O mais além do coração
Publicação: 12 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Carmen Vasconcelos - Poeta
"Pois nosso coração nos ultrapassa ainda como outrora e é impossível saciá-lo com figuras apaziguantes ou em corpos divinos que, imensos, o moderam"
Rainer Maria Rilke
Há amores que (se pudéssemos, gritaríamos, mas, se gritássemos, nos ouviria alguém?) o pudor nos impede de alardear. Não sei ler em alemão (que dirá filosofar), não li toda a obra do poeta Rilke, por isso tenho pudor de dizer que sou Rilkeana. Bem que gostaria de entender profundamente sua poesia, bem que gostaria de ter mais abalizadas, mas o que li pelo menos me autoriza a me dizer amante. O amor é mais atrevido que o pensamento, não precisa de organização, nem de conclusões intelectuais. Eu amo. Amo principalmente as "Elegias de Duíno". Concedo que não recebi toda a carga poética das "Elegias...", por ler apenas traduções, nas quais algo sempre se perde. Mas, também, se elas "me tomassem em seu coração, aniquilar-me-iam com sua existência demasiado forte". Aliás, sinto-me tomada quando as leio e isso já é demasiado forte.
O poeta Rainer Maria Rilke escreveu as "Elegias de Duíno", um conjunto de dez poemas, em poucos dias, hospedado em castelo de uma amiga. Engendrou nesses dias uma concentração de força poética difícil de ser encontrada em obras de arte. Uma das imagens poéticas que mais me tocam, toda vez que leio esses poemas, é a do coração como um ser autônomo, embora dentro, como se separado de nós, nos ultrapassando, nos surpreendendo, indo além.
Já repeti não sei quantas vezes aqui mesmo essa imagem e minha fascinação por ela. Rilke também a repete ao longo das "Elegias..." a imagem do coração ultrapassando-nos. Acredito nela, ouso dizer, como ele acreditava. Sigo o caminho traçado por ele. E estou sempre descobrindo novos significados para essa metáfora. Agora, lendo de novo, deparei-me com os versos citados na epígrafe deste texto e lembrei de uma conversa com uma amiga há poucos dias. Eu e ela nos encontramos duas ou três vezes por ano e raramente nos falamos, mesmo por internet. Mas nossos encontros sempre são intensos, alegres, alentadores diante das inevitáveis tristezas da vida.
Quando nos encontramos, atualizamos uma para a outra as nossas histórias até então. Fazemos, não um resumo de acontecimentos, mas falamos o suficiente sobre fatos, porque nos importa mais conversar sobre o aprendizado consequente.
Na conversa que tivemos outro dia, falávamos exatamente do quanto certos corações exigem para serem apaziguados e de como, mesmo apaziguados, não perdem nunca a fissura do arrojo. Volta e meia estão "mais além", usando uma expressão cara a Octavio Paz, outro dos meus poetas amados.
E vi esses dias uma entrevista de Ângela RoRô, na qual ela dizia: "A vovó aqui ainda está selvagem". Ela sabe que não cessou a inquietude de antes. Deve sentir isso, por mais apaziguada que esteja.
É o coração ultrapassando. Ainda como outrora. Sempre.