Luiz Zanin Oricchio
Cinquenta anos depois de sua morte, Marilyn Monroe continua um ícone rentável. Prova é a caixa “Marilyn Monroe - 50 anos” (R$ 199,90), lançada por seu estúdio, a Fox Filmes, para “comemorar” a data. São 13 filmes e quatro apoios de copos com a efígie da diva, morta de uma overdose em 5 de agosto de 1962.
Deixemos de lado os porta copos e sua eventual utilidade e concentremo-nos nos filmes. O filé mignon está aí em trabalhos que se apoiam na malícia e na sensualidade de Marilyn, como “O Pecado Mora ao Lado” e “Adorável Pecadora”. Ou em seu senso cômico, como “Quanto mais Quente Melhor”, considerada uma das melhores comédias de todos os tempos. Ou, ainda, na melancolia profunda de “Os Desajustados”, talvez o seu trabalho mais pungente. Mas não se fica indiferente diante de filmes como “Almas Desesperadas”, “Torrentes de Paixão”, “Os Homens Preferem as Loiras”, “O Rio das Almas Perdidas”, “Nunca Fui Santa”, “O Inventor da Mocidade” ou o musical de Irving Berlim “O Mundo da Fantasia”.
Neles, vê-se essa estranha magia que faz com que algumas raras pessoas brilhem e se avolumem na tela. Agigantam-se diante da câmera. Quando estão em cena não se olha senão para elas. Era assim com Marilyn, um caso de amor conflituoso com o cinema. A câmera gostava dela; os diretores e produtores, nem sempre. Dava dinheiro, mas causava muitos problemas. Sobre isso, a melhor anedota é de Billy Wilder. Perguntaram-lhe como suportava as crises e atrasos da atriz. Ele respondeu que tinha uma velha tia, séria, pontual e eficiente, mas ninguém pagaria um cent para vê-la numa tela. Marilyn causava todos os transtornos, mas o público a adorava.
Sempre se fala que o último filme de Marilyn é o crepuscular “Os Desajustados”, com Clark Gable, roteiro do então marido, Arthur Miller, e dirigido por John Huston. É, de fato, seu último trabalho completo.
Com frequência se esquece do filme interrompido “Something’s Got to Give”, inicialmente dirigido por George Cukor. No documentário “O Fim dos Dias” temos a reconstituição dessa história e a montagem das imagens remanescentes. Esse período turbulento é reconstruído pelas imagens e depoimentos das pessoas que com ela conviveram. Sua instabilidade emocional, a dependência de álcool e drogas, o relacionamento pouco ortodoxo com o psicanalista Ralph Greenson, os indícios de envelhecimento, a tentativa de se tornar uma atriz dramática com Lee Strassberg, o affair com os irmãos Kennedy - tudo parece ter criado uma pressão insuportável. Para a atriz e para o estúdio. As filmagens de “Something’s Got to Give” foram interrompidas. Cerca de um mês depois, a mais trágica das divas de Hollywood foi encontrada morta.
MARILYN MONROE - 50 ANOS Fox Filmes. R$ 199 (caixa com 13 filmes)
OS FILMES
Luiz Carlos Merten
Billy Wilder, que a dirigiu em dois de seus melhores filmes - “O Pecado Mora ao Lado” e “Quanto Mais Quente Melhor” -, dizia que Marilyn Monroe sabia criar o inferno num set de filmagem. Vivia sempre atrasada, esquecia o texto, tinha flutuações de humor. Uma simples cena de “Quanto Mais Quente Melhor” teve de ser repetida 50 vezes. E daí, perguntava o próprio Wilder? Na tela, Marilyn nunca é menos que esplendorosa. Um ícone de sexualidade. MM já era mito quando morreu, sozinha, em 5 de agosto de 1962, de uma dose excessiva de barbitúricos. Há controvérsia se foi um simples acidente, se quis se matar e até se foi assassinada. Marilyn estaria tendo um envolvimento com o presidente John Kennedy, já se havia envolvido com gângsteres e isso criava um problema para a Casa Branca.
Completam-se no domingo 50 anos da morte de Marilyn Monroe. O fato de ela haver morrido aos 36 anos, e em plena exuberância, certamente contribuiu para a permanência do mito. O público nunca teve outra imagem de Marilyn para cotejar. Pense em Marilyn e ela virá sempre jovem, eternamente bela como Chérie em “Nunca Fui Santa”, de Joshua Logan, ou Sugar em “Quanto Mais Quente Melhor” - sacudindo o bumbum em sua primeira cena, quando corre na estação de trens e a câmera segue colada em seu traseiro. Ou então naquele vestido cheio de brilhos (e que ressalta as formas voluptuosas) quando canta “Happy Birthy, Mr. President” - para John Kennedy.
É um dos mistérios do cinema. Como símbolo de vida, eterniza a imagem. Mas a própria imagem faz dele um signo de morte, porque ela não muda, repete-se ao infinito. Marilyn, eternamente jovem. É assim que ela ressurge em “Quanto Mais Quente Melhor”, que reestreia nesta sexta-feira em cópia nova, e também será vista no domingo, na maratona de sete filmes programada pelo canal TCM para lembrar sua morte. E até num pacote de DVDs, uma caixa Marilyn. Um parêntese - curiosa trajetória, a do próprio Billy Wilder. Colaborador de Ernst Lubitsch, de quem foi roteirista, ele se afirmou primeiro no film noir, antes de fazer sua opção pela comédia.
Ela raramente é romântica, para Wilder - Sabrina, talvez. É quase sempre cínica e, sempre, virulenta. “Quanto Mais Quente Melhor” ostenta a fama de ser a melhor comédia de Hollywood em todos os tempos, escolhida pelo American Film Institute. Jack Lemmon e Tony Curtis fazem músicos que testemunham um acerto de contas entre gângsteres, na Chicago dos anos 1920. Eles fogem e, para se esconder, travestem-se como mulheres numa orquestra de ‘senhoritas’ - e na qual Marilyn, como Sugar, toca banjo (e é mesmo um docinho). Curtis apaixona-se e, para impressioná-la, disfarça-se como milionário. Lemmon permanece como ‘mulher’ e, como tal, desperta a paixão de Joe E. Brown. Para tentar dissuadi-lo, retira o disfarce e mostra que é homem. Não faz mal, “ninguém é perfeito”, retruca Brown, o lendário Boca Larga
Wilder baseou-se numa comédia francesa, “Fanfarre d’Amour”, e o sucesso de “Quanto Mais Quente Melhor” foi tão grande que originou um musical da Broadway - centrado na personagem de MM e, por isso mesmo, chamado “Sugar”. Marilyn Monroe nasceu Norma Jean Mortenson em 1926. Nunca conheceu o pai biológico e a mãe, uma editora de filmes, morreu louca, internada num hospício. A própria Marilyn seria meio desequilibrada. Era o que sustentava Roy Ward Baker, que lhe deu seu primeiro papel de protagonista em “Almas Desesperadas” - o de uma babá assassina. Ele chegou a dizer que nunca sabia se Marilyn estava representando, ou simplesmente fazendo o papel.
“Almas Desesperadas” é de 1952 e Marilyn já fizera pequenas, mas importantes participações em dois clássicos de 1950 - “O Segredo das Joias”, de John Huston, e “A Malvada” de Joseph L. Mankiewicz. Conta a lenda que, depois de posar para um calendário, ela tentou fazer carreira no cinema, mas, na puritana Hollywood, uma mulher que posara nua não podia ser estrela. Marilyn teria entrado na Fox para ser ‘atendente’, em duplo sentido, de astros.
O próprio Darryl Zanunck, tycoon do estúdio, teria tentado, a todo custo, impedir sua ascensão, mas uma vez que o público descobriu Marilyn, passou a pedir mais.
Cinquenta anos depois de sua morte, Marilyn Monroe continua um ícone rentável. Prova é a caixa “Marilyn Monroe - 50 anos” (R$ 199,90), lançada por seu estúdio, a Fox Filmes, para “comemorar” a data. São 13 filmes e quatro apoios de copos com a efígie da diva, morta de uma overdose em 5 de agosto de 1962.
Divulgação
Marilyn em um dos melhores filmes de sua carreira, Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder.
Marilyn em um dos melhores filmes de sua carreira, Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder.Deixemos de lado os porta copos e sua eventual utilidade e concentremo-nos nos filmes. O filé mignon está aí em trabalhos que se apoiam na malícia e na sensualidade de Marilyn, como “O Pecado Mora ao Lado” e “Adorável Pecadora”. Ou em seu senso cômico, como “Quanto mais Quente Melhor”, considerada uma das melhores comédias de todos os tempos. Ou, ainda, na melancolia profunda de “Os Desajustados”, talvez o seu trabalho mais pungente. Mas não se fica indiferente diante de filmes como “Almas Desesperadas”, “Torrentes de Paixão”, “Os Homens Preferem as Loiras”, “O Rio das Almas Perdidas”, “Nunca Fui Santa”, “O Inventor da Mocidade” ou o musical de Irving Berlim “O Mundo da Fantasia”.
Neles, vê-se essa estranha magia que faz com que algumas raras pessoas brilhem e se avolumem na tela. Agigantam-se diante da câmera. Quando estão em cena não se olha senão para elas. Era assim com Marilyn, um caso de amor conflituoso com o cinema. A câmera gostava dela; os diretores e produtores, nem sempre. Dava dinheiro, mas causava muitos problemas. Sobre isso, a melhor anedota é de Billy Wilder. Perguntaram-lhe como suportava as crises e atrasos da atriz. Ele respondeu que tinha uma velha tia, séria, pontual e eficiente, mas ninguém pagaria um cent para vê-la numa tela. Marilyn causava todos os transtornos, mas o público a adorava.
Sempre se fala que o último filme de Marilyn é o crepuscular “Os Desajustados”, com Clark Gable, roteiro do então marido, Arthur Miller, e dirigido por John Huston. É, de fato, seu último trabalho completo.
Com frequência se esquece do filme interrompido “Something’s Got to Give”, inicialmente dirigido por George Cukor. No documentário “O Fim dos Dias” temos a reconstituição dessa história e a montagem das imagens remanescentes. Esse período turbulento é reconstruído pelas imagens e depoimentos das pessoas que com ela conviveram. Sua instabilidade emocional, a dependência de álcool e drogas, o relacionamento pouco ortodoxo com o psicanalista Ralph Greenson, os indícios de envelhecimento, a tentativa de se tornar uma atriz dramática com Lee Strassberg, o affair com os irmãos Kennedy - tudo parece ter criado uma pressão insuportável. Para a atriz e para o estúdio. As filmagens de “Something’s Got to Give” foram interrompidas. Cerca de um mês depois, a mais trágica das divas de Hollywood foi encontrada morta.
MARILYN MONROE - 50 ANOS Fox Filmes. R$ 199 (caixa com 13 filmes)
OS FILMES
Luiz Carlos Merten
Billy Wilder, que a dirigiu em dois de seus melhores filmes - “O Pecado Mora ao Lado” e “Quanto Mais Quente Melhor” -, dizia que Marilyn Monroe sabia criar o inferno num set de filmagem. Vivia sempre atrasada, esquecia o texto, tinha flutuações de humor. Uma simples cena de “Quanto Mais Quente Melhor” teve de ser repetida 50 vezes. E daí, perguntava o próprio Wilder? Na tela, Marilyn nunca é menos que esplendorosa. Um ícone de sexualidade. MM já era mito quando morreu, sozinha, em 5 de agosto de 1962, de uma dose excessiva de barbitúricos. Há controvérsia se foi um simples acidente, se quis se matar e até se foi assassinada. Marilyn estaria tendo um envolvimento com o presidente John Kennedy, já se havia envolvido com gângsteres e isso criava um problema para a Casa Branca.
Completam-se no domingo 50 anos da morte de Marilyn Monroe. O fato de ela haver morrido aos 36 anos, e em plena exuberância, certamente contribuiu para a permanência do mito. O público nunca teve outra imagem de Marilyn para cotejar. Pense em Marilyn e ela virá sempre jovem, eternamente bela como Chérie em “Nunca Fui Santa”, de Joshua Logan, ou Sugar em “Quanto Mais Quente Melhor” - sacudindo o bumbum em sua primeira cena, quando corre na estação de trens e a câmera segue colada em seu traseiro. Ou então naquele vestido cheio de brilhos (e que ressalta as formas voluptuosas) quando canta “Happy Birthy, Mr. President” - para John Kennedy.
É um dos mistérios do cinema. Como símbolo de vida, eterniza a imagem. Mas a própria imagem faz dele um signo de morte, porque ela não muda, repete-se ao infinito. Marilyn, eternamente jovem. É assim que ela ressurge em “Quanto Mais Quente Melhor”, que reestreia nesta sexta-feira em cópia nova, e também será vista no domingo, na maratona de sete filmes programada pelo canal TCM para lembrar sua morte. E até num pacote de DVDs, uma caixa Marilyn. Um parêntese - curiosa trajetória, a do próprio Billy Wilder. Colaborador de Ernst Lubitsch, de quem foi roteirista, ele se afirmou primeiro no film noir, antes de fazer sua opção pela comédia.
Ela raramente é romântica, para Wilder - Sabrina, talvez. É quase sempre cínica e, sempre, virulenta. “Quanto Mais Quente Melhor” ostenta a fama de ser a melhor comédia de Hollywood em todos os tempos, escolhida pelo American Film Institute. Jack Lemmon e Tony Curtis fazem músicos que testemunham um acerto de contas entre gângsteres, na Chicago dos anos 1920. Eles fogem e, para se esconder, travestem-se como mulheres numa orquestra de ‘senhoritas’ - e na qual Marilyn, como Sugar, toca banjo (e é mesmo um docinho). Curtis apaixona-se e, para impressioná-la, disfarça-se como milionário. Lemmon permanece como ‘mulher’ e, como tal, desperta a paixão de Joe E. Brown. Para tentar dissuadi-lo, retira o disfarce e mostra que é homem. Não faz mal, “ninguém é perfeito”, retruca Brown, o lendário Boca Larga
Wilder baseou-se numa comédia francesa, “Fanfarre d’Amour”, e o sucesso de “Quanto Mais Quente Melhor” foi tão grande que originou um musical da Broadway - centrado na personagem de MM e, por isso mesmo, chamado “Sugar”. Marilyn Monroe nasceu Norma Jean Mortenson em 1926. Nunca conheceu o pai biológico e a mãe, uma editora de filmes, morreu louca, internada num hospício. A própria Marilyn seria meio desequilibrada. Era o que sustentava Roy Ward Baker, que lhe deu seu primeiro papel de protagonista em “Almas Desesperadas” - o de uma babá assassina. Ele chegou a dizer que nunca sabia se Marilyn estava representando, ou simplesmente fazendo o papel.
“Almas Desesperadas” é de 1952 e Marilyn já fizera pequenas, mas importantes participações em dois clássicos de 1950 - “O Segredo das Joias”, de John Huston, e “A Malvada” de Joseph L. Mankiewicz. Conta a lenda que, depois de posar para um calendário, ela tentou fazer carreira no cinema, mas, na puritana Hollywood, uma mulher que posara nua não podia ser estrela. Marilyn teria entrado na Fox para ser ‘atendente’, em duplo sentido, de astros.
O próprio Darryl Zanunck, tycoon do estúdio, teria tentado, a todo custo, impedir sua ascensão, mas uma vez que o público descobriu Marilyn, passou a pedir mais.