Obsolescência Planejada e assimetria
Publicação: 05 de Fevereiro de 2012 às 00:00
TOMISLAV R. FEMENICK [ Autor do livro "Controladoria e Auditoria de Estoques ]
Quando comecei a trabalhar em jornais era o tempo das máquinas de escrever, das notícias internacionais e nacionais recebidas em "código Morse" via rádio, das impressoras rotoplanas Marinoni e rotativas Reichenbach. A redação era agitada e barulheira; uma loucura ou uma festa; dependia de quem estivesse presenciando aquilo. O tempo passou, as máquinas de escrever deram lugar ao computador que também fez calar o som do radiotelegráfico, o offset aposentou as antigas impressoras e as redações de hoje têm um silencio de laboratório. Só nós sobrevivemos. Entretanto, acho que a maior mudança foi a interatividade que os jornalistas hoje têm com os leitores. O meu artigo sobre a Obsolescência Planejada provocou um tsunami de e-mails pedindo para que eu me aprofundasse no assunto. E eu que pensava que era um assunto árido de mais para ser artigo de jornal. Vamos em frente...
Quando a produção de uma mercadoria é planejada para que ela atinja o estado de obsolescência em tempo determinado, nessa programação há um componente importante: a assimetria de informação - o produtor sabe o tempo projetado para duração do produto, enquanto o consumidor não. Quando o consumidor se conscientiza da expectativa de vida do produto, ele tende a migrar para outro fabricante. Por esse aspecto, essa metodologia dificilmente consegue se firmar em mercados amplamente competitivos.
Por isso, a Obsolescência Planejada tem mais probabilidade de êxito quando a produção da mercadoria sob a qual está sendo aplicada é exercida por empresas monopolista ou oligopolista. Na maioria das vezes esse monopólio ou oligopólio é em decorrência de tecnologias cujas patentes são de propriedade do fabricante ou cujo direito de uso foi por ele adquirido. Se o produto for comercializado em um mercado altamente concorrencial, os consumidores podem dar preferência (ou mesmo migrarem) para aqueles bens ou serviços que funcionem por mais tempo.
O exemplo mais citado como fato concreto é o mercado automobilístico norte-americano nos anos 1960 e 1970. Até essa época, as montadoras do país praticamente só faziam veículos grandes e com alto índice de caducidade. Quando chegaram os carros japoneses, mais compactos e projetados para terem "maior tempo de vida", as fabricas americanas tiveram que redefinir o tamanho e tempo de uso dos seus carros.
Vários mecanismos de planejamento são usados para fazer surgir a obsolescência de uma mercadoria ou serviço, uma delas é o desuso por causas técnicas. Essa é a principal causa da obsolescência das mercadorias em geral. Aqui se tem dois tipos de desuso por causas tecnológicas: a) porque foram descobertas novas tecnologias após o lançamento do produto ou b) porque o primeiro lançamento da mercadoria com tecnologia inferior tinha como objetivo financiar as pesquisas para desenvolver as inovações do segundo lançamento, e assim repetidamente. No primeiro caso uma descoberta científica não programada provoca a caducidade do bem ou serviço, que geralmente acontece quando os produtos são fabricados por empresas concorrentes. O segundo caso é o que se identifica com o conceito técnico de obsolescência planejada - os produtos antecessores e sucessores são elaborados pela mesma corporação ou por empresas integrantes de um oligopólio.
Há ocorrências que fazem aflorar o "estado obsoleto" de um bem, como resultado de programação industrial. Uma delas é quando há necessidade de se fazem manutenção preventiva ou corretiva que envolva reparos ou substituição de peças. Nessas situações o custo dos reparos se aproxima, é igual ou é superior ao de substituição do bem antigo por um novo, contendo as inovações mais modernas. Outra forma é simplesmente o fornecedor suspender a assistência técnica e a reposição de peças. Uma terceira forma de evidência de obsolescência é quando um produto novo (com novas tecnologias) não oferece condições de interagir com produtos antigos (com tecnologias anteriores). Os exemplos mais comuns são os periféricos de computadores e alguns tipos de maquias industriais que não funcionam com softwares ou equipamentos recém-lançados.
Outro caso é o desuso por obsolescência funcional, que é um tipo específico de obsolescência técnica. Quando usada, os fabricantes introduzem novas tecnologias que substituem totalmente as tecnologias antigas. Uma loja na cidade de Mossoró (RN) pode servir de exemplo. Quanto inaugurada, vendia os antigos discos de vinil, fitas cassetes e fitas de videocassete, por isso seu nome: "Disco Fitas". Hoje a loja ainda existe, porém não vende nem discos de vinil, nem fitas cassetes, nem videocassete; produtos que não mais existem e que foram substituídos por outros. O desuso funcional é programado não com um aperfeiçoamento do produto, mas em função da descontinuidade total do produto.