Nostalgia

Publicação: 24 de Março de 2013 às 00:00

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Cláudio Emerenciano - professor da UFRN

Há um bem, precioso, sonhado, buscado, acalentado no coração e na alma de cada homem. É coletivo. Não se compatibiliza nem se harmoniza com uma posse exclusiva, individual, preconceituosa e egoísta. É um estado de espírito coletivo, grupal, comunitário. Chama-se vida tranqüila. Nesse contexto a noite é uma companheira solidária, fiel, romântica, sedutora e paciente. É usufruto da tranqüilidade. Essa percepção contagiou gerações que viveram as noites do "Grande Ponto". Era o lugar central da cidade.  Era comparado à "Boca Maldita" (Curitiba), à Rua da Praia (Porto Alegre), ao Ponto Cem Réis (João Pessoa), à Praça do Ferreira (Fortaleza), à Praça do “Diário de Pernambuco” (Recife), à Cinelândia (Rio de Janeiro), à Praça da Sé (São Paulo) etc. Infelizmente cada um perdeu, com o passar dos tempos, a magia, a fascinação, os segredos, os hábitos e as peculiaridades. Culpa de quem? De ninguém. Constata-se, sem qualquer generosidade ou intransigência, que o tempo se encarregou de subtrair dessas áreas suas características anímicas, mais autênticas, mais originais, singulares e exóticas. Desfigurou-os e os despojou de fantasias, seduções e sentimentos.

Mas, com essa transformação, cidades brasileiras, que preservaram esse centro telúrico, mais de conteúdo humano, abdicaram uma substância agregadora, que Saint-Exupéry chamava de “Cidadela”. Aturdidas por um modelo urbano disseminado pelos meios de comunicação social. Especialmente a televisão. Há resistências. Alojam-se na cultura do povo. Naquilo que o povo quer, aspira, sente, ama, sonha e canta. É um fenômeno intemporal e universal. A alma popular é semelhante ao personagem de Shakespeare, Timon de Atenas: perseverante, crédulo, ingênuo, obstinado, cultor de valores de todos os tempos e tolerante. Eis um epílogo com a forma de hiato, aparente mudança ou falsa ruptura, que, na verdade, apenas preservam vivos seu espírito e seu sentido em outros âmbitos. O agregado, excepcional personagem de Machado de Assis em “Dom Casmurro”, tipo característico da vida provinciana, que se exauriu no século XX, principalmente a partir da década de 1930, ainda pode ser encontrado na paisagem interiorana de pequenas e médias cidades. Do mesmo modo que o Conselheiro Acácio, inimitável criação de Eça de Queiroz em “O Primo Basílio”, ainda hoje, com sua verborréia contumaz e perceptível mediocridade, pontifica na cena política de Portugal e do Brasil. É um traço marcante nessa espiral de mediocridade e descompromisso com valores, posturas, sonhos, ideais, opções e formas de viver cultivados no passado.  Mas, por outro lado, numa espécie de paradoxo, cessaram influências tradicionais, conservadoras e impermeáveis às mudanças, como as dos clérigos que visitavam e ceavam com a “Titi”, todos os dias, em “A Relíquia”, outra monumental revelação da vida provinciana de Lisboa no final do século XIX. Também expressão do gênio de Eça de Queiroz, revelando semelhanças originais entre o Brasil e Portugal e – sem dúvida alguma - vivas neste limiar de século e milênio. Apesar do fenômeno da “aldeia global”.

Por que falar nessas coisas? Suscitar reminiscências, que se julgavam reféns do passado ou peças da História? Apesar do que se diz como uma espécie de "verdade", elas sobrevivem latentes e disfarçadas na memória popular. Que alimenta sentimentos, vínculos e emoções. Que viu a cidade, exageradamente provinciana, pequena em tamanho e visão, sofrer metamorfoses a partir da década de 30. Antes mesmo da Guerra, quando os americanos aqui chegaram e difundiram, por sua vez, hábitos, preferências e tendências. Essa influencia americana não se sobrepôs ao que já era o espírito da cidade. Uma cidade –dizia Odilon Ribeiro Coutinho – de espírito talássico. Porque a urbe incorporou o que entendeu ser aceitável para si. Assim Natal foi a primeira cidade brasileira a abolir o formalismo do terno, da gravata e do chapéu, para usar camisa de manga curta. Mas resistiu à bermuda, que o americano tentara impor-lhe. Depois, subitamente, aceitou, consagrando-a definitivamente. Ruíram-se também preconceitos. 

 O propósito desta conversa, como certo livro de Charles Dickens ("Contos do Natal"), é interminável. Os mexericos natalenses, que fariam inveja à curiosidade bisbilhoteira de um Dâmaso (outro notável personagem de Eça da Queiroz em "A Capital", "Os Maias" e "A tragédia da Rua das Flores"), difundiram-se. Inspiraram anedotário. Motivaram crônicas. Também publicações anônimas, geralmente ferinas, intrigantes e até inescrupulosas. Foi antes da Guerra que Mermoz (amigo e aviador como Saint-Exupéry) percebeu que, aqui, configurava-se uma cidadela trepidante em sentimentos e sonhos, esperanças e angústias, mistérios e dúvidas, tão universais quanto os de todas as cidades do mundo. O provincianismo perdia suas “defesas”. Esgarçava-se  ante o ímpeto e a extensão de mudanças dos novos tempos. Assim hábitos e posturas mudaram. Mas o que foi passado, incrivelmente, está vivo agora dentro de todos nós...



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