O chapéu no reino do Seridó
Publicação: 08 de Maio de 2011 às 00:00
Até parece que foi influência do casamento da princesa Kate com o príncipe William, mas não é. Aquele mundão de chapéus de todos os feitios e extravagâncias nas cabeças de tantas mulheres elegantes e bonitas - e outras nem tanto - nada tem a ver com as pesquisas que o doutor Paulo Bezerra vem vaquejando há alguns pelos aceiros do Seridó de tão rica etnografia. Até porque o chapéu, no caso presente, é apetrecho que só aparece em cabeça de homem e além do mais o tema de sua carta começou a ser trabalhado bem antes do que aconteceu em Londres. Confira a história do chapéu em nossos sertões segundo consta na missiva do mestre Paulo Balá:
Até parece que foi influência do casamento da princesa Kate com o príncipe William, mas não é. Aquele mundão de chapéus de todos os feitios e extravagâncias nas cabeças de tantas mulheres elegantes e bonitas - e outras nem tanto - nada tem a ver com as pesquisas que o doutor Paulo Bezerra vem vaquejando há alguns pelos aceiros do Seridó de tão rica etnografia. Até porque o chapéu, no caso presente, é apetrecho que só aparece em cabeça de homem e além do mais o tema de sua carta começou a ser trabalhado bem antes do que aconteceu em Londres. Confira a história do chapéu em nossos sertões segundo consta na missiva do mestre Paulo Balá:
- Olha caboclo velho, eu alcancei o tempo no qual a maior parte do bicho homem andava com a cabeça coberta, como meu pai dizia que devera ser, muito embora o uso já declinasse entre os mais jovens, sobretudo aqueles das cidades. Você também viu aquelas eras. O homem só estava composto assim: de chapéu. Fala-se que essa palavra vem do francês antigo - 'chapel': peça usada para cobrir a cabeça protegendo-a do sol, da chuva ou do frio, e a lhe servir de enfeite -, e que o seu aparecimento data de milênios antes da era de Cristo. Foi o que escreveu.
- Porém, lá em nós, José de Azevedo Dantas (1890-1029) escreveu a um amigo "(...) sobre inscrições lapidares que acabava de averiguar em alguns rochedos das nossas serras, mas que não era uma descoberta minha (dele, José), pois nossos antepassados já falavam nessas letras feitas pela própria natureza ou pelo Divino Mestre quando andou pelo Mundo, se assim é que foram elas gravadas com o dedo da natureza na rocha". E, a esmiuçar encontrou, andando a pé e a cavalo, uma quantidade imensa de inscrições rupestres, passando a copiá-las a lápis, tanto no Acari, quando em Carnaúba dos Dantas, Picuí, Jardim do Seridó e noutros lugares mais, em áreas - ele a anotou -, drenadas pelo Rio Seridó e seus afluentes, batizadas com o nome de Grande Tradição Itaquatiara que, sob essa denominação, reúne inscrições rupestres do Nordeste.
- Autodidata, de inteligência rara, morreu tísico, muito novo e muito pobre, deixando escrito o seu entendimento de algumas imagens das inúmeras por ele copiadas: "É de curiosa significação reconhecer-se através destes vestígios que essas gentes (...) já usassem vestimentas embora de um uso (...) esquisito: - túnicas e calções (...) com gorro (...) posto na cabeça, havendo, entretanto, ligeira diferença de uso entre os sexos". Em parágrafo seguinte fala em (...) "compridas e estreitas faixas (...) presas (...) ao capacete, (...) era um patriarca ou chefe de tribo". As inscrições nas rochas indicam, anotou o notável carnaubense -Acary, fevereiro de 1925 -, que uma raça primitiva gravara sua existência através das "pinturas" e dos "letreiros" em baixo relevo, espalhados pelos sertões do Seridó. As suas observações reunidas em livro - "Indícios de uma Civilização Antiqüíssima" - foram publicados pelo Conselho Estadual de Cultura da Paraíba, em 1994.
- Em retratos amarelados pelo tempo é de se notar a presença do chapéu em homem de todas as idades e, até na pia batismal, toucas em meninos e meninas levados ali para receber o sacramento. O tempo sacudiu em minhas mãos para ser guardado com zelo, flagrantes dessa verdade. I - Fotografia de 1900 (?), tirada da calçada da Cadeia Pública e Intendência Municipal de Acari, mostrando o meu parente Zé Matias amarrado pelos pulsos, cercado de 50 pessoas, homens em sua maioria com chapéus de couro de aba larga, e uma porção de meninos e, entre tantos, poucos sem chapéu. II - 4.7.908 - Juvenal Lamartine sentado e ao seu lado o filho Olavo, em pé, bem vestidos e de chapéu, em Bilhete Postal a Silvina, esposa e mãe. III - Século 20, primeiros anos. Festa de arromba em Acari, um grupo de 13, solenemente vestidos: paletó, gravata pendente ao peito, gravata de laço, flor na lapela, colarinho duro, colete, bengala, bota lustrosa. Um só tem bigode. Um só sem chapéu. Era a nata da terra, os nomes do amanhã. IV - De 1914, em Serra Negra do Norte, retrato da banda de música local, com 16 componentes, onde meu pai tocava contrabaixo. Apenas 3 estavam sem chapéu.
- O chapéu de massa resistiu até meados do século passado. Do meu tio-avô falecido em 1920, guardo um em ótimo estado e, do meu avô paterno, morto em 1937, tenho outro demonstrando muito uso. E quando o meu irmão morreu em 1940, dentro da mala que trazia os seus pertences do Recife, estava o seu chapéu de massa cinza, era o costume de um tempo quando até foi moda. Hoje o seu uso está em queda livre, num desembesto, de cabeça abaixo. As lojas de tecido do sertão fecharam e era nelas onde o cidadão achava chapéu à venda, guardado em caixa redonda de papelão com um letreiro: Ramenzoni. Com a peça de cobrir a cabeça tem nomes diversos: boina, bibico, boné, casquete, gorro, quepe, touca e tantos outros menos comuns.
- A palha trouxe o chapéu, peça importante para proteger o sertanejo do sol claro e quente. Saudável, arejado e leve, encontra-se em toda feita a baixo custo sendo que lhe estraga a fibra o suor, o sol e a chuva, tornando-o pouco durável. As apanhadoras de algodão (veja que isso foi em tempos que já vão distante!) usava os de aba larga para melhor proteção do corpo. De uma carga de gente em cima de um caminhão, o vento levou o chapéu de um passageiro. Um freguês bateu na cabine de aço pedindo parada para o companheiro ir apanhar o chapéu, mas este, entusiasmado, soltou o desabafo: "Eu só quero quem me quer". E de uma cantiga nos primórdios da mina do Dr. Tomás: "Chapéu de pai / apragata de correia / ai meu Deus que coisa feia / ter dinheiro e não luxar".
- O couro, como resultante da criação de gado nos sertões, deu origem a um ciclo do qual saíram homens diligentes tratando, trabalhando e dando feição nova ao couro, no universo do vaqueiro: o couro cru, dando origem à corda de laçar torcida, teve um mestre em Luís Apragata de Cruzeta; o velho Severino dos Angicos foi feitor maior de arção e de sela; outros se fizeram artistas da arte de cortar e costurar roupa de couro curtido de bode, e mais os fabricantes de chapéu que nem Paulino Chapeleiro de Jardim do Seridó, deixaram uma obra de arte de imensa serventia.
- O chapéu se fez até coroa na cabeça de Luís Gonzaga e na sua copa invertida se despeja água para matar a sede do vaqueiro. José Bezerra Gomes (1911-1982) em "Por que não se casa Doutor?", romance de 1938, alude: "Ando sem rumo e não sei onde deixei o chapéu" e noutra quadra: "- E o chapéu, doutor? Um doutor não deve andar sem chapéu..."
- O boné está mais presente nos sertões e por simples razão: é que com a propaganda de eventos diversos, vaquejadas, carnaval fora de época, festa religiosa, reclame de casa comercial e tudo mais, é dado de graça e se, por acaso, o cidadão quiser comprar dos que estão à venda, seu custo é baixo. Mas em a desvantagem de durar pouco e, do sol, só proteger o rosto. Em compensação campeia em tudo quando é canto.
- Então, como a conversa acabou, me dê meu chapéu que eu já vou m'embora.
Troca Tapa, 23 de abril de 2011.
Paulo Bezerra