo, o capitão Marcos Simas.
Apesar de não ter ajudado no resgate dos franceses - que quando foram encontrados pelos marinheiros já haviam recebido os primeiros socorros, água e comida - foi a corveta quem os trouxe para Natal, onde os três ficarão por alguns dias, em férias. O Consulado Francês já se prontificou a dar apoio aos náufragos, que serão recebidos pela Polícia Federal para regularizarem a situação deles e poder ficar algum tempo no Brasil. "Ainda queremos conhecer a Amazônia mas, desta vez, vamos de avião, não velejo mais. Nem eu, nem Loic", afirmou, também em francês, Bernardette.
Francesa sofre ferimentos leves
Bernardette Bottacin é funcionária pública e foi a que sofreu mais ferimentos ao deixar o barco. Ela era a única acordada no momento da colisão do barco, mas na hora de subir nos arrecifes, ficou com a perna esquerda presa em uma corda do veleiro e acabou se ferindo bastante e precisando receber os primeiros socorros assim que chegou ao centro de pesquisa do Atol das Rocas - tinha vários hematomas e cortes de média profundidade na perna. "Pensei que fosse morrer. Sofri muito para sair do veleiro, estava já quase sem forças, mas não queria morrer ali, queria ver a minha mãe", afirmou Bernardette.
A mãe dela, uma senhora de 82 anos, inclusive, ainda não sabe que a filha passou por uma "aventura" como essa. "Não contamos ainda. Deixaremos para fazer isso apenas quando estivermos de volta a França e estiver tudo bem, para que ela não fique apreensiva", justificou ela.
Embora Bernardette não aceite mais viajar de barco, o companheiro dela, Michel, afirmou que aguarda só voltar a França para comprar um novo veleiro. Ele contou que em 13 anos de navegação, este foi o primeiro acidente náutico que sofreu. "Queremos conhecer Natal, ficar um tempo pelo Nordeste, ir até Fortaleza e, depois, visitar a Amazônia", planejou o francês que, junto com a família, deixou o país europeu em novembro de 2009 e, de lá para cá, esteve na Espanha, em Portugal, nas Ilhas Canárias, na Ilha da Madeira, em Cabo Verde, em Fernando de Noronha e, se dirigiam para o Ceará, se não tivessem naufragado. A Amazônia, eles esperavam conhecer em agosto deste ano. Seria o último ponto da viagem.
Área do Atol das Rocas é perigosa
Passar pelo Atol das Rocas, à noite, para quem não conhece a região é um grande risco, pelo menos, na avaliação da chefe da Reserva Ambiental da ilha, Maurizelia Brito Silva. "É uma área de difícil visualização e, no caso deles, ainda foi pior porque não conseguiram ver o farol devido às velas do próprio veleiro", contou a pesquisadora. Eles bateram na região Nordeste da ilha e, segundo Maurizélia Brito, poderiam não estar mais vivos caso tivesse colidido na região Oeste do Atol. "Lá, existem correntezas muito fortes e eles não resistiriam por muito tempo nesse local", afirmou.
Apesar de julgar a área como sendo "complicada", para a navegação, Maurizelia Brito contou que o último acidente de barco que viu no Alto foi em julho de 2003, quando um grupo de pescadores - é proibido pescar na região - se chocou com os arrecifes e teve que nadar até à praia.
A embarcação que levou os náufragos franceses para a Base Naval de Natal, no Alecrim, a corveta Caboclo, estava em alto mar desde o dia 24 de fevereiro. Ela faz trabalho de fiscalização a outros navios no litoral do Nordeste brasileiro. Conta com 57 tripulantes. O veleiro francês foi encaminhado por eles para a Capitânia dos Portos que vai averiguar o que realmente causou o acidente.