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TN Família

Natal, 11 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 16:31

Origens de um ritual industrial

Publicação: 27 de Dezembro de 2009 às 00:00
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Apesar da incerteza que envolve a etimologia do nome¹, o panetone é, sem dúvida, um exemplo de sucesso industrial. O pai do panetone que conhecemos hoje foi o industrial milanês Ângelo Motta que, justo noventa anos atrás, formulou sua receita a partir daquelas tradicionais de sua região: somente massa mãe, ovos, açúcar, frutas cristalizadas e uva passa. Mais que tudo, porém, resolveu o problema estético: ao assar a massa, ele viu que ela "sentava", isto é, expandia-se mais no sentido da largura. Então inventou de colocar uma faixa de papel palha - que de fato continua até hoje - em volta da massa, conseguindo dar ao novo produto um visual mais vertical.

Alex RégisRechear pães com uva passa e frutas cristalizadas, pequenas Rechear pães com uva passa e frutas cristalizadas, pequenas "surpresas" que significam fertilidade e abundância
Panetone, então, como síntese de uma grande variedade de especialidades locais que existem há muito tempo: panone, pão amarelo, pão doce, pão de ouro, pão de Natal... Nomes diferentes, receitas diferentes, porém com características recorrentes: a cor amarela, por exemplo, porque esta cor foi sempre considerada como a cor da festa, da alegria e felicidade. Comum era o mecanismo simbólico que governava os processos de fabricação desses pães natalinos: pegar a comida de todos os dias (o pão sempre foi uma comida particularmente rica de valores culturais) e enriquecê-lo de ingredientes especiais, modificando sua composição e sabor. Adicionar aos elementos básicos do pão (farinha, água, fermento e sal) um pouco de ovos, manteiga e açúcar. Assim, quase como mágica, aquilo que era comida cotidiana transformava-se em um símbolo de festa.

Essa prática era antiga, assim como aquela de rechear esses pães com uva passa e frutas cristalizadas, pequenas "surpresas" que significavam fertilidade e abundância. O agrônomo bolonhês Vincenzo Tanara observa no século XVI que "nossos camponeses amassam farinha, água, fermento e sal e incorporam uva seca, abóbora adocicada com mel e pimenta do reino, e fazem uma bisnaga grossa, que chama de Pão de Natal".

Ao cruzar o calendário natural com o litúrgico, as culturas tradicionais marcaram sempre a diversidades de determinados dias do ano (rituais festivos) com a comida. A idéia de um "Natal o ano inteiro", que certa propaganda² tenta veicular em nossos tempos, décadas atrás seria incompreensível. De fato, o sentido profundo dessa ritualidade alimentar resiste ainda hoje, já que, passado o Natal, vender³ panetone é extremamente difícil.


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