O Papa é pop

Publicação: 24 de Fevereiro de 2013 às 00:00

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Claro que a renúncia de Bento 16 também tomou conta das conversas – e até preocupações – da gente do Jalapão, cerrados nobres do Tocantins, onde vive há alguns anos o doutor Florentino Vereda - botânico laureado em universidades norte-americanas e europeias por conta de suas pesquisas sobre a flora dos vários biomas brasileiros -, como já se disse aqui várias vezes. Vereda,  recolhido à sua casa na Prainha da Cachoeira Velha, um dos recantos mais encantadores do Jalapão, rodeada de mata virgem, acompanha atentamente o episódio acontecido e desdobrado no Vaticano. Como colaborador desta coluna resolveu juntar num artigo algumas reflexões suas sobre o gesto do cardeal Joseph Ratzinger. Seu texto me chegou noite de quarta-feira, quando o Grêmio  acabava de fazer o seu terceiro gol no Fluminense. Vai na íntegra:

“Afaste de mim este cálice, vai”
Irritado, Bento XVI recusou a taça de Galiotto que o mordomo lhe servira. Em verdade, ele não gosta desse novo serviçal. Desde que o moço (não tão moço assim) não se usam mais os guardanapos de linho grego, troados pelos de papel, acessórios que jamais entraram na casa dos Ratzinger, gente pobre, mas orgulhosa. O anterior – que demonstrou ser bucho-furado – pelo menos tinha classe. Para evitar novos vazamentos contrataram um analfabeto que não sabe distinguir a diferença entre “Chateneuf du Pape” e um “Dom Bosco”. Certamente nunca ouviu uma palestra de Renato Machado.

O cardeal Betone alega necessidade de contenção de despesas, mas Sua Santidade desconfia que haja algo de pessoal. Ele nunca foi aceito pela bancada italiana. O fato é que, desde que a crise se instalou na Europa, a grana vem escasseando no Vaticano. A redução do número de católicos em todo o mundo representou uma queda enorme no faturamento da Santa Madre. Colégios católicos, que contribuíam com vultosas somas de dinheiro, acumulam prejuízos e começam a ser fechados. O Banco do Vaticano, tal como os demais bancos europeus, bem que tentou abrir uma filial no Brasil, aproveitando-se do fato de que a fiscalização é menos rígida.

Talvez isto explique por que o Brasil é o único país em que os bancos ainda estão bombando. Mas, por aqui já reina o Bradesco, que tem a sua própria “Cidade de Deus”. E há também uma concorrência feroz dos evangélicos, que não pretendem dividir o mercado, justo agora que as suas registradoras – milagrosamente – estão tilintando alegremente. Sem falar na burocracia estatal, que desestimula a instalação de qualquer negócio, por menor que seja. Já lá se vão quase dois anos que o  Banco Central recebeu o pedido e até agora não saiu a autorização. O processo não anda ou por que um funcionário foi a uma missa de sétimo dia, ou porque foi ponto facultativo ou apagão. Desculpas existem, de todos os tipos. Disseram que depois do carnaval, por fim, sairia. Vamos ver. Reza é o que não falta.

Sozinho no imenso castelo, Joseph Ratzinger, Doutor em Teologia, pensa no destino que o fez, ao final da vida, ter que administrar as finanças da Santa Sé, como se fosse o presidente de uma multinacional. Além do mais, desculpar-se por erros que outros cometeram desde quase dois mil anos até hoje. Nunca foi de correr da raia, mas a ideia de jogar a toalha cada dia mais lhe assalta o pensamento.

Por fim, numa segunda-feira de carnaval, decide-se e anuncia ao mundo que cai fora. No carnaval todas as loucuras são aceitáveis, mas ele alega razões de saúde. Argumento forte e indiscutível. Todos veem no seu semblante as marcas do cansaço físico e espiritual. Estranhamente, porém, no dia seguinte surge um novo Ratzinger. Alegre, e descontraído, extrai risadas do sisudo clero romano. Não mais a imagem do abatido, quase derrotado pastor, mas o semblante de quem, levado pelas circunstâncias a um ato extremo, descobre um novo caminho, dá uma guinada na vida e segue triunfante. Declara, resolutamente que a partir de agora quer “esconder-se do mundo”.

Não há porque censurá-lo. Qualquer um de nós gostaria de fazer o mesmo. Viver sem a necessidade de mudar nada, a não ser o disco da vitrola. A partir de março, sua ex-santidade – ‘novamente humana e falível’ poderá sentar-se à frente do piano e tocar Mozart e Bach, como nos seus tempos de adolescente em “Aaschau am Inn” na Bavária. Livre para caminhar descalço pela grama, sentir o cheiro da terra e da chuva, quem sabe, fundará uma nova comunidade e convidará Fidel Castro. Hugo Chávez, Sarney, e outros tantos que também gostariam de largar tudo e viver em paz, longe da ribalta e dos holofotes.
Espero que haja um lugar para  mim .”

Via Sacra
Remexendo nos papéis desarrumados, cartas, cartões, bilhetes, recortes de jornais, anotações, encontro um cartão de Leopoldo Nelson (25/10/1940-04/03/1994), manuscrito, datado de 28 de março de 1989. Pintor, desenhista, poeta,  médico, professor de medicina, Leopoldo escreveu assim:

“Caro Woden,

Vi o anúncio da inauguração do Museu de Arte Sacra na TV. Parabéns. Uma sugestão: por que o museu não recupera a minha “Via Sacra” que está na Cúria bastante danificada? Me parece que o atual Arcebispo achou ela muito “progressista” e vai colocá-la nos porões da Catedral Nova. Uma ideia, talvez interessante.

Um abraço

Leopoldo Nelson”.

Vale a pergunta que faço agora: Por onde anda a Via Sacra que Leopoldo pintou inspirado no Evangelho de  São Mateus? Um conjunto de 15 telas que foram adquiridas no Governo Cortez Pereira e doadas à Arquidiocese. Foram restauradas? Onde estão expostas. Trata-se de  uma obra magnífica.

Lendo o seu bilhete, reparo que no dia 4 de março que se aproxima é o aniversário da morte deste grande artista. Lá se vão 19 anos. Leopoldo viveu intensamente 53 anos. Ele dizia: “Eu sou um poeta barroco. Não me interessam nem escolas nem modismos em poesia. A alma do mundo atual é barroca – apesar do avanço da técnica e da ciência”

Saudades das noitadas deliciosas na casa luminosa (luminosas manhãs por que tanta luz?) da rua das Margaridas.

Poesia
Não bastassem a rede limpa, / os chocalhos balindo no curral, / e a casa ressonando ao capim santo / dos baús que nem existem mais;/  de uma réstia de caibro / o vento  vendo e vindo fustigar / as molduras de cem anos atrás. / Não bastasse a memória/ passear nos rebocos, / propondo sobre a cal velhos perfis, / baixa, então, uma benção: / às três horas exatas chega a chuva / e tudo envolve / em papelim de sonho, / num sono antigo de debulha leda. ( De Virgílio Maia, poeta cearense nascido nas ribeiras do Jaguaribe, em “Sete Chuvas Para Meu Pai”).


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