O velho Graça, por Newton Navarro

Publicação: 20 de Março de 2013 às 09:46

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A morte do velho Graciliano Ramos desalenta todo o rumor dessa tarde que vai lá fora tão ruidosa e tão feliz. Diminui a paisagem, diminui os homens, e fere profundamente o coração de qualquer um que prese em seu silêncio de homem a sua dignidade e a sua liberdade. Diminui tanta e tão fortemente esse nosso pobre Brasil de aventureiros e cavilosos, porque na realidade dolorosa desta tarde perdemos um pouco do nosso civismo e da nossa coragem, de ainda falar alto numa terra de gabinetes. Diminuímos em muita coisa. Mais, diminuímos em sacrifício sobretudo: em renúncia, em abnegação, em constância. 

A morte do velho Graça por tantas coisas mais nos deixa profundamente comovidos. Verdade que esperávamos a partida do homem valioso que sempre foi, a qualquer instante; o mal que lhe roía a vida a todo momento poderia vencer o sítio a que impôs por tanto tempo o seu fabuloso coração, tão irredutível em defesa dos direitos de todos; mas nem por isso nem pela quase certeza de que a todo minuto pudéssemos ter diante dos olhos marejados a notícia do fim, nem por isso deixarmos de ter confiança em sua vida e em seu exemplo. Poderão dizer nesta hora que ele foi um comunista, não olho o seu credo, olho no homem morto o exemplo enorme da coragem de sua vida e isto já é muita coisa, para que mereça um homem o elogio dos seus contemporâneos, numa terra, principalmente numa terra como a nossa em que se dá tanto valor ao capacho e a curvatura.

Mas não devo dizer nada contra seus inimigos nesta hora. Sinto apenas o silêncio da tarde que se tornou pesado e triste. E lembro o homem bom que sempre foi o velho Graça e não apenas um dos nossos maiores romancistas, de certo tão ao lado de um Machado em valor de observação e poder de imagens. Morto nesta tarde, creio que guardará no entanto um limite enorme entre o que foi aniquilamento. Fica assim o velho Graça no lugar de sempre, na vanguarda de luta, no exemplo tão preciso nesta hora às gerações de hoje, exemplo de um homem que leva no corpo morto, feridas profundas e deixa na alma e no exemplo, cicatrizes com que tanto o martirizaram, tão somente porque neste nosso pobre Brasil dos tecidos Bangu e das festas de Coberville, ainda teima em falar a verdade.

Newton Navarro - Tribuna do Norte, 21/03/1953

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