Brasília (ABr) - Poluição, no dicionário Aurélio, é o "ato ou efeito de poluir". Porém, o mesmo substantivo feminino tem outras definições que vão muito além das citadas pelo dicionário, quando a situação está relacionada com a poluição nos grandes centros urbanos, e a maior vítima é a população. Uma experiência realizada com 228 pessoas que frequentemente passam pelo vão livre do Museu de Arte Moderna (Masp), em São Paulo, 4% delas apresentaram um índice de comprometimento pulmonar semelhante a de um tabagista, segundo estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e divulgado na sexta-feira.
Júnior Santos
Os transportes de massa, que emitem gás carbônico, são os maiores poluidores das cidades do Brasil
O professor e coordenador do Laboratório de Poluição Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Hilário Saldiva, disse que uma experiência que fez para medir a poluição em sua sala na faculdade de Medicina durante 24 horas, constatou que o volume de partículas poluentes absorvido pelos pulmões é semelhante ao de dois cigarros.
"Mesmo sem querer, eu fumo dois cigarros por dia. A poluição faz todo mundo fumar, inclusive aqueles que não podem, como as gestantes e os asmáticos", explicou. "E alguns fumam mais, como motoristas de ônibus e fiscais de trânsito, que ficam mais expostos poluição". O estudo mostrou ainda que 70% das pessoas da amostra apresentaram de 1 a 6 partes por milhão de monóxido de carbono.
O professor informou ainda que o índice de poluição máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 25 miligrama (mg) por metro cúbico (m3). "No corredor de ônibus da Avenida Nove de Julho (na capital paulista), este índice pode chegar a 140 mg por metro cúbico, é um verdadeiro laboratório de intoxicação humana", afirmou.
De acordo com Saldiva, os estudos realizados no sistema de saúde comprovam os danos da poluição. Segundo ele, a cada 100 crianças internadas com problemas respiratórios como bronquite e pneumonia, por exemplo, 16 são em decorrência da poluição. "Em cada dez casos de infarto, um é por causa da poluição. E a cada 100 casos de câncer de pulmão, oito são consequência da poluição", disse.
O professor explicou ainda que as pessoas que vivem nas grandes cidades são as mais prejudicadas pela poluição do que as de cidades pequenas. E destas, a parte mais pobre são as que sofrem mais. "Eles não ficam mais protegidos da poluição em carros com ar-condicionado. Muito pelo contrário, enquanto esperam o ônibus estão cada vez mais expostos. Isso é o que chamo de desigualdade ambiental", afirmou.
O professor ressaltou que não há tratamento para o ar como existe para água, e que várias atitudes podem melhorar a saúde da população, como o de investir em transporte público e reduzir os índices de poluição causada por veículos automotores. "Além de adotar um diesel menos poluente, como o S10 (menos teor de enxofre), podemos usar os motores com diesel com catalisador", explicou.
Para o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Antonio Carlos Palandri Chagas, a poluição afeta primordialmente os sistemas cardiovasculares e respiratórios. "Primeiro ela altera a capacidade respiratória e, consequentemente, a circulação. À medida que a circulação vai se alterando, prejudica a capacidade do coração de bombear o sangue, desencadeando uma série de problemas", disse.
Geoengenharia ganha importânciaLondres (BBC) - Se você ainda não ouviu falar em geoengenharia, preste atenção: a palavra deve ganhar cada vez mais espaço nos noticiários e significa projetos de tecnologias para manipular o clima do planeta. Técnicas como injeção de dióxido de enxofre ou cinzas na atmosfera ou até mesmo a dispersão de espelhos no espaço - tudo com o objetivo de reduzir a temperatura do planeta. Métodos como estes, de administração da radiação solar, de eficácia praticamente garantida.
O que não se sabe é quais outras consequências eles teriam sobre o meio ambiente. A injeção de dióxido de enxofre, para "semear" nuvens, ou de cinzas, também para refletir a luz solar, são métodos usados pela natureza desde que o planeta roda - é o que faz a atividade vulcânica. A diferença é que elas acontecem muito esporadicamente.
É mais ou menos consenso na comunidade científica que a única forma de realmente saber o que aconteceria com a Terra se esse tipo de manipulação fosse aplicada é testá-las para valer, ou seja, usar o nosso planeta como cobaia. Coisa que a cautela até agora proibiu. Essas ideias ficam, pelo menos até agora, como último recurso para o dia em que a tal catástrofe climática mostrar todas as suas garras.
Mas existem outros métodos, entre eles, a fertilização dos oceanos para estimular a absorção de dióxido de carbono (CO2), criar navios que pulverizem água dos oceanos na atmosfera constantemente, instalar tubos que facilitem a circulação de calor entre a atmosfera e o fundo do mar, cobrir a superfície de desertos com espelhos que ainda gerariam energia solar... Mas também existem projetos de geoengenharia menos bombásticos (embora menos eficazes), como CCS, a sigla em inglês para Captura e Armazenamento de Carbono.
A tecnologia capaz de sequestrar todo o CO2 de, por exemplo, uma usina termelétrica a carvão e enterrá-lo, é vista por muitos como o Santo Graal dos tempos de mudanças climáticas. O problema é que só existem protótipos de CCS no mundo, e os mais otimistas dizem que ainda faltam anos para a tecnologia ser viável.