Isaac Lira - Repórter
Ao lado da cama, a bandeja de comida intocada. O paciente precisa comer, mas não tem vontade. O estômago vazio se transfigura num dado ainda mais preocupante no prontuário: a perda de peso e a desnutrição. Dados da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, coletados em agosto desse ano, mostram que 51% dos pacientes internados em hospitais do Brasil estão em situação de "risco nutricional".
Rodrigo Sena
Airton Ribeiro diz que sente falta da comida de panela
Isso significa que esses pacientes podem entrar em desnutrição em breve. Os motivos são variados: consequências da doença, como falta de apetite, rejeição à dieta e até desencontros com o horário de exames. No Rio Grande do Norte, a situação não é diferente, e em alguns pontos é ainda mais grave. O Hospital Walfredo Gurgel, por exemplo, diagnosticou em pesquisa no fim do ano passado que 70,6% dos pacientes adultos internados apresentavam risco de desnutrição. No Hospital Onofre Lopes, uma porcentagem um pouco menor: 50%. "Isso significa que esses pacientes podem ou não chegarem a um quadro de desnutrição", explica Maria Elisa Diógenes, chefe da Divisão de Nutrição do Walfredo Gurgel. O risco normalmente está relacionado com a idade, dificuldades de mastigação e a perda do apetite.
Os motivos para esse quadro, presente em hospitais públicos e privados de todo o país, de acordo com a pesquisa da Associação Brasileira de Nutrição, são complexos. A pesquisa realizada no Walfredo Gurgel aponta que 43,4% dos pacientes entrevistados declararam já estarem sofrendo perda de peso antes de serem internados. Além disso, é preciso compreender a situação delicada em que se encontra um paciente internado. "O paciente é acostumado a um tipo de comida em casa, em comer sempre aqueles pratos. Depois, chega no hospital onde tem que fazer as refeições num ambiente diferente e uma comida muitas vezes diferente do que eles já estão acostumados. Por isso, muitas vezes há resistência à dieta", explica Márcia Regina Dantas, chefe do setor de nutrição do Hospital Universitário Onofre Lopes.
Esse é o caso do agricultor Airton Ribeiro, de 28 anos, que se feriu num acidente de moto e está há um mês e cinco dias no Walfredo Gurgel. Acostumado com a dieta livre de sua casa, o agricultor estranhou os primeiros dias no hospital. "Não tenho restrições a comida, mas no primeiro dia estranhei", diz. E complementa: "Aos poucos passei a comer de tudo e hoje estou muito satisfeito com o resultado".
Existe ainda uma outra situação complicada. Em hospitais como o Walfredo Gurgel e o Onofre Lopes, os serviços são de média e alta complexidade. Grande parte dos pacientes chega com problemas considerados sérios, como diabetes, hipertensão e problemas renais, mas não tiveram um acompanhamento adequado anteriormente. "Algumas pessoas não seguem dieta alguma em casa, mesmo sendo portadores de doenças que impliquem em limitações, como diabetes e hipertensão. No hospital, o paciente de hipertensão, por exemplo, passa a comer sem sal. E isso causa uma grande rejeição", aponta a nutricionista Maria Elisa Diógenes.
O cortador de cana Severino Ferreira é um dos que precisam conviver com as limitações impostas pela doença. A rigor, pode comer de tudo. Contudo, não sente vontade. Por conta disso, a nutrição limitou as refeições a papas, sopas e purês. Sem apetite, o cortador de cana acostumado a comer de tudo e em boa quantidade não sente falta do velho arroz com feijão. "Só sinto falta de comida de panela quando estou trabalhando. Aqui, tanto faz", diz Severino, que há mais de três meses "mora" no Walfredo Gurgel.
Quando o paciente não consegue responder ao tratamento, a equipe de nutrição do hospital é obrigada a passar suprimentos alimentares. O agravamento desse quadro pode resultar, por motivos físicos ou psicológicos, na necessidade de alimentação através de uma sonda.
Paciente é avaliado desde o início
Para que os pacientes de um hospital sejam alimentados e nutridos de forma satisfatória, é necessário um planejamento intenso da equipe de nutrição. O primeiro atendimento acontece, ou deveria acontecer, na chegada do paciente ao hospital. Nem sempre é feito. "Temos nutricionistas na porta de entrada há apenas dois meses", explica Maria Elisa Diógenes, do Walfredo Gurgel. No Onofre Lopes, o esforço é o mesmo. "Tentamos acompanhar o paciente do início ao fim", relata Márcia Regina Dantas.
Após a internação, a equipe precisa acompanhar, com visitas diárias, os pacientes. O procedimento é de checar o estado físico dos internados (o que a doença permite ou não comer) e a preferência de cada um. "Precisamos entender as peculiaridades de cada um. Não apenas físicas. Por exemplo, aqui no Walfredo os pacientes não aceitavam comer presunto, justamente porque eles não comem presunto em casa. Então, não adianta mandar presunto porque vai para o lixo", analisa a nutricionista Paula Dias, da equipe do Walfredo Gurgel.
Além desse cuidado, os nutricionistas precisam ficar atentos ao peso de cada paciente. No Hospital Onofre Lopes, a pesagem dos pacientes é feita semanalmente. No Walfredo, a intenção é a mesma, mas nem sempre é possível, por conta das dimensões do Hospital, que é o maior do Estado. "Não dá pra garantir a pesagem dos pacientes todos os dias ou todas as semanas. Mas o profissional precisa ter a sensibilidade de dar mais atenção aos que têm possibilidade maior de agravamento", comenta a gerente de nutrição clínica do Walfredo Gurgel, Paula Dias.
Quanto a isso, a questão da estrutura é fundamental. A equipe do Walfredo Gurgel, entre copeiros, técnicos, cozinheiros, etc, tem um déficit de mais de 50 profissionais. Sem contar com a falta de nutricionistas. De acordo com o Conselho de Nutrição, é necessário um profissional para cada 30 pacientes. O Walfredo Gurgel conta com sete nutricionistas de plantão para 15 setores e mais de trezentos pacientes. Teoricamente, são 170 leitos sem cobertura. Mas os profissionais se desdobram e tentam atender a todos. "Todos os setores estão cobertos por nutricionistas", garante Maria Elisa Diógenes.
Comida de hospital tenta vencer o mitoA maior dificuldade é vencer o mito. Quem pensa em hospital, naturalmente imagina um prato sem sal e sem gosto. Mas a tendência, cada vez mais, é conseguir equilibrar as necessidades calóricas, protéicas, vitamínicas, e etc, e o bom tempero e o bom gosto. É o que se convencionou chamar de gastronomia hospitalar, assunto cada vez mais presente e que, ao invés de significar algo sofisticado, expõe a necessidade de um bom cuidado com a comida.
"É preciso se preocupar com a apresentação e o sabor do prato. Sem dúvida isso ajuda o paciente a comer mais e um paciente que come mais se recupera de forma mais rápida", explica a nutricionista potiguar Rita Medeiros, do Hospital Natal Center, que faz parte da diretoria da Sociedade Brasileira de Nutrição Enteral e Parenteral. Para Rita, a tendência é que os hospitais tentem mesclar a boa nutrição e a boa comida.
Mais do que uma projeção futura, a satisfação do paciente com a comida, quando ele consegue come-la, dentro dos hospitais é uma realidade. Uma pesquisa no Walfredo Gurgel mostrou que mais de 60% dos pacientes entrevistados (um total de 140 pessoas) aprovava o sabor das refeições servidas no Hospital. O percentual de insatisfeitos é de 29%. "Percebemos que a insatisfação é mais acentuada quando se trata de pessoas com diabetes e hipertensão, além de problemas renais. Nesses casos, a modificação brusca na dieta é o fator mais complicado", diz Paula Dias, nutricionista do Walfredo Gurgel.
Quando se trata de pacientes com muitas restrições, o que resta é exercer a criatividade. A equipe do Walfredo Gurgel planeja o lançamento de um livro com receitas inventadas e produzidas para os pacientes. "Quando não pode pôr sal, substituímos por um tempero mais natural, como salsa ou orégano. Fazemos de tudo para deixar tudo gostoso", conta a gerente de produção da cozinha do Walfredo, a nutricionista Paula Bessa. Quanto ao sabor da comida, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE provou e aprovou a feitura dos pratos.