Maria Betânia Monteiro - Repórter
Assim como o mar, o disco "Quando o Canto é Reza" também é o conjunto de águas doces e salgadas, veladoras dos ritmos e da natureza (também humana). Resultado da parceria entre a potiguar Roberta Sá e o carioca Trio Madeira Brasil, o CD lançado pela Universal Music traz um olhar ciliar sobre as canções de Roque Ferreira, compositor e cantador do Recôncavo Baiano. Nas lojas desde ontem, o CD contém 13 faixas vividas pelos músicos Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker, Ronaldo do Bandolim, Zero, Paulino Dias e Roberta Sá, que segundo Marcelo Gonçalves, empresta a voz para dar relevo, tanto à poesia de Roque, quanto aos arranjos musicais. "A idéia é que este fosse um disco de banda. Não só de um, nem de outro. Mas meio a meio. A voz de Roberta acaba cumprindo esta função", disse Marcelo em entrevista por telefone ao VIVER.
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Roberta Sá lança novo disco "Quando o Canto é Reza" com canções de Roque Ferreira, compositor e cantador do Recôncavo Baiano
Roberta Sá também concorda. "Este é um disco de grupo, onde assumimos uma postura diferente", disse Roberta. O fato de ser um trabalho em conjunto e dedicado ao universo de Roque Ferreira, exigiu de Roberta mais vigor e mais clareza na reprodução dos sons. "O disco não é como os outros, suava. É mais vigoroso. Visceral", traduziu Roberta.
E vigor é o que não poderia faltar aos músicos quando escolheram cantar Roque Ferreira. Sua obra está calcada no samba-de-roda que brotou no Recôncavo Baiano. Sem dispensar eventualmente o toque do Ijexá e a levada do coco, as músicas de Roque são belos cartões-postais da Bahia. Em total sintonia com o ritmo, as letras de seus sambas evocam os signos da fé afro-brasileira, recorrendo com freqüência aos orixás do Candomblé e ao sincretismo baiano. "O disco fala muito do sincretismo e dos encontros. Do canto: de quanto o canto é reza. E da reza: para a Deusa Música e para o Roque Ferreira", disse Roberta.
Diante de 400 canções compostas por Roque, Roberta Sá conta que a definição do repertório aconteceu com tranqüilidade. Ela revela que ao iniciar a pesquisa para o repertório de seu segundo disco, deparou-se com a obra do baiano, que em seguida lhe enviou um CD, contendo 20 canções. Deste CD nasceu Quando o Canto é Reza. Segundo Roberta, a idéia inicial era fazer um disco só com músicas inéditas, mas a decisão foi ganhando novos rumos.
Na busca pelo repertório, Roberta Sá e Marcello Gonçalves foram ao encontro de Roque Ferreira em Salvador, no ano passado. De lá partiram para Nazaré das Farinhas, cidade natal do compositor, no Recôncavo Baiano, aonde o próprio Roque não ia desde os 10 anos, quando mudou-se para a capital.
Depois de três anos de pesquisas e da viagem, Roberta Sá e o Trio Madeira Brasil experimentaram o repertório em quatro antológicos ensaios abertos, realizados em janeiro de 2010 no Centro Cultural Carioca. Foi a partir destes ensaios, que o grupo decidiu incluir as cinco músicas que haviam sido gravadas, mas com versões diferentes.
Com produção de Pedro Luís e direção musical de Marcello Gonçalves, "Quando o Canto É Reza" abre espaço para a música instrumental, bem equilibrada com a voz de Roberta Sá. O álbum tem participação especial de Moyseis Marques, em duo com Roberta na faixa "Tô Fora", e traz sucessos de Roque em versões bem diferentes das originais, como Água da Minha Sede, que deu nome a um dos discos de Zeca Pagodinho, e Mandingo, parceria do compositor com Pedro Luís gravada por Pedro Luís e A Parede no CD "Ponto Enredo".
"Quando o Canto É Reza" passeia por diferentes ritmos, como coco, maxixe, samba carioca, maracatu, ijexá, ciranda, afoxé, samba-choro e samba-de-roda. O disco, que transita com delicadeza entre a música popular e a erudita, também desvenda a alegria de Roque Ferreira e o rico repertório de temas que suas letras ilustram. "Apostamos na mistura de ritmos. Mas não se trata da reprodução do Roque, é uma releitura de sua obra, a partir de olhares apaixonados", disse Roberta.
Além do seu, o olhar dos cariocas sobre a obra de Roque Ferreira acabou se tornando um desafio para o Trio Madeira Brasil, tradicionalmente composto por instrumentos de corda como violão e a viola. Para dar sonoridade ao coco, maxixe, samba carioca, maracatu, ijexá e demais ritmos; Marcelo, Zé e Ronaldo convidaram os percussionista Zero e Paulino que trouxeram afuxés, agogôs, atabaques, blocks, bongôs, caixas, caixetas, caxixis, congas, flexatones, ganzás, guizos, moringas, ovinhos, pandeiros, pandeirões, pratos-faca, queixadas, surdos, tambores, tamborins, tan-tans, timbais, triângulos, vibratones, xequerês, alfaias, chic-chics dentre alguns outros instrumentos. "O interessante do projeto é colocar o nosso som numa coisa que ainda não tínhamos tocado", disse Marcelo Gonçalves.
Maresia nordestinaApesar do sotaque carioca, Roberta revela que o fato de ter nascido no nordeste fez diferença no seu percurso. "Sempre digo que ser nordestina, independente de qualquer coisa, me garantiu uma riqueza musical muito grande". E o fato de dar a voz ao Coco, ao Maracatu e a outros ritmos difundidos no Nordeste fez com que a cantora revivesse parte de sua infância. Infância banhada por águas salgadas, valentes e em movimento, assim como a própria Roberta, que diz querer reinventar-se em cada novo trabalho. "Tenho vontade é de me encontrar com a geração criativa que está viva no planeta Terra e mostrar visões diferentes da música. Quero experimentar".