O foco das empresas no terceiro setor está deixando de ser uma moda, onde o objetivo é fazer o marketing social, e passa a ganhar um papel de consciência sobre a própria responsabilidade da empresa. A análise é do presidente do Instituto C&A, Paulo Castro. Ele fala com a autoridade de quem comanda uma entidade que está há 18 anos no mercado e com o trabalho voltado para educação. "Se no primeiro momento foi moda, diria que hoje, cada vez mais presente, a sociedade tem a expectativa de que a empresa compreenda qual seu papel. Então, eu diria que isso passa a não ter mais na dimensão do governo, está presente na dimensão de qual é o papel da empresa na participação junto a comunidade", observa Paulo Castro. Entre as 123 empresas cadastradas na associação que congrega as instituições do terceiro setor, 85% delas têm o trabalho na educação. Mas Paulo Castro ressalta que também há um significativo número de instituições que já se voltam para a inserção de jovens no mercado de trabalho. O convidado de hoje do 3 por 4, é um especialista em terceiro setor. Um cidadão que se empolga em falar da responsabilidade da empresa e é otimista ao visualizar, no futuro, o consumidor consciente.
Com vocês, Paulo Castro.
Marcelo Barroso
Paulo Castro, presidente do Instituto C&A
Qual a análise que o senhor faz do terceiro setor no Brasil?Diria que o terceiro setor, principalmente sob a perspectiva da participação das empresas, na verdade, tem uma entrada mais presente das empresas a partir da década de 90, quando se refere ao investimento privado, é algo ainda em consolidação. Certamente, a partir da segunda metade da década de 90 você vê uma maior participação das empresas a partir das suas fundações. Só para ter ideia, a organização que congrega os institutos e fundações no Brasil, chama Gif, tem apenas 14 anos de existência e hoje reúne 123 de fundações e empresas. Esse é um movimento em consolidação. Há alguns avanços e destaco pelo menos dois: vejo comunicação, principais diários, veículos, dão espaço que cobrem o tema e despertam atenção; outro aspecto é que as universidades começaram a desenvolver núcleos para o terceiro setor. Voltando a pergunta, esse setor está em aprimoramento, desenvolvimento, é algo que veio para ficar.
O senhor concordaria com a afirmação de que muitas empresas financiaram o terceiro setor como uma moda?Concordo com você, mas esse movimento se no primeiro momento foi moda, diria que hoje, cada vez mais presente, a sociedade tem a expectativa de que a empresa compreenda qual seu papel. Então, eu diria que isso passa a não ter mais na dimensão do governo, está presente na dimensão de qual é o papel da empresa na participação junto a comunidade.
Até que ponto o trabalho de uma empresa no terceiro setor está na responsabilidade dela ou no interesse de fazer marketing com a ação social?Essa também é uma boa questão que você levanta. Quando eu comentava que existe um processo de amadurecimento, ele (o processo de amadurecimento) passa pela compreensão. As empresas e as organizações que estão mais adiantadas compreendem o investimento social privado dentro de um conjunto de ações da empresa, que passa pela sua relação com o consumidor, que passa pelo seu produto produzido em relação a cadeia produtiva. Aí se faz presente sua relação com a comunidade. A empresa que trabalha só na dimensão de usar o instrumento social como estratégia de marketing está subestimando a capacidade crítica da sociedade, dos meios de comunicação, da opinião do cidadão comum. Ao longo do percurso esse cidadão começa a ficar mais crítico sobre quais as motivações que levam uma empresa A, B ou C na situação social.
Com relação ao consumidor até que ponto influencia na escolha de compra ele saber que a empresa atua com trabalho social?Existe um movimento no Brasil que vem ganhando corpo, que é o movimento do consumo consciente. É aquele que começa a percorrer na sua lista alguma preocupação: esse produto foi produzido em situação digna, esse produto ele efetivamente é de uma empresa que tem compromisso com sua área social. Essa é uma área ainda incipiente. As pesquisas do instituto Acatu apontam que existe uma preocupação, mas ainda não está entre os três ou quatro elementos de decisão do processo de compra do consumidor. Agora veja, que esse é um movimento que vem crescendo e em algum momento ele passará, se compararmos aos outros com a qualidade, com o preço, mas também com a condição socioeconômica que aquele serviço é produzido e se a empresa efetivamente está comprometida com toda sua política de responsabilidade social e também nas suas iniciativas de projetos na área social.
Ou seja, dá para acreditar em um consumidor consciente a médio prazo?Dá para acreditar porque nós temos um movimento ainda que é um desafio, mas que hoje nós temos um processo de universalização da educação, que é algo novo. Hoje nosso grande desafio se refere a qualidade da educação e temos um entendimento que um investimento cada vez maior na educação vai propiciar não apenas um consumidor mais consciente, mas um cidadão mais consciente.
Isso passa pela escola?Isso passa mesmo pela escola. Ela (a escola) tem um papel preponderante, fundamental. Ela tem um papel decisivo, por isso que o instituto C &A tomou a decisão de eleger a educação como fator preponderante para o desenvolvimento de uma cidade, de um país. Não que a educação seja uma panaceia, mas a solução passa obrigatoriamente pela educação.
Educação seria hoje a principal bandeira do terceiro setor?Diria que é a principal. Voltando as 123 organizações que congregam a associação das entidades do terceiro setor, 85% orienta os seus investimentos na área de educação. Um outro tema que também vem crescendo é a inserção do jovem no mundo do trabalho. De que forma se cria estratégia de inserção desse jovem no mundo do trabalho? Aí também se faz presente a necessidade da escolarização desse jovem nos anos anteriores. Mas hoje a educação no conjunto dos investidores que atuam na área, ela é o primeiro tema, quer seja criança, quer seja educação de jovens.
Qual o perfil da empresa que atua no terceiro setor? É apenas aquela com maior rentabilidade financeira?Ainda é um perfil de grandes empresas, mas há um campo de possibilidade de atuação de pequenas e médias empresas. Elas (as pequenas e médias empresas) são as que empregam no Brasil, 80% do mercado de trabalho está localizado nas pequenas empresas e médias, que têm papel decisivo na nossa sociedade. Mas já há um movimento no setor, via diálogo com a federação das indústrias, via associações comerciais no sentido de apoiar pequenas e médias empresas no desenvolvimento. As vezes é através de um pool. Se eu não posso apoiar sozinho por que não pensar em um pool de empresas que possam se unir no sentido de desenvolver e apoiar um projeto social. Essa é uma alternativa.
O Instituto C&A chega a "maioridade" com 18 anos. Como o senhor avalia o trabalho desenvolvido?Primeiro eu destacaria a empresa no processo. Foi preponderante pela melhor compreensão do seu papel enquanto empresa, de que forma a C&A, através do instituto, pode apoiar organizações sociais, lideranças, no que concerne o aprimoramento no processo educativo. Trabalhamos o aprendizado no contexto brasileiro. Nesses 18 anos o convívio com organizações nos possibilitou muito arejamento. E a contribuição no cenário, já que é uma das pioneiras no processo, construímos organizações que apoiamos do ponto de vista de ampliar o debate sobre o papel da empresa na área social.